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22 de Jan de 2026
O jogo da mineradora Belo Sun na Amazônia
Com a licença do gigantesco projeto de extração de ouro suspensa na Justiça, a corporação canadense aprimora sua estratégia para avançar sobre a Volta Grande do Xingu, expondo suas conexões com políticos e investindo para tornar seu nome parte do cotidiano de Altamira
Adriano Wilkson, Rio Tietê, São Paulo, Mata Atlântica, Wajã Xipai, Rio Xingu, Altamira, Amazônia
22 janeiro 2026
Na beira da praia artificial em Altamira, onde a areia encontra as águas largas do Rio Xingu, agora triste reservatório da usina de Belo Monte, um palco recém-erguido sinalizava uma noite diferente - e a mudança de estratégia de uma corporação canadense. Era 16 de julho de 2025 e ali se realizava a abertura do Festival de Cultura e Jogos Indígenas do Xingu, uma competição que reúne 14 povos da região. Por cinco dias a praia ganhou arquibancadas e grades, e moradores de Altamira e dos municípios vizinhos, no estado do Pará, lotaram o lugar. Impossível não ver de imediato o enorme outdoor que trazia o nome da mineradora Belo Sun, fixado como quem pretende marcar território. Logo abaixo, uma repetição frenética de quadradinhos verdes diz, uma e outra vez, "Projeto Volta Grande, Projeto Volta Grande, Projeto Volta Grande". Antes mesmo de os atletas indígenas disputarem a corrida de toras, antes mesmo de as flechas cruzarem o ar, os executivos da Belo Sun anotaram mais um ponto no jogo silencioso que disputam num dos principais centros de destruição da maior floresta tropical do planeta, essencial para barrar o colapso do clima e da biodiversidade.
Os canadenses estão há 14 anos tentando obter autorização para extrair 60 toneladas de ouro na área de 130 quilômetros onde o Rio Xingu faz uma volta e forma o desenho de um U. O Projeto Volta Grande, como foi batizado pelos canadenses, planeja escavar no município de Senador José Porfírio, vizinho a Altamira, uma das maiores minas de ouro a céu aberto do Brasil.
Mas, se a região de Altamira é palco de destruição, também é palco de resistência, ainda que cada vez mais enfraquecida. A Belo Sun enfrenta a oposição de parte de Ribeirinhos, Indígenas, camponeses e ambientalistas que atuam no combate ao colapso da Floresta.
Jogos indígenas em Altamira: evento esportivo e cultural também serviu de palanque para políticos e empresas. Foto: Mauricio Ellyo Souza de Oliveira
Em meio à intensa batalha jurídica em torno do projeto, a empresa resolveu mudar de tática. Os jogos indígenas em Altamira, com financiamento da mineradora, marcaram publicamente a mudança de estratégia. A competição iniciou com a presença do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), do ministro das Cidades, Jader Filho (MDB-PA), e do então titular do Turismo, Celso Sabino (sem partido). Além do prefeito de Altamira, Loredan de Andrade Mello (PSD), foram aos jogos os prefeitos de cinco cidades vizinhas, deputados e vereadores.
A estratégia da Belo Sun, uma multinacional listada na bolsa de Toronto, que no final de 2024 passou a ter como principal acionista um fundo de Luxemburgo, é parecer natural na paisagem do Xingu. Para isso, tem se esforçado para levar estudantes das escolas da região a conhecer sua sede em Altamira e as maquetes do Projeto Volta Grande. Seus porta-vozes estão cada vez mais presentes na imprensa local. E, para minar a resistência, a mineradora vem processando criminalmente ativistas que resistem aos seus planos.
Desde 2018 o licenciamento estava a cargo do Ibama. Mas a empresa trabalhou com afinco para que o licenciamento de sua mina voltasse para a esfera estadual, o que conseguiu em janeiro de 2025, por obra de uma controversa decisão do Tribunal Regional Federal em Brasília (TRF1), que causou muita surpresa nos movimentos de resistência da região. O voto do relator Flávio Jaime de Moraes Jardim foi seguido por unanimidade na 6ª Turma, composta naquela ocasião por João Carlos Mayer Soares e Cynthia de Araújo Lima. Assim, a decisão voltou para as mãos do governo de Helder Barbalho, destaque na abertura dos jogos indígenas.
