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O idioma mais enxuto do mundo

OESP, Vida, p. A27
07 de mai de 2006

O idioma mais enxuto do mundo
Língua da tribo pirahã, no Amazonas, não tem termos para números, verbos no passado ou mitos de origem

Rafaela von Bredow Durante uma das primeiras visitas de Daniel Everett ao povo pirahã, no Brasil, quando ele ainda não era um "baigai" (amigo), membros da tribo quiseram matá-lo. Guerreiros se reuniram na margem do Rio Maici e planejaram o ataque, mas não perceberam que Everett, um lingüista, estava ouvindo e já compreendia o suficiente da cantilena cacofônica do povo do Amazonas para entender as palavras decisivas.
"Tranquei minha mulher e nossos três filhos em nossa cabana e fui imediatamente procurar os homens", recorda Everett. "Peguei todos os seus arcos e flechas, voltei à cabana e os tranquei." Ele não só desarmou os pirahãs como os surpreendeu, e eles o deixaram vivo. No dia seguinte, a família partiu sem problemas.
Mas a língua dos moradores da floresta havia fascinado de tal forma o pesquisador e sua mulher que eles retornaram. A partir de 1977, o etnólogo britânico da Universidade de Manchester passou sete anos vivendo com os pirahãs e comprometeu a carreira com a pesquisa de sua intrigante língua. Ele ficou tão indeciso sobre o que estava realmente ouvindo que esperou quase três décadas para publicar suas descobertas.
A pequena tribo caçadora e coletora, com uma população de apenas 310 a 350 membros, se tornou o centro de um debate acalorado entre lingüistas, antropólogos e pesquisadores do conhecimento.
Até Noam Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Steven Pinker, da Universidade Harvard, dois dos teóricos mais influentes sobre o tema, continuam discutindo o que significam para o estudo da linguagem humana as descobertas de Everett.
O debate sobre o povo do Rio Maici vai direto ao cerne do enigma de como o Homo sapiens conseguiu desenvolver a comunicação verbal. A linguagem humana é única porque permite que os humanos montem pensamentos nunca antes construídos, com incessante criatividade. Os lingüistas geralmente focam no que os idiomas de todo o mundo têm em comum. Mas a língua dos pirahãs - e é isso que a torna tão importante - se afasta do que há muito se pensava serem as características fundamentais de todas as línguas.
SEM PASSADO NEM NÚMEROS
A língua é incrivelmente econômica. Eles raramente empregam qualquer palavra associada ao tempo e conjugações verbais de tempo passado não existem. As cores aparentemente não são muito importantes para os pirahãs - eles não descrevem nenhuma delas em sua língua. Seu idioma é provavelmente o único do mundo a não usar orações subordinadas.
Em vez de dizer "Quando eu tiver acabado de comer, gostaria de falar com você", os pirahãs dizem "Eu termino de comer, eu falo com você".
Causa perplexidade também que em suas vidas diárias os pirahãs não sintam a necessidade de números. Durante o tempo que passou com eles, Everett nunca ouviu palavras como "todos", "cada", e "mais".
Há uma palavra, "hói", que chega perto do numeral 1. Mas ela também significa "pequeno" ou serve para descrever uma quantidade pequena.
AQUI E AGORA
Everett chegou a uma explicação surpreendente para as peculiaridades do idioma pirahã. "A linguagem é criada pela cultura", diz o lingüista. Ele explica o cerne da cultura pirahã com uma fórmula simples: "Viver aqui e agora". A única coisa de importância que merece ser comunicada a outros é o que está sendo experimentado em cada momento.
"Toda experiência é ancorada na presença", diz Everett, que acredita que essa cultura não permite o pensamento abstrato ou conexões complicadas com o passado - o que limita a linguagem.
Viver no aqui e agora também se encaixa no fato de que os pirahãs parecem não ter um mito da criação para explicar a existência. Quando perguntados sobre suas origens, eles simplesmente replicam: "Tudo é o mesmo, as coisas sempre são".

OESP, 07/05/2006, Vida, p. A7

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