O Globo, Economia Verde, p. 25
Autor: VIEIRA, Agostinho
30 de Mai de 2013
Os 7% de Mata Atlântica
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
Desde que comecei a me envolver com esse negócio de jornalismo, no século passado, ouço dizer que só restaram 7% da Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, todos os anos surgem notícias sobre campanhas de reflorestamento, criação de novas reservas ambientais e promessas de replantio. Das duas, uma. Ou tudo isso deu errado e foi só conversa para boi dormir ou os históricos 7% já viraram 15% ou 20%.
Como esta é a Semana da Mata Atlântica, resolvi tirar essa dúvida com quem mais entende do assunto, a ONG SOS Mata Atlântica. A diretora de Gestão do Conhecimento da entidade, Marcia Hirota, me explicou que a história não é bem assim. Na verdade é um pouco pior. Nos quase 30 anos de existência da ONG, alguns projetos de recuperação deram certo, outros não funcionaram, mas a pressão pelo desmatamento continuou. Por isso, os índices praticamente não se alteraram.
Quando os portugueses chegaram por aqui, há quinhentos anos, a Mata Atlântica ocupava 1,3 milhão de km² ou 130 milhões de hectares, passando por 17 estados e até um pedaço da Argentina. Quem se lembra das aulas de geografia do ensino básico (primário é coisa de velho) sabe que o Brasil tem 8,5 milhões de km². Portanto, essa floresta representava mais de 15% do território. Hoje, não passa de 1%.
O problema é que a Mata Atlântica cobre ou cobria quase todo o litoral brasileiro, onde está grande parte das cidades e dos negócios. São 112 milhões de habitantes, 60% da população nacional e 70% do PIB. Um caso clássico de conflito entre o econômico, o social e o ambiental. Claro que as maiores pressões sempre foram econômicas. Começando pela extração do pau-brasil, que também fez parte das aulas da Dona Neide, passando pelas plantações de café e cana e chegando hoje na indústria da soja, nos eucaliptos e nos carvoeiros que alimentam as usinas siderúrgicas.
Mas não é só isso. Quem não gostaria de morar num condomínio no Rio com vista para a Mata Atlântica? Acordar num resort no sul da Bahia ao som de uma das quase mil espécies de pássaros que ainda habitam a floresta? Só que esse prazer tem um custo. Pequenos Desmatamentos para ampliar uma casa, chamados de "efeito formiga", tendem a se transformar em grandes dores de cabeça.
A questão é: se tem sido assim há cinco séculos, e não vamos acabar com as pessoas e com as empresas, o que fazer? Nem o mais radical dos ambientalistas imagina que seja possível recuperar a Mata Atlântica que Cabral e Anchieta encontraram. Perguntei para a Marcia Hirota qual seria o sonho dela. Que percentual da floresta original seria razoável ver de pé novamente? Talvez por conta do hábito de só falar em desmatamento, ela estranhou a pergunta. Mas respondeu: entre 30% e 40%.
Hoje, quando se consideram todos os remanescentes de floresta, áreas com menos de três hectares, os tais 7% se transformam em 13% ou 17 milhões de hectares. Assim, para que o sonho de Hirota vire realidade, faltam cerca de 30 milhões de hectares. Difícil, mas não impossível. O maior projeto de reflorestamento em curso é o Pacto pela Mata Atlântica, que reúne ONGs, universidades e empresas, como a Vale.
A meta é recuperar 15 milhões de hectares até 2050.
Já o novo Código Florestal, aprovado em 2012, prevê a recuperação de 20 milhões de hectares em todo país. Parte na Mata Atlântica, onde 20% do tamanho das propriedades rurais deveriam ser destinados para reservas legais e áreas de preservação permanente. Até 2016, ano das Olimpíadas, o governo do Rio se comprometeu a plantar 24 milhões de árvores. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, prometeu que até 2020 vai recuperar 20% da vegetação do estado. É verdade que ele não estará no cargo nessa data, mas a proposta é boa e deveria ser copiada.
Ou seja, não faltam projetos, intenções e até leis. Em 2006, após 14 anos, o Congresso aprovou a Lei da Mata Atlântica, que estabelece, entre outras coisas, a criação de um fundo de restauração, redução de impostos e facilidade de acesso a linhas de crédito para os proprietários de áreas preservadas. É só por tudo isso em prática. Cumprir o que se promete.
Na terça-feira, o SOS Mata Atlântica e o INPE vão divulgar os últimos números do desmatamento na região. Os índices vêm caindo desde os anos 80. Saíram da casa dos 500 mil hectares por ano para 15 mil hectares/ano. Talvez não seja mesmo possível acabar com a derrubada de árvores, mas já está na hora de divulgar também o volume de florestas recuperadas. O saldo pode e deve ser positivo. Essa conta, sem dúvida, vai ser boa para todo mundo.
130 milhões
Medido em hectares, esse era o tamanho original da Mata Atlântica quando os portugueses chegaram por aqui há 500 anos. Pouco mais 15% do território brasileiro, passando por 17 estados. Hoje, dependendo da conta, restam entre 7% e 13% da floresta original.
E-mail: economiaverde@oglobo.com.br
O Globo, 30/05/2013, Economia Verde, p. 25
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