Agora, o caso será analisado novamente pela Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará, a Semas, que já tinha autorizado o projeto em 2014. Em 2017, a licença de instalação foi suspensa e hoje perdeu a validade. Os jogos indígenas terminaram, mas o jogo da Belo Sun continua. Nos últimos meses, SUMAÚMA reconstituiu os laços que a mineradora amarrou em Altamira e no Pará.
'Me dá teu cocar!'
Durante os jogos, ficaram evidentes as tensões entre os povos originários, de um lado, e, de outro, projetos e personagens que dizem valorizar a cultura indígena. Na cerimônia de abertura, na primeira fila das cadeiras, havia apenas três mulheres indígenas ao lado dos políticos: Juma Xipaia, liderança do Médio Xingu que já ocupou o cargo de secretária de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas no Ministério dos Povos Indígenas; Maria Xipaia, uma liderança anciã em Altamira; e Puyr Tembé, secretária dos Povos Indígenas do Pará.
Ao discursar, o prefeito de Altamira, Loredan Mello, disse que os jogos foram pensados e planejados pela primeira-dama Paola Abucater. Estudante de arquitetura, ela projetou uma estátua de um Indígena que foi fincada perto da praia e virou um dos principais monumentos dos jogos. Mostra um Indígena em posição de arqueiro, mirando o horizonte com arco e flecha. Ele veste um saiote que lembra o usado pelos Wajãpi, povo que não vive na região de Altamira. Na cabeça, traz um cocar estilizado, acompanhado de adornos simples nos braços e pernas. Entre os muitos críticos da qualidade artística e cultural da obra, a estátua ficou conhecida como "O Índio de Fraldas".
A primeira-dama e o 'Índio de Fraldas': Paola Abucater e a estátua de um Indígena projetada por ela. Fotos: Mauricio Ellyo Souza de Oliveira e divulgação/Prefeitura de Altamira
Ao longo dos jogos, a primeira-dama apareceu usando colares e cocares. Em entrevista ao jornal local A Voz do Xingu, Paola, que deve se candidatar a deputada nas eleições deste ano, disse que tem ancestrais indígenas e, sem nenhum pudor, foi chamada pelo veículo de "índia citadina". Na edição impressa dedicada aos jogos, o jornal Diário do Xingu comemorou o projeto de mineração da Belo Sun, destacando o investimento de 2 bilhões de reais e a previsão de geração de 10 mil empregos - sem questionar, em momento algum, o impacto socioambiental. O jornal, distribuído gratuitamente em supermercados e outros pontos de grande circulação em Altamira, costuma divulgar com entusiasmo as obras e ações do prefeito e da primeira-dama, com sobra de elogios e carência de crítica.
O cacique Kwai Assurini, da aldeia Ita'Aka do povo Asurini, elogiou a realização dos jogos e destacou a importância de iniciativas voltadas para o turismo e a valorização cultural da comunidade. Kwai participou de um evento do Programa Turismo em Ação, com o ministro Celso Sabino, para a assinatura de uma carta que reforça o apoio do governo federal ao etnoturismo indígena.
A SUMAÚMA, Kwai não escondeu sua crítica a alguns pontos dos jogos. Afirmou que o ritual da flauta, realizado por seu povo, foi reduzido a um simples espetáculo. "Quem narrou não explicou nada. A nossa flauta é parte de um ritual ligado ao pajé e à cobra. Isso precisa ser respeitado e explicado para a sociedade não indígena", afirmou. Para Kwai, os jogos indígenas devem crescer além do esporte.
