O Globo, Economia, p. 36
19 de Mar de 2011
Participação de Bertin na hidrelétrica de Belo Monte poderá ser fatiada
Ao menos oito grandes empresas disputam parcela de 9% no consórcio
BRASÍLIA. A disputa acirrada pela fatia do grupo Bertin no consórcio que controla o empreendimento bilionário de Belo Monte pode levar os controladores a aceitarem mais de uma nova empresa como sócia do projeto. Embora não possa revelar a lista dos interessados, em função de cláusulas de confidencialidade nos contratos firmados com as companhias, o presidente do consórcio Norte Energia, Carlos Nascimento, informou ao GLOBO que existem de oito a nove grandes empresas nacionais e estrangeiras no páreo e que a disputa deve ser resolvida até 15 de abril.
Vencerão aqueles com maiores necessidades de consumo de energia (e, portanto, maior potencial de demanda) e melhores propostas. Por problemas financeiros, o Bertin deixou a sociedade no dia 17 de fevereiro.
Neste momento, as companhias esmiúçam os números e estágios do empreendimento, as oportunidades de lucros e as negociações com o BNDES. O que está em jogo é uma parcela de 9% da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, o que significa uma produção de energia suficiente para abastecer 1,6 milhão de residências durante um ano, o que corresponde à quase metade dos consumidores da Light.
Participação de Bertin está avaliada em R$414 milhões
A preços de hoje, trata-se de uma fatia de cerca de R$414 milhões. Isso sem levar em consideração o possível ágio que deverá ser pago pelas propostas vencedoras. Entre os interessados estariam as brasileiras Vale, Gerdau, EBX e Votorantim, a americana Alcoa e as chinesas State Grid e China Three Gorges Corporation.
- Faremos uma análise bem justificada para escolher com qual das pretendentes vamos nos casar, porque o negócio é de longo prazo. Mas estou aqui para maximizar o lucro dos acionistas - disse Nascimento.
O presidente do Norte Energia espera que a licença ambiental definitiva para a construção da hidrelétrica saia até o fim de abril. Este é o prazo final para que se possa aproveitar a chamada "janela hidrológica" - antes do período de densas e constantes chuvas - e garantir que não haverá atrasos no cronograma das obras. Apesar da expectativa, Nascimento admitiu que o consórcio ainda não cumpriu todas as condicionantes exigidas pelo Ibama. Segundo ele, os últimos documentos devem ser entregues ao órgão ambiental na próxima semana.
- Existem 40 condicionantes na licença e, no componente indígena, são 13. Todas estão sendo atendidas. Estabelecemos para nós mesmos um prazo que termina este mês para concluir todas elas, mas há ainda o período de análise dos órgãos, tanto Funai quanto Ibama - disse Nascimento.
Segundo ele, apesar de o Plano Básico Ambiental já ter sido entregue, o processo de análise é complexo, e o Ibama pode pedir esclarecimentos.
Atualmente, Belo Monte se encontra em compasso de espera. O Norte Energia só recebeu autorização para instalar os canteiros de obras. Nos últimos dias, o consórcio lançou um blog na internet para apresentar à opinião pública os trabalhos de infraestrutura e de caráter social, como a construção de escolas, que já estão em andamento.
O presidente do Norte Energia negou que a instalação dos canteiros de obras, autorizada dentro do processo de licenciamento por etapas do Ibama, tenha atraído para a região uma multidão, como previa a representação do Ministério Público Federal no Pará. De acordo com Nascimento, há uma lista de 11.110 trabalhadores interessados em participar do empreendimento, sendo que apenas 167 não vivem na região.
Na semana que vem, trabalhadores começarão a ser capacitados. Pelas projeções de mercado, Belo Monte demandará investimentos de R$30 bilhões, apesar de o governo apontar um custo de R$19 bilhões. A estimativa é iniciar as operações da hidrelétrica em 31 de dezembro de 2014.
Histórico de problemas antes de sair do papel
Polêmicas marcam projetos
Consideradas fundamentais pelo governo para atender à crescente demanda de energia no país, as usinas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau já têm um histórico de incidentes e protestos. Até o governo da Bolívia reclamou da construção das hidrelétricas do Rio Madeira, preocupado com o risco de proliferação de doenças perto da fronteira.
Em 2009, manifestantes bloquearam a estrada que dá acesso ao canteiro de obras da Jirau para denunciar uma suposta extração de madeira ilegal. O consórcio Energia Sustentável ainda é acusado de usar métodos de trabalho que remetem à época da exploração da borracha.
Já Belo Monte teve problemas no leilão que definiu os responsáveis por sua construção. O processo chegou a ser cancelado duas vezes. Após a vitória do consórcio Norte Energia, a usina teve a implantação do seu canteiro de obras embargada pela Justiça do Pará. Os trabalhos foram retomados na semana passada, após a derrubada de uma liminar. Mas a Organização dos Estados Americanos (OEA) pede ao governo brasileiro informações sobre a forma como está sendo conduzido o licenciamento para a hidrelétrica. O órgão atende a um pedido do Movimento Viva Xingu e de outras 40 entidades socioambientais.
Para o professor da Unicamp Ennio Peres da Silva, especialista em energias renováveis, esses conflitos "sempre existirão e continuarão existindo" em empreendimentos de grande porte:
- Os impactos socioambientais sempre existirão. Cabe à população definir o que é prioridade - disse.
Jorge Trinkenreich, especialista em energia da PSR Consultoria, afirmou que as polêmicas têm origem no valor oferecido pelo megawatt-hora, entre R$71 e R$78:
- Com esse preço baixo, os consórcios vão buscar reduzir custo em todas as áreas, inclusive na trabalhista. É a única forma de conseguirem uma rentabilidade condizente com o capital investido. (Lino Rodrigues)
O Globo, 19/03/2011, Economia, p. 36
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