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A valorização do potencial da mulher índia

Agência de Notícias do Estado de Alagoas - http://migre.me/mDY7
Autor: Marcelo Amorim
05 de mar de 2010

"Não sou uma estrela, mas gostaria de ser uma constelação, junto a muitas outras mulheres, para a construção de um mundo mais fraterno". Com esta máxima, a índia Xucuru-Kariri Graciliana Celestino tem se tornado uma das principais lideranças indígenas em Alagoas. Por seu notável potencial, desde dezembro ela assumiu mais uma outra missão: a Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres e Minorias de Palmeira dos Índios. Um desafio em que Graciliana já busca deixar sua marca.

Para alcançar o reconhecimento atual, esta mulher, nascida na aldeia Fazenda Canto, em Palmeira dos Índios, mãe de cinco filhos, teve de mostrar espírito de liderança já aos 12 anos de idade, quando o pai dela, o cacique Manoel Celestino, enfrentava perseguição do então chefe da Fundação Nacional do Índio (Funai) de Palmeira dos Índios, que o queria ver preso.

"Como eu era muito curiosa, escutava por detrás da porta. Foi quando, um dia, o chefe da Funai chegou a nossa casa acompanhado por policiais militares para prender meu pai, e eu o enfrentei. Perguntei se ele tinha mandado judicial e lembrei que na aldeia só podiam entrar policiais federais. Para mim, foi um grande despertar", relembra Graciliana. A partir deste episódio, o cacique Manoel Celestino achou que a filha tinha espírito de liderança e, com isso, ela passou a frequentar reuniões dos líderes indígenas alagoanos.

Dois anos após, em 1984, com apenas 14 anos, Graciliana foi indicada por sua aldeia para fazer parte do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos das Mulheres. Teve de enfrentar resistências de outras aldeias e, principalmente, dos índios e caciques. Até mesmo um abaixo-assinado chegou a ser feito, para que ela não assumisse a representação dos povos indígenas. Como é de costume na cultura indígena, os caciques são as maiores autoridades nas aldeias e determinam todos os encaminhamentos.

"As mulheres em nossa aldeia tinham apenas a visão de serem donas de casa. As índias que têm esse espírito de liberdade não são bem vistas. Enfrentei barreiras para garantir a vaga no conselho. Tive de enfrentar conflitos internos na comunidade. Viemos não para submeter os caciques, mas para sermos companheiras, trabalharmos lado a lado com eles. Tenho procurado resolver os embates com o diálogo. Tento combater a submissão nesse sentido. Sempre conquistei espaço e estou conquistando, mas com respeito", ressalta Graciliana.

Conselho dá representatividade às mulheres indígenas

Com sua entrada no Conselho Estadual de Defesa dos Direitos das Mulheres, Graciliana Celestino iniciou sua jornada de aprendizado. Com atuação focada nas mulheres índias, ela considerava que todas podiam superar a submissão, através de suas próprias potencialidades. O resultado foi a criação de uma organização indígena, um conselho intertribal, como forma de garantir autonomia nas decisões, envolvendo as mulheres índias.

"Lembro de Terezinha Ramires, Lígia Toledo, Vanda Menezes, Wedna Miranda e tantas outras mulheres valorosas, que me ajudaram a ser a Graciliana de hoje. Não tenho problemas em assumir que sou feminista, que combato a submissão, um pano para esconder a violência que foi plantada nos povos indígenas", destaca a líder Xucuru-Kariri.

Com a criação do Conselho Intertribal de Mulheres Indígenas, em outubro de 2000, Graciliana Celestino contribuiu ainda mais para o fortalecimento da representação feminina entre os índios alagoanos. Junto com ela, são defensoras dos direitos da mulher indígena: Demivalda, da aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio; Dona Salete, representante dos Tingui-Botós, em Feira Grande; Ana, da aldeia Karapotó, em São Sebastião; Jacira, representante dos Wassu-Cocal, de Joaquim Gomes, e Maria Berta, dos Geripankós, em Pariconha, são algumas das mulheres que somavam e ainda somam esforços com Graciliana através do Coimi. "A gente começou a se fortalecer", ressalta.

A partir da formação do Conselho Intertribal, Graciliana também iniciou contato com outras aldeias pelo Brasil e começou a fortalecer o movimento nacional de mulheres indígenas. Contatos na Amazônia, no Ceará e em várias outras partes do País estão sendo reforçados a cada demanda, a cada necessidade de avanço. "São sementes muito valorosas que estamos plantando", acredita.

Reconhecimento - Por sua atuação, competência e destaque entre as mulheres índias, Graciliana Celestino recebeu o convite e assumiu a Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres e Minorias de Palmeira dos Índios. Desde dezembro no comando da pasta, ela reconhece que há precariedade, mas já sabe qual o caminho que poderá trilhar: os editais para execução de projetos através de ministérios do governo federal.

A criação do Coimi também já rendeu reconhecimentos à índia Xucuru-Cariri. Dois anos após a criação do Conselho, em 2002, ela recebeu o Prêmio Ações Sociais Inovadoras do Banco Mundial (Bird), em parceria com o Programa Comunidade Solidária, em Brasília. Graciliana foi uma das oito mulheres índias homenageadas em todo o Brasil.

Em Alagoas, a representante indígena também já tem seus méritos reconhecidos pelo governo do Estado. No início de seu mandato, o governador Teotonio Vilela Filho concedeu a ela a Comenda Nise da Silveira, por sua luta em defesa das índias alagoanas.

"Tive que aprender com a forma diferenciada como nós somos. Mantenho uma visão voltada para os povos em geral e procuro trabalhar o amor entre as pessoas, para que possamos alcançar um mundo melhor", assegura Graciliana Celestino, índia, mulher e alagoana de destaque.

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