O conflito entre o espetáculo e a vida de um povo: os Indígenas chegaram a ouvir pedidos para jogar colares para a plateia. Fotos: Mauricio Ellyo Souza de Oliveira
Outro ponto marcante foi a forma como o público não indígena se comportou durante a abertura dos jogos. Depois que alguns Indígenas jogaram colares e pulseiras para a plateia, muitas pessoas passaram a exigir objetos dos demais, como conta Yãkyrixi Xipai, jovem do povo Xipai. "Gritavam o tempo todo: 'Me dá teu colar, me dá teu cocar, me dá teu brinco'. Nem prestavam atenção às apresentações. Expliquei a uma mulher que meu cocar é sagrado, não é para simplesmente jogar ou dar, mas ela insistia dizendo que outros estavam dando." Yãkyrixi disse que os jogos foram um momento importante de encontro, mas reclamou das falhas na organização, dos problemas de infraestrutura e de informações confusas.
SUMAÚMA perguntou à Prefeitura de Altamira qual foi o custo dos jogos e quais os patrocinadores, mas não houve retorno. Também pedimos as informações via Lei de Acesso à Informação, mas também não houve resposta.
Corrida de toras: uma das competições dos jogos e atividade das mais tradicionais dos povos indígenas. Foto: Mauricio Ellyo Souza de Oliveira
A corrida do ouro em Altamira
A região de Altamira e Senador José Porfírio, onde a Belo Sun quer instalar seu novo projeto, tem atraído garimpeiros de todo o Brasil desde os anos 1930, seduzidos pela facilidade de extração do ouro. A atividade sempre contou com apoio do poder político local. Em 1983, um empresário levou aos garimpos uma máquina conhecida como "chupadeira", que arrancava quantidades industriais de terra para revirá-la em busca do ouro. Para separar o elemento lucrativo da terra, os garimpeiros usavam mercúrio, metal poluente que ao final do processo era despejado no solo ou no rio.
Em 1986, empresários canadenses se associaram a Elmer Salomão, que tinha sido presidente do Departamento Nacional de Produção Mineral (hoje Agência Nacional de Mineração), para criar a Verena Minerals Corporation, uma joint venture que assumiu os direitos de exploração de ouro na região que antes pertenciam a outra empresa, a Oca Mineração.
Em 2010, após uma assembleia em Toronto, os canadenses mudaram o nome da Verena para Belo Sun. Turbinada por fundos de investimento especializados em mineração, a Belo Sun deu entrada, em 2012, no pedido de licença prévia do Projeto Volta Grande do Xingu. Na papelada, a empresa apresentou estudos nos quais se compromete a fazer uma mineração industrial com impacto ambiental controlado e compensado. A mineração industrial moderna não utiliza mais mercúrio - e a corporação canadense afirma que, para extrair o ouro da Volta Grande, usará grandes quantidades de explosivos e de elementos como arsênio e cianeto, ambos tóxicos para pessoas humanas e para outras espécies.
A mineradora promete ainda fazer o tratamento dos rejeitos para reduzir a quantidade desses elementos na barragem que se formará a 1,6 quilômetro do Rio Xingu. Mas o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública e organizações como a ONG Rede Xingu+ não estão convencidos da segurança desse plano. A consultoria que planejou a barragem da Belo Sun é a VogBR, a mesma que atestou a segurança da barragem do Fundão, que se rompeu em 2015 em Mariana, no estado de Minas Gerais, e devastou o Rio Doce. Em Altamira, um acontecimento como esse teria consequências ainda mais catastróficas para uma região já debilitada pela instalação da hidrelétrica de Belo Monte, que reduziu drasticamente a vazão do Xingu justamente na Volta Grande.
Vitória do Xingu, no Pará: as torres de transmissão de Belo Monte, a usina que reduziu a força do Rio Xingu e matou peixes. Foto: Lela Beltra~o/SUMAUMA
Laços com governo e mineradoras
Nos últimos tempos, enquanto aguarda a licença para extrair ouro da Volta Grande, a Belo Sun tem reforçado os laços com políticos e funcionários públicos do Pará. No dia 16 de setembro de 2025, representantes de mineradoras e do governo paraense se reuniram às margens do Rio Tapajós, em Santarém, para discutir formas de tornar a mineração "sustentável" no Pará. O objetivo era alinhar práticas e discursos antes da COP30, acontecimento que o setor considerou estratégico para destravar novas minas na Amazônia.
