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Steger defende fontes alternativas

GM, Energia & Saneamento, p. C4
Autor: STEGER, Ulrich
31 de mai de 2005

Steger defende fontes alternativas

Para o ex-ministro alemão altos preços do petróleo não vão inibir o maior consumo de energia. Todos os cenários para o setor indicam grande crescimento do consumo de energia nas próximas décadas. Existe, por parte de especialistas do setor, a preocupação com a extinção, no longo prazo, das reservas de petróleo, o que, segundo a Agência Internacional de Petróleo, deve acontecer em menos de 50 anos. Por outro lado, com o protocolo de Quioto, boa parte dos países assumiram o compromisso de reduzirem a emissão de gases poluentes, como o gás carbônico produzido pela queima de combustíveis fósseis.
O professor de gerenciamento ambiental do International Institute for Management Development (IMD) e diretor do Fórum de Gerenciamento de Sustentabilidade Corporativa, Ulrich Steger, indica que a perspectiva de alta dos preços do petróleo nos próximos anos não é suficiente para desacelerar a demanda por energia. Portanto, ações políticas adicionais são necessárias para coibir o aumento do consumo, em especial dos combustíveis fósseis. Ele também ressalta que mudanças precisam começar o quanto antes, já que alterações no sistema energéticos ocorrem lentamente.
Gazeta Mercantil - Que cenário de longo prazo o senhor considera o mais provável no setor energético mundial?
Ulrich Steger - O combustível fóssil parece estar localizado em grande parte em regiões politicamente instáveis ou ambientalmente sensíveis. Junto com a demanda crescente pelos Estados Unidos e pelas economias emergentes da Ásia, podemos esperar uma década de elevados preços energéticos, o que provavelmente por si não seria suficiente para desacelerar a demanda de energia. Ações políticas adicionais são necessárias para atingir as metas de redução do protocolo de Quioto em uma escala mundial, mas todos conhecemos as dificuldades. Os sinais mais promissores provavelmente são o crescimento a ritmo mais veloz que o esperado de fontes renováveis, especialmente a eólica e o fato de a limpeza do setor energético estar começando agora tanto na China como na Índia. Todos precisam ficar cientes de que para modificar de forma significativa o sistema de energia exigem-se cerca de 50 anos. Isso significa que temos de começar agora com mais determinação.
Gazeta Mercantil - Como conciliar o crescimento do consumo de energia com a maior responsabilidade ambiental, no que se refere à manutenção de ecossistemas e redução de emissões de gases poluentes?
Ulrich Steger - Precisamos trabalhar em duas frentes ao mesmo tempo. A primeira é a implementação acelerada de tecnologias de combustível eficientes e limpas. Dado o atual estado da tecnologia, podemos reduzir o consumo energético entre 30% e 60%, dependendo do setor, de uma maneira economicamente sólida. As ineficiências são criadas pelas leis, subsídios e falta de conscientização. A segunda é que precisamos acelerar a difusão da energia renovável. Para países como o Brasil, o potencial mais promissor, depois da energia hidrelétrica, é o biogás, que alimenta microturbinas para gerar calor e energia elétrica no mesmo processo. É extremamente eficiente em termos de custo nas regiões rurais, já que evita o custo de dispendiosas redes de distribuição.
Gazeta Mercantil - Que inovações são necessárias para fomentar um sistema mais confiável e reduzir a dependência no petróleo?
Ulrich Steger - O gargalo não é a tecnologia, muita coisa está acontecendo na área e pronta a entrar no mercado. O governo pode apoiar a introdução da tecnologia no mercado, o mais importante é obter economia de escala para tornar as tecnologia incipientes competitivas o mais rápido possível. A infra-estrutura tem de ser ajustada e novo pessoal qualificado precisa ser treinado, especialmente nas economias emergentes, para impedir que a instalação e manutenção de tais tecnologias energéticas novas seja um empreendimento arriscado.
Gazeta Mercantil - Em termos gerais, as opções de geração de energia renovável não respondem por uma parcela muito expressiva da demanda por eletricidade. Os defensores da energia nuclear dizem que seria impossível para a maioria dos países manter uma matriz energética de longo prazo sem incluir esta fonte de energia. O senhor concorda? O que deveria ser feito para que a dependência não mude das térmicas movidas para as usinas nucleares?
Ulrich Steger - Convém lembrar o que matou o crescimento previsto da energia nuclear na maioria dos países do mundo desenvolvido: não é a resistência política, mas a desregulamentação dos mercados de energia elétrica. Um reator "normal" é um investimento com antecedência de oito a dez anos e de US$ 4 bilhões ou mais. Poucas empresas de distribuição de energia estão dispostas a fazer um investimento de tão longo prazo em um setor onde agora o custo de capital supera 10%. Portanto, para tornar a energia nuclear uma opção economicamente viável em mercados desregulados é preciso alterar fundamentalmente o equilíbrio econômico da energia nuclear, por exemplo, com reatores de alta temperatura de 100 MW construídos de forma modular, que são pela lei da física inerentemente seguros. Quem prestar atenção no tempo exigido para isso descobrirá facilmente que ninguém pode esperar qualquer contribuição significativa antes de 2040, ou reestatizemos em massa nossas empresas de serviços públicos e retornemos ao monopólio, com todas as suas ineficiências.
Gazeta Mercantil - Como as economias em desenvolvimento e subdesenvolvidas participam dessa mudança no setor se as principais alternativas, no momento, como eólica ou solar, são muito dispendiosas?
Ulrich Steger - Existem alguns exemplos muito bons de compartilhamento de tecnologia, por exemplo, na área de turbinas eólicas entre uma companhia alemã e uma brasileira. Isto contribui para o desenvolvimento econômico bem como a modernização da economia. O fato de que a ExxonMobil e outras empresas induziram o governo Bush à crença ideológica de que poderia haver uma troca entre eficiência energética e desenvolvimento econômico não pode esconder fato de que existem muitos frutos ao alcance. Dadas as muitas diferenças no setor energético entre as economias emergentes, grande parte do investimento se paga via redução de custo de energia em um período relativamente curto. É necessário começar onde é sensato. Ninguém espera que o Brasil inicie um programa fotovoltaico maciço com bilhões de dólares...
Gazeta Mercantil - Que progresso tecnológico existe para garantir um futuro positivo?
Ulrich Steger - Quando se olha bem para frente, o hidrogênio pode ser a opção energética sustentável. Mas isso está um século distante e não deveria nos cegar para a necessidade de fazer agora o que é urgente: aumentar a eficiência energética com a atual tecnologia e desenvolver novas opções.
Gazeta Mercantil - Qual seria a contribuição do Brasil na busca de desenvolvimento sustentável no setor de energia?
Ulrich Steger - O Brasil tem muita experiência em tecnologia bioenergética, como transformar o açúcar em energia. Mas, esta experiência também indica o que pode sair errado se a decisão é apressar e criar monopólios em vez de mercados competitivos. O país tem o clima e a estrutura para desenvolver ainda mais esse potencial. Tem hidroeletricidade, que hoje pode ser obtida com menos impactos, e tem potencial para a energia solar.

kicker: "O mais importante é obter economia de escala para tornar as tecnologia incipientes competitivas o mais rápido possível"
kicker2: "O Brasil tem clima. Tem hidroeletricidade, que pode ser obtida com menos impactose potencial para a energia solar"

GM, 31/05/2005, Energia & Saneamento, p. C4

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