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Sabendo usar não vai faltar

CB, Opinião, p. 17
Autor: BERTELLI, Luiz Gonzaga
30 de Jul de 2007

Sabendo usar não vai faltar

Luiz Gonzaga Bertelli
Diretor de Energia da Fiesp e presidente executivo do CIEE

Com a dificuldade da concessão das licenças ambientais para os projetos de geração de eletricidade e a pretendida possibilidade de o país crescer mais de 5% ao ano, haverá necessidade da adoção de efetivas ações a fim de afastarmos o desabastecimento energético. Empresários de destaque proclamaram a intenção de postergar ou proceder ao cancelamento dos investimentos produtivos em virtude da falta de garantia da oferta de energia.

Com efeito, é inquestionável a necessidade de o Brasil contar com mais geração energética, oriunda de fonte hídrica (incontestavelmente mais barata e abundante). Caso isso não suceda, será inexorável novo desabastecimento nos próximos três ou quatro anos.

Estudos acadêmicos defendem, ademais, a possibilidade de redução da demanda energética, especialmente na indústria, eis que o setor é o maior usuário. De acordo com o último balanço energético, o uso da energia no parque industrial foi da ordem de 41% do total consumido, enquanto os segmentos residencial e comercial e o de serviços ficaram com 34% e 12%, respectivamente.

Para outros especialistas, o desperdício de energia elétrica entre nós é equivalente à produção de cinco usinas nucleares similares à Angra 3, que produzirá 1,4 mil MW. O consumo predatório da energia é oriundo do emprego de máquinas antigas e motores ultrapassados, lâmpadas obsoletas, aparelhos domésticos e iluminação urbana.

Outra esperança frustrada do governo era a transformação da biomassa em eletricidade. Contudo, os projetos não corresponderam às expectativas. Existe acentuado corporativismo no setor elétrico a fim de contemplar, no planejamento energético, a biomassa, principalmente do bagaço da cana. Alentado estudo da Fiesp calcula que, se forem instaladas caldeiras e turbinas mais eficientes para processar o rejeito de industrialização da cana, poderiam ser gerados mais de 5 mil MW de eletricidade na safra em curso de 2006/07. Isso deveria ocorrer a custo relativamente competitivo de R$ 109 MWh, preço inferior às hidrelétricas (R$ 112), carvão (R$ 145), óleo combustível (R$ 175) e eólica (R$ 232).

Hoje, as indústrias sucroalcooleiras geram energia para o consumo próprio, mas somente 10% delas, de um total de 350 unidades, vendem o excedente no mercado. Algumas usinas de açúcar e álcool continuam desmotivadas diante da falta de investimentos necessários para a modernização dos equipamentos e dos baixos preços praticados nos leilões de energia. Com a suspensão da queima da cana e aproveitamento da palha, o potencial gerador irá crescer substancialmente.

Além da hipótese do desabastecimento elétrico, as empresas nacionais, mormente as eletrointensivas, convivem com as tarifas mais altas, reajustadas em cerca de 150%, no período de 2001 a 2006. A tarifa subiu de R$ 82 por MWh para R$ 206/MWh. Foram criados no período 10 novos encargos governamentais, além dos tributos normais, enquanto o IPCA variou apenas 50%.

Com as usinas térmicas, a energia ficará mais cara e até viabilizam, economicamente, as nucleares. O Brasil adquiriu US$ 750 milhões em equipamentos para a usina nuclear 3 e eles estão armazenados, em Angra, há 21 anos, com gastos de manutenção da ordem de US$ 20 milhões anuais.

Energia é insumo fundamental a fim de assegurar a competitividade de setores como a indústria siderúrgica e do alumínio. Enquanto isso, o preço do petróleo importado de melhor qualidade já supera US$ 75/barril, com a possibilidade de alcançar os US$ 100/barril no final da década, na visão de consagrados economistas mundiais.

Apesar do esforço desenvolvido para alcançarmos a auto-suficiência, as importações do petróleo correspondem a cerca de 200 mil barris diários. Em compensação, nos primeiros dias de julho, o álcool hidratado é vendido nas usinas a R$ 0,57/litro, enquanto o anidro, misturado à gasolina (25%) a R$ 0,66. Em decorrência, o combustível da cana amplia, sensivelmente, a sua participação no mercado das energias, incentivando a venda de veículos multicombustíveis (flex).

As tarifas elétricas tendem ao crescimento, pois a eletricidade está ficando escassa. Persiste o risco de faltar eletricidade, a partir de 2010 ou antes, na dependência das chuvas. Desde 2003, elas continuam generosas e os atuais reservatórios das usinas hidrelétricas permanecem cheios.

É insofismável que a construção de novas usinas hídricas ou térmicas, movidas a gás natural ou derivados do petróleo, demorem em média 5/7 anos para a conclusão, isso se forem concedidas as decantadas autorizações ambientais. Na última década, o tempo médio para a concessão de licença prévia para novas usinas hídricas foi de mais de três anos. Saíram apenas 10 licenças ambientais, no quatriênio passado. Enquanto a energia não vem, o melhor para as empresas brasileiras é racionalizar o seu emprego.

CB, 30/07/2007, Opinião, p. 17

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