As panelas e a grelha do premiado Casa do Saulo, restaurante do chef Saulo Jennings em Belém, alimentaram os 24 palestrantes do evento, realizado em parceria da Semas com o Simineral, o sindicato das mineradoras do Pará. Entre os palestrantes estavam Adriano Espeschit, o CEO da Belo Sun, e Marcelo Moreno, o diretor da Semas que agora é o responsável por analisar o pedido de licença dos canadenses. Era a segunda vez em menos de uma semana que os dois se encontravam publicamente. Seis dias antes, eles tinham discursado sobre "boas práticas" na mineração em um simpósio de marketing minerário em Belém.
Mineiro de fala tranquila, Espeschit tem mais de 35 anos de atuação na mineração e foi contratado pela Belo Sun em junho de 2025, depois de quatro anos como presidente da Potássio do Brasil, outra empresa que tenta explorar o solo amazônico.
Desde 2016 a Potássio do Brasil trava uma batalha judicial com o povo Mura, do Amazonas, pela instalação da mineradora canadense em território indígena. Em 2023, Espeschit foi acusado por lideranças Mura de tentar passar por cima do protocolo de consulta livre, prévia e informada - e de mentir à comunidade sobre supostos benefícios do projeto. Depois de insistir em tentar convencer os Mura a aceitarem a mineração em suas terras, Espeschit foi proibido pela Justiça Federal de pisar na aldeia deles, sob pena de multa de 100 mil reais. Segundo a juíza que analisou o pedido de licenciamento, o executivo estava "desequilibrando as boas relações processuais com práticas desproporcionais e inadmissíveis".
Na palestra de setembro, diante dos servidores públicos do Pará, o agora CEO da Belo Sun "abordou a importância da legalidade, do diálogo com as comunidades e da adoção de boas práticas de gestão", segundo um comunicado publicado pela empresa. De maneira geral, o III Congresso Técnico do Simineral, o sindicato das mineradoras, serviu para que os executivos da mineração e os representantes do poder público paraense alinhassem práticas e discursos "sustentáveis" que o setor levaria à COP. Nesse jogo, a empresa e o governo de Helder Barbalho parecem estar no mesmo time.
A ideia do evento surgiu meses antes, durante uma reunião entre Rodolpho Zahluth Bastos, secretário adjunto da Semas, e Anderson Baranov, então presidente do Simineral e CEO da Hydro Brasil, a mineradora norueguesa que produz alumínio em Barcarena, nas redondezas de Belém, já denunciada por contaminação. "A gente começou essa empreitada este ano", afirmou Baranov no dia do evento. "Foi idealizada pelo próprio secretário Rodolpho [...] A gente decidiu fazer e promover mais as ações das mineradoras."
Rodolpho Zahluth, servidor público da Semas, fez um discurso afinado com o sindicato das mineradoras. "Na agenda relacionadas às boas práticas sociais, tem vários bons projetos desenvolvidos pelas empresas mineradoras", afirmou. Desde 2019 ele chefia na Semas justamente o setor que cuida da regularização ambiental desses empreendimentos. "A mineração tem uma dificuldade de comunicação da importância da sua atividade", reforçou.
A presença de funcionários públicos da Semas em eventos bancados por empresários que eles fiscalizam é comum. Em maio de 2025, Zahluth deu um curso sobre mineração voltado para jornalistas e patrocinado pela Hydro na Ilha do Combu, um popular destino turístico em Belém.
De 28 de fevereiro a 8 março de 2025, Zahluth e Moreno receberam 23 mil reais em diárias do governo do Pará para passar nove dias em Toronto e participar da convenção anual do Prospectors and Developers Association (Associação de Exploradores e Desenvolvedores, em tradução direta), um grupo de lobby da mineração canadense. Lá eles assinaram acordos com empresários estrangeiros interessados em explorar o solo do Pará.
