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Projeto libera ocupação de restinga

OESP, Vida, p. A18
02 de Set de 2009

Projeto libera ocupação de restinga
Proposta de resolução, que deve ser votada hoje pelo Conama, pode prejudicar mata; Minc diz que mudou de idéia

Afra Balazina

O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) pode retirar a proteção permanente das áreas de restinga no País. Se aprovada, a medida provocará, na avaliação de ambientalistas e do Ministério Público Federal, um aumento do desmate de mata atlântica, bioma já ameaçado no Brasil. A restinga é o depósito arenoso paralelo à linha da costa, muitas vezes coberto por vegetação. A área é cobiçada por resorts e condomínios que querem se instalar no litoral.

Atualmente, é considerada Área de Preservação Permanente (APP) - região que não pode ser alterada - uma faixa de restinga de no mínimo 300 metros, medida a partir do ponto mais alto em que chega a maré. Porém, a proposta de resolução que está na pauta do Conama prevê a revogação desse dispositivo. A procuradora Ana Cristina Bandeira Lins, da Procuradoria da República em São Paulo, preocupa-se com a aprovação. "Essa norma permitiu uma grande preservação e a regeneração de mata onde ela estava destruída ao longo da costa . E, agora, estão querendo revogá-la na calada da noite." Em sua opinião, é grave um órgão como o Conama se posicionar dessa forma. "O conselho fez uma moção ao Congresso porque os parlamentares estavam querendo alterar o Código Florestal para reduzir as APPs. E, agora, age da mesma maneira."

O Ministério Público Federal e o Estadual participam do conselho como convidados, mas não têm direito a voto. O governo federal detém a maioria dos assentos no Conama, que inclui ainda governos estaduais e municipais, setor empresarial e a sociedade civil.

Cybele da Silva, da Associação EcoJuréia, que pediu vistas ao processo, teme que a resolução cause um grande dano ambiental. Para o ambientalista Carlos Bocuhy, do Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental), a praia virgem de Itaguaré (próxima à Riviera de São Lourenço, em Bertioga), assim como boa parte do litoral norte de São Paulo, poderia ser prejudicada com a medida.

NOVA POSIÇÃO

O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), que assina a proposta de resolução, afirmou ontem à noite ter mudado de posição. Ele disse ter visto que o texto estava com "problema" e que vai propor hoje aos conselheiros a manutenção da preservação obrigatória dos 300 metros nas restingas.

Porém, disse, poderá flexibilizar o tamanho da proteção (para mais ou para menos) após a realização de estudos pelos Estados. "O litoral nunca é uma linha reta, pode determinar que numa parte é 200, noutra 400 metros", afirmou Minc.

Antes de o ministro se posicionar, o coordenador do núcleo mata atlântica do Ministério do Meio Ambiente, Wigold Shaffer, defendeu a resolução.

"Não estamos retirando proteção da restinga preservada." Segundo ele, a resolução é parte da regulamentação da Lei da Mata Atlântica, aprovada em 2006. "Não vai trazer prejuízo para o que sobrou de vegetação. A partir dela, a lei da mata atlântica que vai garantir a preservação, inclusive além dos 300 metros, quando houver vegetação", explica Shaffer.

Já as áreas sem vegetação ou ocupadas, como Copacabana e Guarujá, perdem a proteção nas restingas. Segundo ele, a resolução foi construída ao longo de dois anos e meio de discussão. "Mas qualquer conselheiro pode apresentar emenda para mudá-la."

OESP, 02/09/2009, Vida, p. A18

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