O Globo, Negócios & Cia, p. 28
Autor: LOPES, José Antonio Muniz; OLIVEIRA, Flávia
29 de Jan de 2011
"O país perdeu por não ter feito Belo Monte antes"
José Antonio Muniz Lopes, presidente da Eletrobras, é conhecido pelo entusiasmo por Belo Monte, usina que ajudou a projetar como engenheiro. Ele festejou o sinal verde do Ibama ao canteiro de obras da hidrelétrica, que vem sendo bombardeada por ambientalistas e pelo Ministério Público do Pará: "Se as obras não começarem agora, o projeto vai atrasar um ano. Isso tem um custo imenso para o país". Muniz falou por telefone com "Negócios&Cia" sobre o polêmico projeto. Defendeu sua cria e fez questão de mencionar os R$3,5 bilhões que serão gastos em compensações socioambientais, os R$500 milhões do plano de desenvolvimento regional do Xingu e os 18.700 empregos diretos e 23 mil indiretos a serem criados. A seguir, a entrevista:
Como vê a licença do Ibama ao canteiro de obras de Belo Monte?
José Antonio Muniz Lopes: Estou muito feliz pelo Brasil. Sem Belo Monte, o país não teria outra fonte de energia capaz de garantir 4.500 megawatts (MW) médios, além de térmicas a óleo combustível. Poderia entrar um pouco de energia eólica, solar e biomassa. Mas nunca chegariam aos 4.500 MW de Belo Monte.
É o único projeto capaz de fornecer energia limpa e barata ao país?
Muniz: Sim. Não temos gás para gerar 4.500 MW em quatro anos. Uma usina nuclear leva dez anos para ficar pronta. Qualquer alternativa a Belo Monte teria custo marginal de operação acima de R$50 por MWh, nos dez anos seguintes a 2014, quando Belo Monte fica pronta. Nas circunstâncias atuais, não há projeto melhor. As usinas do (rio) Tapajós poderiam substituir Belo Monte, mas a 1ª só vai a leilão em 2012.
Por que Belo Monte é importante?
Muniz: É uma usina com um papel especial no sistema, porque o regime de águas do (rio) Xingu se complementa às bacias do Paraná e do São Francisco (onde ficam hidrelétricas de Furnas, Chesf e Cemig). Em março, quando os reservatórios do Sudeste começam a diminuir, a vazão de Belo Monte é mais alta. Assim, a usina vai suprir o sistema para poupar os demais reservatórios. Além disso, a linha de transmissão que sairá de Belo Monte ligará o sistema brasileiro à Venezuela e à Guiana. Os dois países estão na margem esquerda do Rio Amazonas, que tem vazão complementar à margem direita, do Xingu. É outra característica que dará segurança ao sistema.
Mas Belo Monte vai gerar muito menos que a capacidade de 11 mil MW.
Muniz: Em primeiro lugar, 4.500 MW de energia garantida equivalem a quatro usinas Angra 3, em construção. Belo Monte é uma hidrelétrica a fio d"água, sem um grande reservatório. Mas, ao longo de um dia, poderá armazenar água e gerar os 11 mil MW.
Se o projeto é tão bom, por que tanto problema no licenciamento?
Muniz: Todo mundo sempre é contra as hidrelétricas na Amazônia. Foi assim com Tucuruí e com as usinas do (rio) Madeira. Paulatinamente, as críticas desaparecem. Mas quero dizer que incorporamos ao projeto todas as críticas construtivas. Não tenho dúvida de que o Brasil não teve projeto mais estudado que Belo Monte. Usamos os melhores quadros do país. Quando a racionalidade imperar, o país vai ver o quanto perdeu por não ter feito Belo Monte antes.
O Ibama concedeu ao projeto uma licença inédita, que só libera o canteiro?.
Muniz: Não é inédito. Aconteceu o mesmo com as usinas do Madeira (Jirau e Santo Antônio). Essa licença foi concedida para não perdermos a janela hidrológica. Se as obras não começarem agora, o projeto vai atrasar um ano. Isso tem um custo imenso para o país.
O Ibama foi pressionado?
Muniz: Isso eu prefiro não responder.
O Globo, 29/01/2011, Negócios & Cia, p. 28
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