Outros funcionários da secretaria afirmaram a SUMAÚMA que as passagens foram pagas pelas mineradoras em acerto direto com os servidores. Questionada sobre isso, a Semas enviou por email uma nota em que não informou quem forneceu as passagens para a viagem dos servidores, mas disse que tudo transcorreu em conformidade com as regras. Os servidores também foram procurados, mas preferiram não falar.
"No tocante à participação de representantes da Semas em eventos nacionais e internacionais, a atuação do secretário e de seus diretores integra o dever institucional de representação e de diálogo permanente com a sociedade civil, comunidades, setor produtivo, organismos internacionais, órgãos e demais poderes públicos", afirmou a secretaria em nota. "A respeito das passagens e diárias, trata-se de procedimento administrativo regular, em conformidade com as normas de deslocamento de agentes públicos para atividades institucionais."
A intimidade dos servidores da Semas com os empresários da mineração reproduz o que se vê no topo da hierarquia do governo. Helder Barbalho, o governador do MDB que se tornou um dos principais parceiros do presidente Lula na Amazônia, nunca escondeu sua boa vontade com as mineradoras.
Em 2021, enquanto a licença do Projeto Volta Grande estava suspensa pela Justiça, Barbalho assinou com a Belo Sun e outras cinco mineradoras um acordo para a construção de uma refinaria de ouro em Belém. A planta foi erguida dois anos depois e, segundo o projeto, terá capacidade para refinar até 50 toneladas do metal por ano e gerar até 15 bilhões de reais de faturamento no processo. Mas, para isso acontecer, a licença da Belo Sun precisa sair do papel.
E tirar a licença da Belo Sun do papel, segundo gente que conhece a papelada, tem ficado cada vez mais difícil. Ao menos se todos os ritos previstos pela legislação forem seguidos. Trata-se de um procedimento complexo, com vários processos judiciais, liminares, sentenças, recursos e alegações que, 14 anos depois do primeiro pedido, parecem ainda longe do fim.
Em primeiro lugar, o Ministério Público Federal considera que a terra onde a Belo Sun pretende instalar suas minas foi obtida de maneira ilegal. Entre 2012 e 2016 os canadenses compraram lotes em áreas destinadas à reforma agrária, o que a Constituição proíbe. Em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, a Belo Sun assinou com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) um acordo em que recebia 2.428 hectares de terras da União para o projeto. Esse acordo foi anulado depois pela Justiça - mas a mineradora recorreu, e o caso segue tramitando.
'Uma das maiores minas de ouro a céu aberto do mundo': trecho do Rio Xingu a ser afetado pela canadense Belo Sun. Foto: João Laet/SUMAÚMA
Primeiro a licença, depois a consulta às comunidades
Mesmo se conseguir reverter essa decisão, a Belo Sun precisará desatar um nó ainda mais complexo, que se refere à forma como as comunidades indígenas do Xingu vêm sendo tratadas ao longo de todos esses anos. Quando pediu sua primeira licença, ainda em 2012, a empresa não informou e nem fez consultas às aldeias que seriam afetadas pela mineração de ouro, uma obrigação determinada pela legislação internacional da qual o Brasil é signatário. Na COP30, essa obrigação de consulta prévia foi reforçada pelo reconhecimento dos direitos dos Indígenas à autodeterminação e à consulta livre, prévia e informada sobre atividades que afetem suas terras. O entendimento da Belo Sun, segundo a mineradora afirmou à época nos autos do processo movido pelo Ministério Público Federal, foi que não havia Indígenas no raio de impacto da operação. O processo segue tramitando.
Mesmo sem um estudo aprofundado sobre as consequências do projeto para a vida das populações vizinhas, a Semas concedeu a licença prévia em 2014. A Belo Sun só aceitou consultar os Indígenas quando foi obrigada pela Justiça Federal, em 2017, mas o Ministério Público e a Defensoria Pública argumentam que esse tipo de consulta, feita depois da emissão da licença, obviamente não pode ser considerada uma "consulta prévia", como manda a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.
