O Globo, Razão Social, p. 16
Autor: HUGO, Carlos
20 de Dez de 2011
O empreendimento é impecável
Entrevista: Carlos Hugo
O cenário é impactante. Máquinas imensas escavam um buraco já aberto onde, antes, as águas do Rio Madeira fluíam impetuosas, violentas, arredias às pessoas. Circulando no entorno, 18 mil operários, 80% da própria região, capacitados para a difícil tarefa de domar o rio, desviá-lo um pouco do seu percurso, para que a força de suas águas possa servir ao homem, dando a energia que se tornou imprescindível à nossa sobrevivência no planeta. É um jogo de perdas e ganhos. Um micro exemplo do paradoxo vivido pela humanidade e que se expressa hoje num termo que, em si só, traz uma impossibilidade: desenvolvimento sustentável. Algum impacto haverá sempre para poder garantir o conforto ao homem, ninguém se iluda. O que se espera é que as empresas que vão lucrar fazendo esta passagem entre os recursos naturais e os homens tenham cuidado, atenção, respeito, não só ao meio ambiente como às pessoas que terão que se retirar para dar lugar aos empreendimentos. A empresa responsável por tanta mudança, a Santo Antonio Energia, está investindo R$4 dos R$15 bilhões do projeto (ela tem ajuda do BNDES) em ações socioambientais. Em parte, uma exigência do Ibama, da lei ambiental que é bastante rigorosa em determinados momentos. Em parte, porque a empresa parece ter este olhar mais aguçado. Em parte, porque a demanda social já não permite mais a nenhuma corporação que aja como no passado, sem nenhum respeito, atropelando tudo e todos em nome do progresso. Diretor de sustentabilidade da empresa, Carlos Hugo acredita ser possível fazer um empreendimento deste porte de maneira consciente.
O GLOBO: O desenvolvimento pode ser sustentável?
CARLOS HUGO: Nós não enxergamos outro caminho. Veja: eu desmatei 12 mil hectares, mas implantei uma área de preservação permanente (APP) de 36 mil hectares. E quando eu digo que implantei, entenda da seguinte maneira: a área verde vai ser vigiada como devia ter sido vigiada pelos ribeirinhos, vai ser enriquecida e vai, de fato, virar uma parte do patrimônio do bioma amazônico preservada. Foi o conceito que o Ibama quis implantar para nosso empreendimento. É bastante complicado, não foi aceito pelo setor elétrico normalmente, mas abriu um campo para os empreendimentos amazônicos. Estou me apropriando desse espaço para usar e colocar nosso reservatório. Vamos repor também a biodiversidade. É uma troca justa.
O GLOBO: Mas tem a questão dos peixes. A comunidade se ressente porque era sua maior fonte de renda. Acha que isso vai ser reposto também?
CARLOS HUGO: Afirmar que vou reduzir a zero o impacto não posso, não sou louco. Mas estamos fazendo um investimento milionário para estudar e desenvolver parâmetros para poder instalar uma estrutura dessa natureza aqui. Algumas espécies de peixe já não passavam por aqui. Em compensação, tem outras espécies que passam por aqui. Durante o estudo ambiental, falou-se muita coisa sobre essas espécies, muitas delas por falta de conhecimento. De fato, o rio estava correndo livre e só foi controlado por nós a partir do momento que eu ensequei e controlei pelo vertedouro, mas isso só aconteceu agora, portanto não posso aceitar que já tenha uma perda da pesca por causa do empreendimento. Projetei uma estrutura para tentar garantir que o peixe continue navegando no Madeira, que tem muita chance de ter sucesso.
O GLOBO: Foi fácil convencer os acionistas de que teriam que investir em sustentabilidade?
CARLOS HUGO: Eles não criaram problema porque criamos um empreendimento impecável. Apropriei-me do espaço para nosso empreendimento e não estou deixando passivo para as gerações futuras. Isso gera tranquilidade no processo de licenciamento.
O Globo, 20/12/2011, Razão Social, p. 16
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.