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Vale revê investimentos de longo prazo por temor de falta de energia

OESP, Economia, p. B1
30 de Mai de 2007

Vale revê investimentos de longo prazo por temor de falta de energia
Empresa estima que poderá haver desabastecimento a partir de 2012 e engaveta planos para alumínio e cobre

Anne Warth e Renée Pereira

O presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, disse ontem que as incertezas com o fornecimento de energia elétrica têm afetado os planos da empresa no Brasil. Segundo ele, embora o País tenha grandes reservas de bauxita, a empresa não pensa em novos investimentos na área de alumínio por temer falta de energia a partir de 2012 e 2013.

Além dos projetos de alumínio, a questão da energia tem afetado projetos nas áreas de cobre e níquel. 'Estamos priorizando projetos maiores e com menos consumo de energia, como Salobo (extração de cobre). Por esse problema, adiamos os projetos 118 e Vermelho (de níquel)', afirmou Agnelli, após participar do 3o Fórum Globo News, em São Paulo.

O executivo destacou que a empresa tem buscado no mercado internacional oportunidades para instalar esses projetos. Na avaliação dele, o País precisa debater a matriz energética considerando uma visão de médio e longo prazos. 'O fato é o seguinte: o País precisa ter mais geração de energia, seja nuclear, térmica, a gás, carvão, hídrica, o que for. Mas precisa ter mais energia.'

A preocupação de Agnelli é geral entre as empresas eletrointensivas, cuja energia representa boa parte dos custos dos produtos, como a indústria de alumínio e ferro-gusa. 'Hoje há muito pouco projeto entrando em operação no País e a questão do fornecimento de gás não está sendo solucionada na velocidade necessária', diz o diretor da Alcoa, Ricardo Sayão. Segundo ele, a empresa tem o suprimento garantido até 2020. 'Mas, se formos fazer algum tipo de expansão, não tem jeito. Haveria necessidade de mais energia', disse o executivo. Ao lado de BHP Billington, Alcan e Abalco, a empresa deve construir uma unidade de cogeração de energia a partir do carvão em São Luís (MA), de 50 MW.

O clima de incerteza é confirmado pelo vice-presidente da Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia Elétrica (Abiape), Cristiano Abijaode Amaral. Segundo ele, quando o governo garante que não vai faltar energia no País, ele está se referindo ao mercado cativo, atendido pelas distribuidoras. 'Isso não inclui o mercado livre, cujo aumento da oferta não tem ocorrido.'

O executivo afirma ainda que algumas empresas estão buscando projetos térmicos para tentar aumentar a capacidade de geração, já que não há empreendimentos novos de hidrelétricas. Hoje, diz ele, as empresas associadas da Abiape têm cerca de R$ 3 bilhões por ano para investir em geração e não tem onde pôr o dinheiro. As companhias querem, inclusive, disputar as usinas do Rio Madeira (Jirau e Santo Antônio), observou Amaral. Essas usinas aguardam o licenciamento prévio para serem leiloadas.

O vice-presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia Elétrica (Abrace), Eduardo Carlos Spalding, afirma que outro caminho encontrado pelas empresas para aumentar a autoprodução é a compra de participações em projetos em andamento, como foi o caso da aquisição feita pela Gerdau das hidrelétricas Caçu e Barra dos Coqueiros, que eram da Novelis.

'Estamos falando de empresas que atuam em mercados globais, que dependem de produtos altamente competitivos. Energia é uma questão de sobrevivência', disse ele, reclamando também dos preços cada vez maiores da eletricidade no Brasil. Fato que ainda deve causar muita preocupação às empresas, já que na falta de hidrelétricas a alternativa do País é aumentar a geração termoelétrica, considerada mais cara e poluente. 'O potencial hídrico do Brasil é enorme, mas temos visto cada vez menos os projetos se tornarem realidade', afirma o presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), Paulo Mayon.

Hoje, além dos problemas de licenciamento ambiental, o País convive com a falta de projetos hidrelétricos para leiloar. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) está fazendo uma série de estudos de viabilidade de usinas em vários Estados, especialmente no norte do País. Mas esses estudos só devem ficar prontos em cerca de dois anos.

