Valor Econômico, Brasil, p. A2
Autor: CHIARETTI, Daniela
13 de Jan de 2015
Uma ministra entre os elogios do setor privado e as flechadas de ambientalistas
Daniela Chiaretti
Dizem que a brasiliense Izabella Teixeira tem muito da chefe. Perfil técnico, pragmatismo e forte tendência à gestão fariam da ministra de Meio Ambiente alguém que toca o barco mesmo em mar turbulento. As similaridades com a presidente Dilma Rousseff, contudo, seriam para o bem e para o mal: Izabella detestaria críticas, deixa que a determinação se torne agressividade com frequência e fica desconfortável com comparações com a ex-ministra Marina Silva.
Mas o curioso não é essa lista de supostas características, montada a partir do relato de dez interlocutores, e sim sua origem. Empresários, gente de governo e de ONGs (além da própria ministra) foram ouvidos para avaliar a primeira gestão da bióloga com mestrado e doutorado em planejamento energético e ambiental.
O balanço revela algo insólito: os elogios partiram quase sempre do setor privado, e as flechadas, na maioria, dos verdes. O perigo é a perda de apoio político diante de confrontos com colegas de governo em ano de acordo climático, debates sobre matriz energética e exploração do pré-sal e o licenciamento das usinas do Tapajós.
Se é verdade que Izabella abriu espaço no Ministério do Meio Ambiente (MMA) para o setor produtivo, trincheira em que a pasta tinha pouca intimidade e histórico de insatisfação mútua, também não é de hoje que o movimento ambientalista brasileiro está distanciado da ministra do Meio Ambiente. "O ministério aumentou muito sua envergadura", diz Izabella em sua defesa e com algum sarcasmo (a gestão de Marina dialogava bem com as ONGs e a crítica, à época, era que o ministério era dominado por elas).
"Uma coisa é falar com um ministério ambientalista; a outra, com um ministério de desenvolvimento sustentável", alfineta. "O MMA é do governo, da sociedade brasileira. Não pode ser capturado por um segmento ou outro", continua. Certo, mas os produtores rurais têm seu canal de diálogo no Ministério da Agricultura, o setor de energia no de Energia, os artistas no de Cultura, é mais ou menos assim que o Brasil funciona.
O tema ambiental, é verdade, é transversal a todos os setores da economia - na semana passada, por exemplo, um protesto de pescadores contra uma decisão do MMA bloqueou a passagem de barcos nos portos de Itajaí e Navegantes, em Santa Catarina. " Mas como é isso? Estamos distantes dos ambientalistas simplesmente por que não jogamos do jeito que querem que a gente jogue?" reage Izabella.
Talvez o cânion que jogou Izabella de um lado e a maioria dos ambientalistas de outro foi o processo de votação do Código Florestal. Ela diz que "tínhamos que sair do embate para a conciliação", que a presidente queria "equilíbrio entre o social e o ambiental" e um critério onde "os diferentes fossem tratados de forma diferente". Soma a isso a avaliação de que o "nosso esforço era sair de um ministério que não tinha credibilidade nenhuma".
A não ser pela última frase, os ambientalistas apoiavam todos os outros pontos. O nó foi o resultado final e quanto avaliam que se brigou por ele. Ninguém fica totalmente satisfeito em situação de conflito onde é preciso conciliar interesses diferentes e a ministra diz que se conseguiu "o que era possível". Para as ONGs, foi pouco, mas lutam, agora, por ver o Código Florestal implementado, cada propriedade com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) em dia, passivos ambientais às claras, assim como os planos de recuperação.
"Os deputados da base ruralista queriam um tratamento de igualdade para todos, mas nós defendíamos a diferenciação. A ministra teve papel fundamental nisso", diz Antoninho Rovaris, secretário de meio ambiente da associação dos trabalhadores na agricultura, a Contag. "Em outras questões temos diálogo franco e aberto, mas não conseguimos ter avanço significativo", continua.
Durante a campanha eleitoral, nove entidades ligadas a movimentos quilombolas e comunidades extrativistas divulgaram uma carta expondo descontentamento com o "direcionamento político" dado pela ministra e seus subordinados no ICMBio, o órgão do ministério que cuida das unidades de conservação e dos conflitos quando há famílias vivendo nelas.
O tópico "unidades de conservação" é um dos mais sensíveis a críticas, dentro e fora do ministério. O Brasil tem um patrimônio enorme de parques que está sendo mal aproveitado e essa é uma agenda que pouco andou no ministério, mesmo que Izabella diga o contrário. Segundo dados do Instituto Semeia, a Nova Zelândia tem 4.470 contratos de concessão para seus parques enquanto o Brasil tem uma dezena. O Parque Nacional de Yosemite, nos EUA, recebe 3 milhões de visitantes ao ano - o Brasil, em seus 31 parques, recebe 5,6 milhões.
"Há um preconceito e não interessa se o dado está aí, se o desmatamento baixou, se ela criou unidades de conservação sem passivo fundiário", diz Ana Cristina Barros, diretora de infraestrutura para a América Latina da TNC, voz dissonante entre os ambientalistas sobre a gestão de Izabella. "Ela não tem influência política e nunca buscou conquistar esse status, para si ou para o ministério. Durante sua gestão, a agenda ambiental no Brasil e a do MMA esteve à mercê de outras agendas, como infraestrutura e agropecuária", diz Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. "Nos debates do Código Florestal, Izabella foi coadjuvante."
Murilo Ferreira, diretor-presidente da Vale, discorda: "Na gestão de Izabella há mais diálogo. Ela aprecia o contraditório." Um ambientalista alfineta: "Izabella não articula. Prefere espancar a baixar a cabeça. Isso leva a impasses políticos e, aí, tem que ceder demais. "
A presidente Dilma, que não costuma demonstrar angústia com questões ambientais, a manteve no cargo, mesmo quando todos - inclusive a ministra - davam como certo sua saída. Izabella dizia a amigos que estava de malas prontas para dividir seu tempo como professora convidada na Universidade de Stanford e no escritório francês do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que mira o consumo sustentável. Os dois convites ficaram no "pause": "Sou de uma época em que servidor público não diz não à Presidência da República."
Só a presidente conhece suas razões para ter mantido a ministra, mas abriu-se um campo de especulações. Há quem diga que o ministério está tão desvalorizado que ninguém o quer, que a pasta é uma vitrine de pancadas, que é ministério-problema. Dizem que Dilma gosta de Izabella porque teria "destravado o licenciamento ambiental", argumento usado tanto pelos empresários, que celebram a iniciativa, como pelos ambientalistas, que a enxergam com muita reserva.
Izabella rebate cada crítica e se irrita com várias. "Existe algum ponto fraco em sua gestão, ministra?". "Não avançamos na pauta urbana, das cidades sustentáveis", reconhece. "Não é possível, com a crise de água vivida por São Paulo, que disputa água com os vizinhos, ter os rios Pinheiros e Tietê poluídos e cortando a cidade. Tem que haver uma mudança."
Valor Econômico, 13/01/2015, Brasil, p. A2
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