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Se tem muvuca, aí vem água boa

Planeta Sustentável - planetasustentavel.abril.com.br
Autor: JOHN, Liana
27 de mai de 2014

Se tem muvuca, aí vem água boa

Liana John - 27/05/2014 às 16:02

Há 10 anos, em 2004, um grupo de lideranças indígenas fez um pedido especial aos parceiros de longa data do Instituto Socioambiental (ISA): "Vocês que são brancos precisam nos ajudar a amansar os seus parentes". Eles se referiam aos fazendeiros do entorno do Parque Indígena do Xingu que, em ritmo muito acelerado, abriam novas áreas para a agropecuária sem poupar sequer as matas ciliares ao longo dos rios. Os desmatamentos prejudicavam, em especial, as nascentes da bacia do rio Xingu, todas localizadas fora da área protegida. E, como consequência, reduziam a quantidade e a qualidade da água nas aldeias, dentro do Parque.
Esta demanda deu origem à campanha Y Ikatu Xingu ou "Salve a água boa do Xingu", coordenada pelo ISA, mas realizada graças a numerosas parcerias com outras organizações não governamentais de cunho ambiental e social, governos municipais, empresas e os mais variados atores regionais. A maior façanha dos coordenadores da campanha foi estabelecer uma conexão entre fazendeiros, trabalhadores, assentados, indígenas e pesquisadores em torno de um sistema de restauração das matas ciliares, com impacto direto sobre a conservação da água na bacia do rio Xingu.
Em lugar de sugerir o plantio de mudas de árvores nativas, nas áreas a serem restauradas, criou-se um novo sistema, de semeadura de espécies nativas misturadas com plantas usadas na adubação verde. A distribuição das sementes passou a ser feita com as máquinas e implementos disponíveis nas fazendas, com ganho de eficiência e redução significativa de custos. Apelidada de "muvuca", a nova proposta de restauração florestal também envolveu indígenas, assentados e trabalhadores rurais, responsáveis pela coleta de sementes de árvores nativas, vendidas aos fazendeiros comprometidos com a conservação.
"Após ouvir as demandas do diversos atores, identificamos a necessidade de uma alternativa mais barata para a restauração de matas ciliares, que viabilizasse o plantio de árvores nativas nas fazendas", conta Rodrigo Gravina Prates Junqueira, atual coordenador de Y Ikatu Xingu. "Como acreditamos na abordagem por bacia hidrográfica e na abordagem territorial, não fazia mais sentido só trabalhar com os povos indígenas".
Graças ao sistema de muvuca, cerca de 3 mil hectares de matas ciliares já estão em recuperação na bacia do rio Xingu e a semeadura de novas áreas entrou no calendário operacional das fazendas. A Rede de Sementes do Xingu mobiliza pelo menos 350 coletores cadastrados nos municípios do entorno do Parque Indígena do Xingu e nas aldeias indígenas, com outro tanto de familiares e colaboradores eventuais.
O processo começa com o isolamento da beira de rios, lagoas e reservatórios, com cercas, para que o gado não tenha mais acesso direto à água e deixe de provocar impactos, como compactação do solo e erosão das margens. Bebedouros construídos no meio dos pastos, com acesso controlado e uso rotativo, dão conta da dessedentação dos animais.
Em seguida é feita a semeadura da "muvuca", na área isolada. Os adubos verdes - como feijão-guandu e feijão-de-porco - crescem mais rápido e sombreiam o capim, abrindo espaço para a germinação das árvores nativas. Esses adubos verdes também fixam nitrogênio, um dos nutrientes básicos para o crescimento vegetal, de modo que as novas árvores se estabelecem rapidamente. "No sistema de muvuca, as árvores já nascem no ambiente em que vão crescer e, portanto, não precisam de adaptação, como é o caso das mudas", diz a bióloga Artemizia Nunes Moita, gerente de meio ambiente da Agropecuária Fazenda Brasil (Grupo AFB). Ela é a responsável pela recomposição da vegetação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) de diversas propriedades, localizadas no leste do Mato Grosso, nas vizinhanças de Nova Xavantina e Barra do Garças. Segundo ela observou, as mudas sofrem com o calor e o sol direto, ao serem transferidas das condições amenas do viveiro para o campo. Por isso, não conseguem competir com o capim braquiária, extremamente agressivo, e têm alto índice de mortalidade, ao redor de 45%.
As mudas também demandam mais manutenção, com 4 a 5 capinas até a estabilização, e isso significa aumentar os custos com mão-de-obra. Já as sementes da muvuca tem alto índice de germinação, contam com a sombra dos adubos verdes para crescer e só requerem uma capina até se estabelecerem. "Hoje utilizamos uma mistura de sementes de 82 espécies diferentes, todas aqui da região, e notamos que depois do primeiro ano, quando as árvores emergem, elas servem de poleiro para aves, que complementam o processo de restauração ao trazer sementes de outras espécies, de matas próximas, que vão germinar ali", acrescenta Artemizia.
O baixo custo da muvuca permite, ainda, a restauração de faixas de mata maiores do que o exigido por lei, formando corredores entre as reservas florestais e as APPs de cada fazenda ou mesmo entre as matas ciliares de fazendas vizinhas. Assim, além do benefício da conservação da água, amplia-se a disponibilidade de abrigo e alimento para a fauna silvestre. E a presença desses animais junto às lavouras e pastagens, por sua vez, ajuda no controle natural de pragas, reduzindo a necessidade de químicos.

Planeta Sustentável, 27/05/2014

http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/agrisustenta/2014/05/27/se-…

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