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Soja avança em direção à floresta

OESP, Especial, p. H8
03 de dez de 2009

Soja avança em direção à floresta
Produtores festejam aumento da safra com novas tecnologias, mas pesquisadora vê degradação do ambiente

Jocyelma Santana, Palmas (TO)

No Tocantins, o uso de áreas na Planície do Araguaia, regiões centro-oeste e sudoeste do Estado, para projetos de irrigação e plantio da soja é visto com receio por ambientalistas. Mas, para os agricultores, novas tecnologias estão sendo adotadas para reduzir os impactos ambientais e aumentar a produtividade sem ameaçar os parques de preservação.

No entanto, segundo pesquisadores, alguns desses projetos ainda estão em fase de regularização ambiental por não possuírem faixas de preservação permanente, como prevê a legislação em vigor, nem estudos de capacidade de carga e uso dos recursos hídricos.

Na safra 2007/2008, segundo dados da Secretaria Estadual da Agricultura, nos 331,6 mil hectares de área plantada, foram colhidas 903 mil toneladas de soja, a segunda maior colheita em dez anos, com aumento de 23,41% em relação à safra anterior. Em 24,07 mil hectares, a produção é irrigada. Destaque para os municípios de Lagoa da Confusão, Formoso do Araguaia e Pium, todos no Vale do Araguaia, onde estão algumas das maiores áreas de plantio da soja irrigada no Tocantins.

No segundo levantamento de intenção de plantio da Companhia Nacional de Abastecimento(Conab), divulgado em novembro, a previsão da safra 2009/2010 é que o Tocantins consiga fechar a produção em 907 mil toneladas de soja.

Para o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Tocantins (Faet), Júnior Marzola, os produtores estão investindo em novas tecnologias para aumentar a produtividade da soja sem que, necessariamente, sejam abertas novas áreas de plantio.

Segundo ele, houve aumento de produtividade - só da soja irrigada na última safra o Tocantins teve a melhor média desde 2000, de 45 sacas por hectare - e, em contrapartida, houve leve redução na área plantada.

Marzola diz que a zona de amortecimento da produção agrícola "é muitas vezes maior que o parque ambiental", fazendo com que o produtor tenha "bastante área para se precaver", sem que prejudique o Parque Estadual do Cantão, uma das reservas ambientais mais ricas do Tocantins.

Já Iracy Martins, doutora em ciências florestais e meio ambiente e pesquisadora da Universidade Federal do Tocantins (UFT), contesta esse "baixo impacto ambiental" da produção agrícola sobre o Cantão. A pesquisadora, que estuda o impacto ambiental de projetos hidroagrícolas na Planície do Araguaia, diz que "os rios da região estão, quase na sua totalidade, assoreados em consequência da remoção da cobertura da vegetação marginal" pelas lavouras. Segundo ela, a ausência dessa vegetação "desencadeia processos erosivos" que poderiam ser corrigidos com "tecnologias apropriadas e facilmente aplicáveis".

Críticas

Iracy identificou mais de 3 mil impactos ambientais provocados pelos projetos hidroagrícolas e foi uma das especialistas que mais criticaram a redução de 89% da Área de Proteção Ambiental (APA) do Cantão/Ilha do Bananal, determinada pelo governo do Tocantins em 2005.

Essa área que, antes da lei, tinha 1,7 milhão de hectares, era considerada pelo Ibama uma espécie de escudo, ao norte da Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do planeta. Apesar do questionamento judicial, proposto pela Procuradoria da República no Tocantins, e ainda sob análise da Justiça Federal, com a nova demarcação, a área passou a ter 185.425 hectares.

Nessa mesma região, estão as ipucas, fragmentos naturais de florestas, com características peculiares à Floresta Amazônica e à Mata Atlântica. Segundo Iracy, são "ecossistemas únicos no mundo", semelhantes aos kipukas nas lavas vulcânicas do Havaí e aos danibos na África.

Por causa da pesquisa desenvolvida por Iracy, desde o Tocantins passou a ter uma portaria que estabelece normas para proteger as ipucas. Ainda assim, esses fragmentos de florestas ainda estão sob ameaça porque ficam dentro das áreas agricultáveis e de plantio de arroz e soja, principalmente na região de Lagoa da Confusão, um dos celeiros agrícolas do Estado.

OESP, 03/12/2009, Especial, p. H8

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