Questão ambiental é um dos grandes obstáculos

Não faltam motivos para incertezas quanto à garantia de abastecimento de energia elétrica no País a partir de 2012. Um dos principais é a dificuldade que o governo tem enfrentado para conseguir o licenciamento ambiental de hidrelétricas, já que a maioria está localizada em áreas mais sensíveis do ponto de vista ambiental, como é o caso da Região Norte.

Um exemplo são as usinas do Rio Madeira (Jirau e Santo Antônio), que ainda não foram leiloadas por não terem a licença prévia autorizada pelo Ibama. O problema é que o complexo é a grande aposta do governo federal para garantir o abastecimento a partir de 2012. Para o País não ter restrições na oferta a partir dessa data, o licenciamento das usinas teria de sair até o fim desta semana. Por causa do período hidrológico do rio, se passar desse prazo, as obras das hidrelétricas atrasam em um ano, ou seja, só começariam em 2009.

Nesse caso, a expectativa é de suprir a demanda com energia produzida pelo gás, carvão, óleo combustível e diesel. 'O que vai na contramão da onda mundial para reduzir o efeito estufa', disse o vice-presidente da Abiape, Cristiano Abijaode Amaral.

Na geração térmica, o País também tem problemas, já que não há gás suficiente para atender a todos os mercados. A Petrobrás deverá comprar gás natural liquefeito (GNL) de outros países para abastecer as térmicas até que a Bacia de Santos comece a produzir.

Bernardo vê 'um certo exagero' na discussão
'Ninguém acredita que o Roger Agnelli esteja parando de investir', provoca o ministro

O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, aceitou as críticas do presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, de que é preciso debater a matriz energética brasileira e resolver o problema da criação de energia para os próximos oito ou dez anos.

Ele observou, no entanto, uma dose de exagero quando o executivo disse que a empresa está questionando os investimentos produtivos no Brasil por temer falta de energia no futuro.

'Acho que há um certo exagero. Ninguém acredita que o Roger Agnelli está parando de fazer investimentos', afirmou Bernardo, após participar de um debate sobre os desafios para o crescimento da economia do País ante o tamanho do Estado brasileiro, no 3o Fórum Globo News.

O ministro citou como exemplo as recentes aquisições da Vale do Rio Doce e o volume de investimentos da companhia. 'Agora, de fato, eu acho que nós sempre temos de ouvir essas vozes como um alerta. Não dá para achar que está tudo perfeitamente em ordem, que nós não precisamos nos preocupar', reconheceu.

A IMPORTÂNCIA DO PAC

Ele destacou que, do total de R$ 504 bilhões previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), R$ 274 bilhões serão utilizados em projetos energéticos. Segundo Bernardo, o grande número de pequenas usinas hidrelétricas em construção vai gerar 9 mil MW (megawatts) ou três quartos da geração de Itaipu, antes da inauguração das novas turbinas - 12 mil MW. O ministro prevê um aumento de 12% na atual capacidade instalada. 'Não estamos descuidando disso. O PAC foi montado justamente para acelerar a tomada e a implementação de decisões nessa área', destacou Bernardo.

O ministro esclareceu que a dificuldade na concessão de licenciamento ambiental para as usinas do Rio Madeira (RO) provoca uma grande discussão sobre a matriz energética do País. 'Temos de fazer um debate sobre como aproveitar todas as possíveis fontes de energia e diversificar ao máximo nossa matriz', admitiu.

A Petrobrás, lembrou ele, está fazendo essa ampliação na área do gás, ao explorar o potencial das bacias de Campos e de Santos e ao diminuir sua dependência em relação ao gás boliviano. 'Uma hora o governo vai ter de decidir o que fazer na área nuclear e acelerar o processo na área de hidrelétricas', salientou.

Bernardo disse, porém, que não há riscos para o crescimento do País, ao menos até 2011. 'Mas nós temos de construir hoje a energia extra que será consumida na seqüência, para garantir que o processo de crescimento seja sustentável, além de 2011', afirmou.

O ministro disse ainda não acreditar que haja queda de investimentos de empresas nacionais e estrangeiras no País por causa dessa questão. 'O ambiente de negócios precisa melhorar, mas ainda é muito favorável. Está havendo investimento, nós estamos a um passo de obter o grau de investimento e isso pode significar até mesmo uma enxurrada de investimentos no Brasil', observou.

OESP, 30/05/2007, Economia, p. B1

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