Em novembro de 2018, por exemplo, os Juruna da Terra Indígena Paquiçamba e os Arara da Terra Indígena Arara da Volta Grande do Xingu participaram de reuniões com a empresa, mas saíram de lá com dúvidas a respeito do risco de rompimento da barragem e de vazamento de arsênio no Rio Xingu. Sete anos depois, em dezembro de 2025, representantes de dez associações indígenas da região declararam inválidas as consultas feitas pela Belo Sun. Meses antes, em fevereiro, a socióloga indígena Lucia Alberta Andrade, diretora de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Funai, já havia escrito um ofício questionando a segurança do projeto da Belo Sun. Direcionado ao Ibama, à Semas e ao Ministério dos Povos Indígenas, o documento consta no processo de licenciamento.
"Causa especial preocupação [à Funai] a possibilidade de que as explosões a serem realizadas pela mineração possam causar danos na barragem da [usina de] Belo Monte", escreveu ela. Falando em nome da Funai, a socióloga alerta para "outros aspectos [...] não totalmente esclarecidos, como a questão da possibilidade de contaminação do arsênio previsto nas pilhas de estéril". Pilha de estéril é o nome que se dá ao amontoado de terra, pedras, rochas e demais elementos sem valor econômico retirados do solo durante o processo de mineração e depois descartados.
Hidrelétrica Belo Monte: a usina prejudicou o Rio Xingu, as populações ribeirinhas e os povos indígenas. Foto: Soll/SUMAÚMA
Questionada sobre essa carta, a Semas disse que "não faz análise técnica do processo do projeto desde 2017" e que apenas cumpre "os procedimentos administrativos atrelados à decisão judicial" que suspendeu o licenciamento.
O documento da diretoria da Funai foi protocolado um mês depois da decisão do Tribunal Regional Federal em Brasília (TRF1) que levou de volta o licenciamento para a esfera estadual. Desde então a Belo Sun não fez nenhum movimento burocrático para dar continuidade ao processo no âmbito da secretaria.
Um profissional que conhece o caso em profundidade afirmou a SUMAÚMA que a empresa enfrentará uma dificuldade adicional caso siga com o licenciamento da maneira tradicional (que inclui todas as etapas e é mais demorado, em oposição ao licenciamento expresso aprovado pelo Congresso): o prazo de validade dos estudos técnicos. Os documentos apresentados pela Belo Sun para validar a obra e a operação das minas foram feitos em 2012 e, segundo um técnico ambiental consultado, precisariam ser refeitos.
A mineradora parece ter percebido que só o trabalho de seus advogados não será suficiente para conseguir a autorização. E espera contar com a ajuda de quem conheceu por dentro os caminhos da burocracia. Em agosto, a empresa anunciou a contratação do engenheiro Artur Silva Alves, um movimento considerado estratégico pelos observadores do setor. Artur trabalhou entre 2016 e 2018 na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia do governo do Pará, onde atuou para destravar projetos minerários no estado. Ao sair do governo, levou seus contatos e experiência ao setor privado e colaborou com três mineradoras com interesses na Amazônia.
Em 2023, o engenheiro acumulou ao mesmo tempo um cargo público e outro privado na indústria da mineração. Enquanto era diretor da canadense G Mining Ventures, atuava como assessor parlamentar do deputado estadual Wescley Tomaz (Avante), um político intimamente ligado aos garimpeiros da região de Itaituba, outro polo minerador do oeste do Pará.
Enquanto seu executivo trabalhava na Assembleia Legislativa do Pará, a G Mining conseguiu a licença da mina de Tocantinzinho, que desde 2024 fura o solo de Itaituba em busca do ouro da Amazônia. Hoje Artur Alves é gerente de "sustentabilidade" da Belo Sun.
Ao longo da apuração para esta reportagem, SUMAÚMA procurou duas vezes a Belo Sun por email e indagou a respeito da validade desses estudos. Enviamos uma lista de 16 perguntas sobre as atividades da empresa no Pará e a atuação de seus funcionários nesse e em outros processos de licenciamento ambiental. Questionamos também sobre o cronograma de implementação do projeto da mineradora e as ações da Belo Sun junto à comunidade local. A empresa disse que estava analisando as perguntas, mas depois parou de responder à reportagem.
