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O combustível escondido

O Globo, Economia, p. 26
Autor: VIEIRA, Agostinho
11 de Abr de 2013

O combustível escondido

AGOSTINHO VIEIRA
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde

As chuvas de verão terminaram e os reservatórios, como se previa, não encheram. Portanto, o Brasil precisará manter ligado o seu arsenal de usinas térmicas. Elas são caras e muito poluentes, mas são seguras. Além disso, por via das dúvidas, o próximo leilão de energia previsto para setembro ou outubro deverá incluir pelo menos três novas térmicas movidas a carvão, o que não acontecia desde 2008.

Parece que a estratégia e o discurso vêm mudando. Lentamente, de forma sutil, mas mudando. Nos dois primeiros governos do presidente Lula, o raciocínio oficial era mais ou menos o seguinte: "O presidente Fernando Henrique foi irresponsável. Não investiu como devia em infraestrutura e levou o país para um apagão. Nós vamos retomar as grandes obras, mas seremos socialmente e ambientalmente mais cuidadosos".

Foi aí que surgiram as novas e polêmicas hidrelétricas da Amazônia. Apesar do custo elevado, Jirau, Santo Antônio e Belo Monte gerariam um volume considerável de energia e teriam um impacto ambiental menor. São usinas de segunda geração, chamadas de "fio d'água", pois usam o fluxo natural dos rios para produzir energia. Além disso, as licenças de construção e operação incluem contrapartidas sociais importantes para as comunidades locais até então abandonadas.

Junto com as novas hidrelétricas veio uma espécie de congelamento dos projetos de usinas térmicas a carvão, óleo e gás. A ideia era manter a matriz energética o mais limpa possível. Daí o incentivo aos parques eólicos, que cresceram mais de 50 vezes em sete anos. Parecia bom, mas não era perfeito. Os ambientalistas, eternos insatisfeitos, não gostaram de ver usinas nas florestas. Mesmo que fossem limpinhas. O investimento em energia eólica e solar foi criticado: podia ser maior.

Vieram os atrasos, as licenças demoradas, os problemas de gestão, os protestos dos índios e, pronto, o fantasma do apagão voltou a rondar os gabinetes. O que parecia seguro e politicamente correto não era nem uma coisa nem outra. Agora, o mais importante é garantir a segurança energética. Térmicas, nucleares até os grandes reservatórios das hidrelétricas voltam a ganhar espaço.

Um estudo patrocinado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) mostra que, nestes tempos de mudanças climáticas, a aposta do governo em usinas "fio d'água" pode ser um tiro no pé. As possíveis alterações nos regimes de chuvas e no volume de água dos rios reduziriam significativamente a quantidade de energia gerada. Ou seja, quando o tema é política energética, além de o almoço não ser grátis, é possível que se tenha uma indigestão.

Mas existe um caminho historicamente muito mal explorado, no Brasil e no mundo. Ele aumenta a oferta de energia, ajuda a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, melhora a segurança e ainda é autofinanciado. Se é tão vantajosa, por que empresas e governos relutam tanto em investir em eficiência energética? A pergunta está na capa do último periódico da Agência Internacional de Energia (AIE). A resposta pode ser resumida em duas palavras: dá trabalho.

De acordo com a AIE, um mundo mais eficiente precisaria de menos investimentos em infraestrutura, teria contas de luz menores a pagar, ofereceria mais bem estar ao consumidor e seria mais competitivo. Eles calculam que o potencial de economia só no setor industrial supere os 50% e chegue perto de 80% nas áreas de construção. O documento faz 25 recomendações de melhoria que, se implantadas nos 28 países membros da organização, resultariam numa redução de custos da ordem de US$ 1 trilhão.

Dados da Associação Brasileira de Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco) indicam que o Brasil desperdiça mais de 10% da energia que produz. O que daria para abastecer toda a população do Estado do Rio. São R$ 16 bilhões jogados fora anualmente, por conta de processos industriais obsoletos, sistemas de refrigeração e iluminação inadequados, falhas na transmissão e os nossos tradicionais casos de furtos e fraudes.

O artigo da AIE usa expressões como compromisso da sociedade, colaboração global, capacitação de mão-de-obra e mudanças de processo. Ações fundamentais, porém, trabalhosas. Para encontrar esse valioso combustível escondido é preciso ter muita vontade política e uma boa capacidade de gestão. Ativos fundamentais, mas raramente disponíveis no mercado e, principalmente, no setor público.

US$ 1 trilhão É o potencial de redução de custos que as ações de eficiência energética podem gerar. O cálculo foi feito pela Associação Internacional de Energia, considerando 25 recomendações a serem adotadas pelos 28 países que fazem parte da organização.

O Globo, 11/04/2013, Economia, p. 26

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