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Ribeirinhos trocam diesel pela energia do Sol

Valor Econômico, Empresas, p. B2
03 de ago de 2018

Ribeirinhos trocam diesel pela energia do Sol

Por Daniela Chiaretti

Comunidades ribeirinhas que vivem em uma reserva extrativista na Amazônia do tamanho do Estado de Sergipe estão trocando energia gerada a diesel, cara e poluente, pela do Sol, mais barata, limpa e disponível.
A iniciativa ocorre no norte do Pará e acende a luz de 2.250 famílias espalhadas na reserva Verde para Sempre, no município de Porto de Moz. São pessoas que vivem do extrativismo, da pesca e da agricultura de subsistência e moram em palafitas de madeira.
O projeto é uma iniciativa do Ministério de Minas e Energia (MME) com recursos do Programa Luz para Todos, em conjunto com o Instituto Chico Mendes para a Biodiversidade (ICMBio) e os ministérios da Saúde e da Educação.
"Desconhecemos outro projeto deste tamanho na Amazônia", diz Domingos Romeu Andreatta, secretário-adjunto de energia elétrica da MME. Os empreendedores dizem que a construção e instalação de sistemas solares é "a maior em escala, potência instalada e quantidade de pessoas beneficiadas" do país.
Iniciado em outubro de 2017, o projeto tem investimento contratado de R$ 56 milhões e instalou sistemas de energia solar de 45 kWh ao mês em 2.151 casas, 64 igrejas e 35 salões.
"Isso significa que as famílias podem, agora, acender a luz, carregar o celular, assistir televisão, ter geladeira", diz Surya Mendonça, CEO da Órigo Energia, a empresa contratada pela distribuidora paraense Celpa para construir e instalar os sistemas solares.
Foram instalados sistemas de 90 kWh/mês em 66 escolas básicas. Outros de 180 kWh/mês fornecem energia a 14 escolas polo e quatro postos de saúde. Os ribeirinhos estavam espalhados em uma área de 1,3 milhão de hectares da reserva.
Foi um desafio de logística para os técnicos da Órigo Energia levar os pesados painéis solares pelos rios paraenses e navegar em uma área gigante, de 23 milhões de hectares no total.
Veia o vídeo institucional sobre o projeto
A aventura começava ao carregar os pesados painéis solares nos barcos e levar dois dias para chegar a Porto de Moz. Outra experiência inusitada foi descarregá-los em lugares sem porto. Havia o perigo constante de os rios amazônicos estarem na mira de assaltantes. "Tivemos sorte e não nos aconteceu nada", conta o executivo.
Mendonça lembra os desafios de levar os painéis solares que chegavam em Belém vindos da China. São equipamentos pesados. "O telhado das casas poderia não aguentá-los, então construímos estruturas suspensas, acompanhando as palafitas, porque a água dos rios sobe muito quando vem a estação chuvosa", conta.
Ribeirinhos costumam viver isolados na Amazônia, as comunidades são pequenas e espalhadas por áreas gigantescas. A geração de energia é por diesel.
"Meu pai chegou aqui em 1916, eu nasci em 1957. Tenho 36 netos e cinco bisnetos", conta Guilherme Faria de Oliveira, em vídeo produzido pela Órigo Energia. "Gastava R$ 400,00 por mês com combustível, e tudo era puxado pelo motor", diz, referindo-se ao gerador a diesel. "Ligávamos o gerador todos os dias às i8h e seguia até a uma da madrugada", conta o ribeirinho.
A Órigo foi fundada em 2010 com o nome Empresa Brasileira de Energia Solar por quatro engenheiros. Depois foi vendida e passou a ser controlada por dois fundos de private equity, o americano TPG (antigo Texas Pacific Group) e pelo brasileiro MOV. Passou a chamar-se Órigo em 2017.
A Órigo atua no pulverizado mercado brasileiro da energia solar distribuída. A empresa opera em outro modelo de negócio, o das fazendas solares, que podem chegar a gerar até 5 MW.
Este novo segmento é moldado para pequenos estabelecimentos como restaurantes, bares, academias de ginástica, postos de gasolina. Eles pagam uma mensalidade para a fazenda solar e recebem créditos em sua conta de luz. "O cliente não faz nenhum investimento e economiza até 10% na sua conta", explica Mendonça.
A Órigo tem uma fazenda solar em operação em Minas desde outubro e mais três entrando em operação. A sede da empresa fica em Campinas (SP). Tem 115 funcionários e faturamento de R$ 50 milhões em 2017.
"Esta solução servirá de modelo para atender áreas onde não for possível a extensão de redes de energia por motivos técnicos ou questões ambientais", diz nota da assessoria de comunicação do Ministério de Minas e Energia.
Além da Resex Verde para Sempre, já está em andamento, no MME, um novo projeto para o atendimento de 1.361 casas de ribeirinhos nas proximidades da hidrelétrica de Tucuruí. Há um terceiro projeto em análise no Ministério, na região próxima à usina de Belomonte e um quarto, no Amazonas, para prover de energia solar 2.484 domicílios.
"Hoje este é o modelo mais adequado para providenciar energia a comunidades isoladas", diz Andreatta, do MME.
O Programa Luz para Todos alcançou 3,4 milhões de domicílios desde o início, em 2005, no Brasil.

Valor Econômico, 03/08/2018, Empresas, p. B2

https://www.valor.com.br/empresas/5708573/ribeirinhos-trocam-diesel-pel…

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