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Programas tratam crise hídrica com superficialidade

OESP, Política, p. A6
14 de Jul de 2014

Programas tratam crise hídrica com superficialidade
Documentos registrados pelos três principais candidatos ao governo paulista dedicam pouco espaço à ameaça de falta d'água no Estado

RICARDO CHAPOLA - O Estado de S.Paulo

Os três principais candidatos ao Palácio dos Bandeirantes dedicam pouco espaço à ameaça de falta d'água que ronda a Grande São Paulo e parte do interior do Estado nos últimos meses no primeiro documento oficial com propostas de governo nestas eleições.
Na semana em que, pela primeira vez na história, o volume útil do Sistema Cantareira secou, Geraldo Alckmin (PSDB), Alexandre Padilha (PT) e Paulo Skaf (PMDB) entregaram à Justiça Eleitoral um esboço do programa com propostas pouco objetivas sobre o tema, segundo especialistas ouvidos pelo Estado. O tucano dedicou 1,4% de todas as palavras que compõem suas diretrizes para questão da água; Skaf reservou 3,6%, e Padilha, 0,5%.
A crise hídrica no Sistema Cantareira, que abastece parte da Grande São Paulo e a região de Campinas, está na ponta da língua dos postulantes ao Palácio dos Bandeirantes desde antes de a campanha começar oficialmente, no domingo passado.
Os discursos de Padilha e de Skaf estão carregados de críticas e acusam o governador Geraldo Alckmin pelos riscos enfrentados pela população. Nenhum dos candidatos, porém, traduz as críticas em propostas efetivas nos documentos apresentados à Justiça Eleitoral.
Segundo dados disponíveis no site da Sabesp, órgão responsável pela distribuição de água na região metropolitana, o Sistema Cantareira operava na sexta-feira com 18,6% de sua capacidade, hoje constituída integralmente pela água vinda do "volume morto" - reserva de água do fundo do reservatório.
As diretrizes do programa petista são consideradas as mais "fracas" pelos especialistas ouvidos. Coordenadores do programa de Padilha fazem apenas três menções ao termo "água" nas 19 páginas do documento. O programa assinado pelo candidato petista não esclarece pontualmente o que vai fazer para combater a crise hídrica caso seja eleito governador.
"São fundamentais políticas que assegurem o direito à cidade, à cultura, ao esporte e ao lazer, promovam a inclusão no mercado de trabalho, enfrentem o déficit habitacional, universalizem o abastecimento de água e melhorem a qualidade do transporte público", diz um dos trechos do texto. As outras duas ocorrências da palavra nas diretrizes de Padilha ocorrem nas passagens em que o petista aborda a questão dos mananciais e para criticar a gestão tucana na administração da crise hídrica.
"O programa do Padilha é o mais fraco do ponto de vista de água, de tratar do tema de segurança hídrica. É um programa genérico ambiental, está em qualquer livro de engenharia ambiental", diz o presidente do Conselho Mundial da Água e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Benedito Braga.
O vice na chapa de Padilha, Nivaldo Santana (PC do B), foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema), entidade que representa funcionários da Sabesp. Santana ainda tem influência no setor.
Desperdício. Nas diretrizes de Skaf, documento de 25 páginas dividido em tópicos, o tema da água é tratado pelo peemedebista com mais objetividade. Cita, por exemplo, uma proposta contra o desperdício e outra na qual sugere prioridade na questão do tratamento de esgoto.
A crise hídrica é abordada no esboço do programa de Skaf no item "Abastecimento de água" e vem seguida das propostas para o setor. "A Sabesp deve investir para redução significativa das perdas. Investir em fontes alternativas para a captação e o armazenamento de água para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Utilizar PPPs (parcerias público-privadas) na coleta, no tratamento e no destino do esgoto tratado e de seu resíduo", afirma o documento do peemedebista.
Estudiosos avaliam que as diretrizes menos genéricas para o problema hídrico são as de Alckmin, mas ponderam que, por ele disputar a reeleição e já estar no governo há quatro anos, deveria detalhar ainda mais suas propostas para um tema que fragilizou os últimos meses de seu mandato. Dos 20 anos que o PSDB está no comando do Estado, Alckmin totaliza nove no posto.
São Lourenço. O documento da campanha tucana aborda a questão hídrica no capítulo "Saneamento Ambiental". O texto pontua, por exemplo, a proposta de acelerar as obras do Sistema São Lourenço - parceria público-privada da atual gestão que prevê captação, armazenamento e tratamento de água para atender o oeste e o sudoeste da Grande São Paulo, atingindo cerca de 1,5 milhão de pessoas. A obra está prevista para ser entregue em 2018. "Acelerar a implantação do Sistema Produtor de Água São Lourenço, aumentando a capacidade de produção de água tratada para a Região Metropolitana", diz o documento.
"O do Alckmin é o mais objetivo", diz Braga. Coordenadora da Rede Águas, órgão vinculado à ONG SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro destaca a proposta de recuperação de mananciais. "É muito importante para a produção de água. É a lição de casa que a gente não fez. Mas já faz 20 anos que o PSDB está no poder. Por que não foi feito antes?" / COLABORARAM PEDRO VENCESLAU e VALMAR HUPSEL FILHO

Documentos são apenas esboço, dizem campanhas

Assessores dos três principais candidatos ao governo de São Paulo alegam que vão tratar mais detalhadamente do tema em programas de governo consolidados a serem divulgados durante a campanha. Dizem que o que foi entregue à Justiça Eleitoral é apenas um esboço.
Questionado pela reportagem sobre a superficialidade de suas propostas relativas à questão da falta d'água expostas nas diretrizes de governo, o candidato do PT, Alexandre Padilha, afirmou que terá a ajuda do governo federal para realizar as obras no setor.
"Vamos executar as obras que captam as águas de São Paulo em outros pontos, como no Vale do Ribeira, que captam água de São Paulo na região de Campinas e outros pontos que têm que captar água e fazer a interligação entre as represas que existem", afirmou Padilha, num ato de campanha, realizado em Santo André, na sexta-feira passada. "Junto com o governo federal, com obras do PAC, vamos urbanizar as habitações que existem em regiões de mananciais, para que haja tratamento de esgoto nessas regiões e, com isso, proteger nossas fontes de água do Estado de São Paulo."
O economista André Rebelo, responsável pela coordenação do programa de governo de Skaf, ressalta que o que foi apresentado ao TRE foram apenas as diretrizes e não o programa completo. Não diz, porém, se até o fim da campanha será divulgado um programa completo de governo. "A gente está estudando se vai divulgar ou não (o programa de governo completo). Mas temos contato com pessoas que entendem muito de água", afirmou. Sem revelar nomes, Rebelo diz que a campanha de Skaf discute a questão hídrica com um colegiado de funcionários da Sabesp de cargos de média gerência e diretoria que apoiam o peemedebista, estão descontentes com a atual gestão da Sabesp, mas não querem se expor para evitar retaliações.
'Lamentável'. Em nota, a campanha de Alckmin disse que é "lamentável julgar qualquer proposta, relato ou texto unicamente pelo número de palavras" e não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem a respeito das propostas do tucano para enfrentar a crise hídrica. "Se o Estadão decidir debater propostas de governo, e não contagem de palavras, o PSDB estará à disposição", diz a nota. / R.C.

OESP, 14/07/2014, Política, p. A6

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