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Representante da Eletrobrás é ferido após defender hidrelétrica

Amazônia.org
Autor: Thais Iervolino
20 de mai de 2008

Durante evento em Altamira, índios reagem contra coordenador da empresa, que sai machucado no braço.

"Índia Tuíra se aproxima do representante governista e mostra o seu facão". Esse famoso episódio ocorrido há quase 20 anos voltou à cena hoje (20), quando grupos de índios presentes no Encontro Xingu Vivo para Sempre manifestaram sua posição contrária aos planos de construção da usina Belo Monte para o representante da Eletrobrás, Paulo Fernando Vieira Souto Rezende.

O incidente aconteceu depois da explanação de Rezende, que defendeu a construção da usina. "Quero esclarecer aqui informações que foram faladas erroneamente pelo palestrante anterior", disse ele apontando Oswaldo Sevá, que momentos antes havia criticado duramente o projeto.

"Há 20 anos, o governo não levava em conta os índios e as questões ambientais, agora é diferente", explicou Rezende. Segundo ele, é preciso que os brasileiros deixem de ser egoístas. "Em 2017 haverá cerca de 204 milhões de pessoas. Todos têm que ter energia. Se a energia da região sudeste acabar, a gente manda a energia [gerada por Belo Monte]
para lá", disse. Durante sua apresentação, o público, cerca de mil pessoas, vaiou duramente o representante do governo, que por isso elevou o tom de voz.

Após sua fala, os índios se levantaram e começaram a cantar. Os cerca de 600 índios presentes se aproximaram cantando e empunhando bordunas - espécie de porrete - e terçados - tipo de facão usado para abrir picadas na mata. Formou-se então uma roda de indígenas em torno de Rezende, que só conseguiu sair da área com a intervenção dos
organizadores. Na confusão, o representante saiu ferido no braço direito e sem a camisa. Ele foi direto ao hospital da cidade mas não corre risco de morte. Após sua saída, os índios continuaram a dançar e se manifestar.

O bispo do Xingu, Dom Erwin Krautler, que estava ao lado de Rezende no momento que a confusão aconteceu, lamentou o incidente. "Levei um tremendo susto. Sangue derramado, seja de quem for, eu considero sempre uma tragédia", diz. Para Dom Erwin, que está em Altamira há mais de 30 anos e trabalha diretamente com os índios, a reação agressiva deles é resultado de várias experiências ruins com aproveitamentos hidrelétricos que afetam suas terras. "Os índios estão indignados e revoltados porque nunca foram consultados a respeito de hidrelétricas no Xingu", revela.

A mesma avaliação foi feita pelo diretor da International Rivers Network, que acompanha os projetos na bacia do rio, Glenn Switkes. "Os planos são feitos sem a participação dos índios e eles têm os seus próprios planos para a bacia hidrográfica", afirma.

O procurador da República Felício Pontes Jr, responsável pela defesa dos direitos indígenas no Pará, se mostrou preocupado: "estamos avisando o Governo Federal há dez anos que haverá conflitos por causa da barragem no rio Xingu, já tentamos convencer as autoridades a consultar os povos indígenas e o triste episódio de hoje mostra que eles estão dispostos a resistir até fisicamente para que não seja feito o barramento".

A organização do encontro também lamenta o episódio. Foi divulgada uma nota dizendo que a violência contraria o espírito de diálogo, que é o objetivo do evento.

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