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Turistas pagam R$ 800 para viver em aldeia indígena

FSP, Cotidiano, p. C3
27 de set de 2009

Turistas pagam R$ 800 para viver em aldeia indígena
Passeio de cinco dias inclui exercícios de arco e flecha e palestra sobre lendas indígenas
Turismo é maior fonte de renda das aldeias, que também vendem produtos típicos; índios ainda viajam para vender objetos da tribo

Fábio Grellet
Da sucursal do Rio

De dia, passeios guiados por índios pataxós, banho no rio, exercícios de arco e flecha, pintura do corpo e participação no ritual de confraternização. À noite, ao redor da fogueira, palestra sobre tradições e lendas indígenas e repouso em rede ou esteira, na oca. Nas refeições, pratos indígenas, claro.
Séculos atrás, essa rotina despertaria temor no homem branco. Hoje, turistas pagam R$ 800 para viver essa experiência durante cinco dias e quatro noites, em cinco aldeias na região de Porto Seguro (BA).
O passeio, criado pela agência Pataxó Turismo, atende no máximo a 12 pessoas por vez. As partidas ocorrem apenas nas semanas de lua cheia ou nova, sempre às terças-feiras. A empresa fica com 40% do valor e entrega aos índios os 60% restantes, conta Maria Luísa da Silva Cruz, dona da agência.
"Hoje, a principal fonte de renda das aldeias é o turismo", afirma Cruz, cuja agência oferece várias outras opções de passeios em áreas indígenas.
O mais barato dura três horas e inclui visita a uma aldeia e degustação de um prato típico -R$ 45, com transporte.
Embora os brasileiros sejam maioria, muitos estrangeiros também procuram esses passeios. "Tem portugueses, argentinos, gente de vários países da Europa", diz Cruz.
Atualmente, segundo a dona da agência de turismo, a única aldeia da região que não tem um programa pago para receber turistas é a Coroa Vermelha, em cuja área foi celebrada, em 26 de abril de 1500, a primeira missa no Brasil, e hoje é uma espécie de bairro de Porto Seguro-com comércios e a maioria das casas de alvenaria.
As outras aldeias, situadas em reservas indígenas mais afastadas da área urbana, oferecem visitas pagas. "Isso começou há 11 anos, quando a única aldeia visitada era Coroa Vermelha e três índias pataxós propuseram a comercialização de passeios nas aldeias", conta.
Os índios também lucram com a venda de artesanato. Um cocar chega a custar R$ 500, mas há peças bem mais em conta, como um apito (R$ 10, em média) ou um colar (R$ 15).

Da Bahia ao Rio
Mesmo com o turismo em alta na própria aldeia, os pataxós também viajam para vender artesanato. No calçadão da orla de Copacabana (zona sul do Rio), por exemplo, é comum encontrar índios -devidamente paramentados- vendendo objetos da tribo.
O pataxó Joselito Vaqueiro, 38, cujo nome indígena é Quati Pataxó, costuma passar mais tempo no Rio -onde esteve de março a agosto- que na Bahia.
"Divulgo a cultura do meu povo e ganho o suficiente para me manter", diz Quati, que trabalha com um cocar na cabeça e o corpo pintado. Enquanto oferece o artesanato, ele distribui panfletos das agências que promovem o turismo indígena.

Passeio em SP é mais barato, mas só por um dia

Da sucursal do Rio

Assim como os pataxós da Bahia, os 300 índios guaranis da aldeia Krukutu, em Parelheiros (zona sul de SP), também investem no turismo. Mas o resultado é bem diferente.
"A situação melhorou, mas a maioria depende mesmo é do emprego no posto de saúde ou na escola estadual", conta Olívio Jekupé, responsável por recepcionar os turistas na aldeia.
Cada um paga R$ 5 para assistir a uma palestra sobre a história dos índios, conhecer as instalações da tribo e percorrer uma trilha. Por mais R$ 2, assistem a uma apresentação do coral das crianças da aldeia. O roteiro é divulgado no site www.culturaguarani.org.br.
"O passeio foi legal. Nem imaginava como é a verdadeira rotina dos índios", aprovou Paulo Galvão de Faria, 26, que visitou a aldeia no dia 19.
De diferente, os visitantes viram apenas a língua -os moradores conversam em guarani-, e o artesanato. Em vez dos trajes típicos, vários índios vestiam camisas da seleção ou de clubes de futebol e era difícil alguém se apresentar com nome indígena -uma criança disse se chamar Robert.

FSP, 27/09/2009, Cotidiano, p. C3

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