O Globo, Sociedade, p. 27
08 de Dez de 2015
Poluição leva Pequim a alerta vermelho
Ban Ki-moon adverte negociadores em Paris que planeta já caminha para catástrofe climática
RENATO GRANDELLE
renato.grandelle@oglobo.com.br
VIVIAN OSWALD
Enviada especial vivian.oswald@oglobo.com.br
RIO E LE BOURGET, FRANÇA- O nível de emergência contra o aquecimento global foi manifestado ontem em duas situações. Na Conferência do Clima (COP-21), o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, alertou para a possibilidade de uma catástrofe climática. Em Pequim, as autoridades emitiram o alerta vermelho, o mais grave possível, para a poluição atmosférica. É a primeira vez na História que a cidade chegou a este nível na escala.
Para evitar danos à saúde dos 21,5 milhões de habitantes, foi necessário fechar escolas, interromper construções e rever a circulação de carros, que ocorre em dias alternados. Em algumas regiões, a visibilidade era de apenas 200 metros. O nível de pequenas partículas, o PM 2,5 - importante medidor da poluição atmosférica -, estava dez vezes acima do limite recomendado.
Diretora do Programa de Clima e Energia da WWF-China, Lunyan Lu acredita que a população está cada vez mais consciente de que as mudanças climáticas não são um problema unicamente global.
- Precisamos comunicar que a infraestrutura local também precisa ser modificada - ressalta. - Os chineses estão cada vez mais conscientes do uso danoso de combustíveis fósseis. Acredito que o país apresentou à ONU metas justas para combater os gases de efeito estufa, mas sempre é possível fazer mais.
COBRANÇA DO EMPRESARIADO Para Beto Mesquita, diretor de Estratégia Terrestre da Conservação Internacional, o alerta vermelho de Pequim causa má impressão na COP-21, mas não o suficiente para a China ter contestado seu protagonismo nas negociações climáticas.
- Há outras imagens fortes que geram incômodo, como o derretimento das calotas polares - lembra. - A China é um dos países-chave nas conversas em Paris. O governo divulgou que pode emitir carbono até 2030, mas, nas últimas duas décadas, já restaurou 20 milhões de hectares de floresta, e vai recuperar uma área do mesmo porte nos próximos 20 anos.
No início da segunda e última semana da COP-21, o setor privado aumentou a pressão por um acordo global audacioso. Os empresários querem que os representantes dos 195 países participantes da conferência estabeleçam compromissos rígidos e de longo prazo, além de criarem um marco legal universal que garanta segurança para investimentos. Ban Ki-moon reforçou a cobrança sobre os governantes, afirmando que "o relógio está correndo em direção da catástrofe climática" e que é necessário mais do que "meias medidas".
- É um chamado para um acordo de transformação - disse Ban Ki-moon. - Seu trabalho esta semana pode ajudar a erradicar a pobreza, desencadear uma revolução de energia limpa e criar empregos, oportunidades e esperança para o amanhã.
A participação de grandes e médias empresas internacionais tem sido um dos principais marcos da COP-21. Ao GLOBO, Edward Cameron, diretor de Desenvolvimento de Parceiras e Pesquisa da BSR, que representa mais de 250 empresas na conferência, revelou que o setor privado quer sinais muito claros por parte dos governos.
Ontem, um grupo de seis companhias engrossou a campanha RE100, comprometendo-se a adquirir 100% de sua eletricidade através de energias renováveis. A BMW, a Coca-Cola e a brasileira Natura estão entre as 53 empresas que integram este projeto.
- Há oito pontos-chave com os quais os governos devem se comprometer e entregamos isso aqui - contou Cameron. - Um deles é o dos objetivos de longo prazo. Os investimentos para a redução de emissões de carbono levam décadas e são caros. As empresas precisam de um horizonte certo para as políticas que serão adotadas. Além disso, todos os países têm que embarcar.
Caso todos os planos para corte de emissões sejam adotados, o aquecimento global será de 2,7 graus Celsius. Não é o suficiente para os cientistas, mas já cria um cenário promissor para investimentos. Dados do banco BNY Mellon indicam que, nos últimos três a quatro anos, a movimentação de ativos para energia, clima e ações sociais chegou a US$ 2,8 trilhões.
As negociações da COP-21 ganharam novo fôlego ontem. Dezenas de consultas informais e o trabalho de negociadores renovaram as esperanças para um acordo - não tão ambicioso quanto se esperava no início, mas um entendimento global. Americanos e europeus admitiram pela primeira vez a criação de mecanismos de prestação de contas para os recursos destinados a projetos em países emergentes. Atendem, assim, a uma exigência das nações em desenvolvimento. Por mais que haja o acerto de que serão gastos US$ 100 bilhões por ano até 2020 em adaptação às mudanças climáticas, ninguém sabe dizer ao certo quanto já foi depositado no Fundo Verde. Também não há acordo sobre quanto terá de ser desembolsado pelos ricos depois disso.
- Primeiro, nós precisamos de um acordo que limite o aumento da temperatura em menos de 2 graus Celsius. - avaliou Ban Kimoon. - Segundo, o setor privado precisa de um sinal claro de que a transformação de baixas emissões da economia global é inevitável, benéfica e já está em curso. Terceiro, países desenvolvidos devem concordar em liderar, e aqueles em desenvolvimento precisam assumir sua responsabilidade crescente. Quarto, o acordo tem que garantir apoio para adaptação e mitigação dos países em desenvolvimento.
O Globo, 08/12/2015, Sociedade, p. 27
http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/onu-alerta-para-cata…
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