O que dizem as lideranças indígenas
Em abril de 2025, cinco Associações Juruna e Arara da Volta Grande do Xingu, antes contrárias ao projeto, enviaram ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região, o TRF1, uma petição em que agora se dizem a favor da mina. Na petição os Indígenas afirmam que foram convencidos da viabilidade da operação e rompem com a Funai, acusando o órgão de agir com má-fé ao cobrar mais estudos da Belo Sun. As associações afirmam que a Funai atua de forma "processualmente abusiva" e reiteram que suas lideranças aprovaram pessoalmente os estudos ambientais já "realizados". O processo diz ainda que as comunidades possuem representação jurídica própria e que a Funai não tem legitimidade para falar em seu nome.
O advogado Sernio Vasconcelos Conceição Júnior, que representa as associações Juruna e Arara da Volta Grande do Xingu, disse a SUMAÚMA, por meio de mensagens de WhatsApp, que as comunidades não moveram ação contra a Funai, mas ingressaram no processo para garantir sua própria representação, depois de o órgão adotar posicionamentos "sem consultar as comunidades e de forma contrária à sua atuação anterior". Para o advogado, isso caracterizaria "litigância de má-fé". Sernio disse que a relação com a Funai tem sido "tensa no plano processual", mas que as comunidades buscam preservar o diálogo institucional para assegurar que o Protocolo de Consulta Juruna-Yudjá e o direito à autodeterminação sejam plenamente respeitados.
O cacique Giliarde Juruna, da aldeia Mïratu, chegou a fazer um vídeo a favor da Belo Sun em 2025. Quando questionado por SUMAÚMA sobre os diálogos entre os povos indígenas e a mineradora, recuou: "Sobre a Belo Sun, logo no começo ela atropelou tudo e não fomos consultados [...]. Conseguimos, com o ISA [Instituto Socioambiental] e o Ministério Público, ser ouvidos e paralisamos a licença de instalação [...]. O desembargador determinou que o protocolo de consulta de cada povo fosse seguido, mas a Belo Sun tentou limitar os estudos a três meses em algumas aldeias [...]. Não aceitamos, e a consulta foi feita pelo tempo necessário, inverno e verão, com participação da comunidade".
Giliarde Juruna ressaltou que seu povo é contrário a novas obras na região: "Em momento algum naquela região deveria ter algum empreendimento, de forma alguma, porque é uma região já muito impactada [...]. A gente acredita que a Volta Grande deveria ser uma área blindada, para não ter empreendimento de forma alguma naquela região [...]. Hoje a gente não consegue mais consumir os peixes que comia antigamente, não consegue pescar, não consegue caçar da forma que [fazia] antes".
Contra novas obras: para a liderança Giliarde Juruna (de bermuda preta e cocar azul), a Volta Grande do Xingu deveria ser 'blindada'. Foto: João Laet/SUMAÚMA
Sobre as tensões com a Funai, o cacique disse que não entrou com processo contra o órgão. Segundo ele, o que os Indígenas fizeram foi um documento relatando que a consulta tinha sido feita, mas isso não significaria apoio ao projeto. "Não significa que a gente é a favor da mineradora. Em momento algum a gente falou que é a favor da mineradora [...]. A gente não quer que saia de forma alguma."
SUMAÚMA também procurou a Funai. Em nota, o órgão disse que a licença de Instalação do Projeto Volta Grande do Xingu está condicionada "ao cumprimento de decisão judicial que ainda não aconteceu por parte da empresa Belo Sun Mineração Ltda". De acordo com a nota, "o Estudo do Componente Indígena (ECI) apresentado pela empresa não pode ser considerado suficiente nem adequado, pois faltam complementações relevantes, que já foram formalmente requisitadas tanto ao empreendedor quanto ao órgão licenciador estadual".
Faltam, por exemplo, informações essenciais sobre a realocação da Aldeia São Francisco e a qualificação fundiária dessa comunidade, além de medidas para mitigar e compensar comunidades afetadas. A Funai também pediu ao Ibama e à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, a Semas, que se manifestem sobre uma possível incompatibilidade entre os empreendimentos da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e do Projeto Volta Grande.
