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Sem-terra pedem fim de pesquisa com semente

OESP, Nacional, p. A14
22 de mar de 2006

Sem-terra pedem fim de pesquisa com semente

Militantes da Via Campesina vaiam participantes de encontro da ONU

A organização internacional Via Campesina está mantendo de maneira firme seu propósito de não dar sossego aos participantes dos encontros das Nações Unidas que se realizam no Brasil. Ontem, em Pinhais, na região metropolitana da capital paranaense, um grupo de aproximadamente 250 pessoas fez uma espécie de corredor polonês e vaiou aqueles que, a bordo de carros ou ônibus, entravam pelo portão principal do Expo Trade para participar da 8ª Conferência das Partes da Convenção Internacional da Diversidade Biológica (COP 8).

Os militantes da Via exigem que os participantes do encontro tomem posição claramente contrária à pesquisa, plantio e comercialização de sementes da tecnologia conhecida como Terminator - que estão sendo desenvolvidas desde 1998. Os testes a campo destas sementes, que se tornaram estéreis na colheita, estão sob moratória desde a Convenção de Diversidade Biológica de 2000.

Para a Via Campesina, a difusão dessas sementes pode representar um desastre para os agricultores, porque terão que comprá-las todos os anos. "Eles vão se tornar totalmente dependentes", observou Alderi Barros, que faz parte do Centro de Tecnologia Alternativa Popular, de Passo Fundo (RS), e participa dos protestos.

GRITOS

Uma semana atrás, a Via Campesina também tinha feito protestos em Curitiba, por ocasião da MOP3, outro encontro internacional, que discutiu sementes transgênicas. Os delegados que chegavam ao Expo Trade também eram recebidos numa espécie de corredor polonês e ouviam os militantes gritar: "Transgênico é veneno. Monsanto é assassina. Vocês estão na Via, na Via Campesina."

Um pouco antes, em Porto Alegre, onde a ONU promoveu um encontro sobre reforma agrária, a organização internacional também deu o tom das manifestações. Foram as militantes do movimento que destruíram o laboratório da Aracruz Celulose, na cidade gaúcha de Barra do Ribeiro.

Ao falar sobre os riscos das sementes Terminator, Alderi Barros defendeu o uso de sementes nativas pelos agricultores: "Se o produtor tiver a semente crioula na propriedade, ele pode reduzir custos e manter a diversidade."

SOBERANIA

Outro ativista presente em Curitiba, Alberto Gómes, da União Nacional de Organizações Regionais dos Camponeses Autônomos (Unorca), do México, foi enfático: "Essa é uma questão de soberania nacional."

A Via Campesina, que tem feito protestos ao redor do mundo, defende a manutenção da moratória e a rejeição da proposta do governo australiano, que permitiria os experimentos após avaliação caso a caso. "Essa porta não pode ser aberta", insistiu a camponesa canadense e integrante da Nation Farmer Union Karen Pederson.

Os delegados do Canadá defendem o fim da moratória, assim como os emissários dos Estados Unidos, da Austrália e da Nova Zelândia. Para Karen, isso é um absurdo: "O mundo precisa criar uma aliança contra o meu país e seus amigos que produzem uma arma de destruição em massa. É loucura basear o sistema de produção em alimentos que não vão crescer. É loucura tentar criar sementes que vão se matar."

Ordem judicial é descumprida

Venceu ontem o prazo de cinco dias determinado pela Justiça para os 800 integrantes da Via Campesina desocuparem o centro de pesquisas da multinacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste, Paraná, invadido terça-feira da semana passada. A líder dos invasores, Nilda Barbosa, disse que a fazenda continuará ocupada e novos militantes devem chegar ao local hoje. "Reintegração de posse é normal e não muda nada", comentou Nilda referindo-se ao vencimento do prazo. O governo do Paraná terá, a partir de hoje, 90 dias para liberar a fazenda, mas até ontem à tarde, segundo a Assessoria de Imprensa do Palácio Iguaçu, não havia recebido a ordem de reintegração de posse. Com o vencimento do prazo de desocupação, os invasores estão sujeitos ao pagamento de multa diária de R$ 100 por pessoa, o que, multiplicado pelos 800 invasores, representará R$ 80 mil diários na conta da Via Campesina. O centro da Syngenta foi invadido em protesto pelos experimentos com soja transgênica realizados no local.

OESP, Nacional, 22/03/2006, p. A14

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