Em dezembro de 2025, uma nova volta no banzeiro. Em uma assembleia do Conselho das Terras Indígenas Paquiçamba, Arara da Volta Grande do Xingu (Cija), dez associações indígenas da Volta Grande do Xingu anunciaram uma nova posição. A ata da reunião, à qual SUMAÚMA teve acesso, registra: "Os Jurunas e Araras da Volta Grande do Xingu não foram consultados e portanto não tomaram nenhuma decisão sobre a implantação". O texto também diz que não houve "qualquer tipo de litigância de má-fé por parte da Funai" e que esse entendimento resulta de interpretações equivocadas.
Procurado novamente, o advogado Sernio Júnior disse a SUMAÚMA que não representa mais as associações indígenas da Volta Grande. Em um documento encaminhado ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), as comunidades indígenas solicitam a suspensão de qualquer tratativa relacionada ao processo de consulta e "a imediata suspensão de qualquer tratativa com a Belo Sun com relação a informações e passos seguintes à consulta", até que o tema seja reavaliado internamente pelo conselho.
Cobiça, promessas e tensões
No dia 25 de setembro de 2025, Artur Alves, gerente de "sustentabilidade" da Belo Sun, reuniu um grupo de comerciantes do município de Senador José Porfírio e prometeu contratá-los quando a Belo Sun estiver operando. Com 25 mil habitantes, o município onde os canadenses pretendem cavar sua mina está na lista dos 100 piores índices de desenvolvimento humano (IDHs) do Brasil, com baixo índice de emprego formal e muita pobreza. Nesse cenário, reluzem as promessas de renda proveniente da extração do ouro.
Em um vídeo gravado durante a reunião, os funcionários da Belo Sun se juntaram aos moradores da cidade em uma saudação à empresa: "Belo Sun?", pergunta alguém. "Sim!", respondem os presentes, erguendo os braços. A Belo Sun conseguiu convencer uma parte dos comerciantes presentes de que a licença sairá ainda neste ano de 2026, de acordo com áudios enviados por eles pelo WhatsApp.
Mas, no dia 12 de janeiro de 2026, a Belo Sun sofreu uma derrota. Ao analisar um pedido da empresa para destravar o licenciamento, a Justiça Federal concluiu que foram irregulares as consultas da Belo Sun às comunidades indígenas que serão afetadas pelo Projeto Volta Grande. A juíza federal substituta Maíra Micaele Godói Campo citou protestos recentes de grupos indígenas e decidiu manter a licença suspensa enquanto eles não forem consultados de forma efetiva, seguindo os protocolos aprovados por eles.
Enquanto analisa opções para contornar mais esse entrave jurídico, a Belo Sun fortalece suas relações e amplia conexões na região de Altamira. É uma estratégia ora silenciosa, ora barulhenta, de onipresença cotidiana nas relações, nas conversas e nas promessas. Antes mesmo de extrair o ouro, a Belo Sun cava fundo nas mentes, nas vidas e nos territórios do Médio Xingu.
'Luto pela Volta Grande do Xingu': Indígenas levam no corpo a defesa da região, alvo da cobiça de grandes empresas. Foto: João Laet/SUMAÚMA
Nota da edição: o texto foi alterado, por precisão, em 22 de janeiro de 2025. O trecho "A juíza federal substituta Maíra Micaele Godói Campo citou protestos recentes de grupos indígenas e decidiu manter a licença suspensa enquanto a Belo Sun não consultá-los de forma efetiva (...)" foi substituído por: "A juíza federal substituta Maíra Micaele Godói Campo citou protestos recentes de grupos indígenas e decidiu manter a licença suspensa enquanto eles não forem consultados de forma efetiva (...)."
Reportagem e texto: Adriano Wilkson e Wajã Xipai
Edição: Fernanda da Escóssia
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Mariana Greif
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Sarah J. Johnson
Montagem de página e acabamento: Natália Chagas
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum
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