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O avanço das florestas plantadas

GM, Panorama Setorial, p. A8
30 de abr de 2005

O avanço das florestas plantadas

Elas já representam 60% da madeira industrial em tora consumida em todo o País. As florestas plantadas, apesar de representarem menos de 1% do total da área florestal do Brasil, vêm sendo responsáveis por mais de 60% da madeira industrial em tora consumida no País, conforme mostra levantamento coordenado pela Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS) referente a 2000: dos 166 milhões de metros cúbicos de madeira em tora consumidos pela indústria naquele ano, 102 milhões vieram de florestas plantadas. Em dois segmentos, a madeira industrializada é proveniente exclusivamente desse tipo de floresta: o de celulose e papel e o de painéis de madeira reconstituída.
Já a pesquisa Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura, realizada anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que a participação das florestas plantadas vem crescendo ano a ano na produção florestal primária do País. Em 2003, a lenha oriunda da silvicultura representou 41,7% (33,827 milhões de metros cúbicos) da produção total de lenha (81,059 milhões), ante 17,3% em 1990. Na produção de madeira em tora, a participação das florestas plantadas saltou de 32,5%, em 1990, para 82,8% em 2003 (99,679 milhões de metros cúbicos de um total nacional de 120,361 milhões).
Na produção de carvão vegetal, no entanto, estaria havendo uma tendência de queda, o que, segundo o IBGE, refletiria uma diminuição no ritmo de reflorestamento do setor siderúrgico nos últimos anos. Em 2003, a participação das florestas plantadas teria sido de 49,2% (2,154 milhões de um total de 4,382 milhões), ante 70,3% em 1998. Essa tendência, no entanto, não é confirmada pelos dados estatísticos da Associação Mineira de Silvicultura (AMS), para quem, nos últimos anos, as florestas plantadas vêm detendo uma fatia que oscila estavelmente em torno de 70%. Em 2003, dos 29,202 milhões de metros de carvão (mdc) consumidos no País, 73,9% (21,586 milhões) foram provenientes de florestas plantadas, ante 43,5% em 1993.
No setor madeireiro, as florestas plantadas também vêm ocupando cada vez mais espaço. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), em 1993 os serrados de pinus representavam um quarto da produção total de serrados do País: 4,300 milhões de um total de 16,920 milhões de metros cúbicos. Em 2002, embora ainda predominassem os serrados de madeira tropical (nativa), os de pinus passaram a responder por mais de um terço dos 22,300 milhões de metros cúbicos produzidos: 7,900 milhões. Quanto aos compensados, os de pinus representavam apenas 30% da produção total do País em 1993. Em 2002, a situação estava invertida: eles detinham 60% da produção.
Competitividade
"O uso de árvores plantadas para fins industriais não pode ser confundido com a derrubada de florestas nativas. A indústria de base florestal planta árvores, como o agricultor planta soja, milho ou feijão. Planta e colhe madeira, matéria-prima vital para a economia. Só corta árvores que planta, numa atividade sustentável que dará renda e emprego a gerações futuras dos brasileiros". A afirmação é de Boris Tabacof, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), e abriu um artigo que ele escreveu para o jornal Gazeta Mercantil em 2004.
Além disso, no Brasil os plantios florestais apresentam vantagens competitivas em relação ao resto do mundo. Uma delas é a maior produtividade. Segundo a SBS, em 2000 a produtividade de árvores folhosas (eucaliptos) no Brasil era de 30 metros cúbicos por hectare por ano, ante 18 na África do Sul, 15 nos Estados Unidos e 12 em Portugal. Mesmo no caso do plantio de árvores coníferas (pinus e araucárias no Brasil), a produtividade brasileira era a maior: 25 m³/ha/ano, ante 22 na Nova Zelândia, 22 no Chile e 10 nos Estados Unidos.
Em seu Relatório Estatístico Florestal de 2003, a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) apresentou médias de produti-vidade dos plantios do setor ainda maiores. A do eucalipto alcançou 36,8 metros cúbicos sólidos por hectare por ano, e a do pinus, 29,5 metros cúbicos. A maior média nos plantios de eucalipto ocorreu no Paraná, com cerca de 47 m³/ha/ano, seguido de São Paulo, com 41 m³/ha/ano. Nos plantios de pinus, o líder foi o Rio Grande do Sul, com cerca de 34 m³/ha/ano, seguindo-se Santa Catarina, com 33m³/ha/ano.

Grandes empresas já terceirizam o cultivo
As grandes empresas da cadeia produtiva da madeira vêm terceirizando seus plantios florestais com pequenos e médios proprietários rurais. Além de evitar o custo da aquisição de novas terras, esse procedimento permite aos fabricantes ganhar uma importante fonte alternativa de abastecimento de madeira.
Como no País há déficit de plantios florestais em relação ao consumo de madeira, essas parcerias tendem a colaborar para evitar o desabastecimento futuro, principalmente quando se consideram os atuais projetos de ampliação de produção dos fabricantes. Hoje, no entanto, a participação delas ainda é pouco significativa, de cerca de 10% da madeira consumida na produção de celulose, por exemplo.
Segundo os fabricantes, as parcerias são um negócio vantajoso também para os proprietários rurais, que com elas conseguem aproveitar economicamente suas terras ociosas e ganham uma alternativa de renda. Na produtora de celulose Aracruz, por exemplo, o plano de parceria mais completo é um contrato de compra e venda pelo qual o proprietário obtém até mesmo financiamento para a implantação do projeto. Os recursos são liberados em parcelas. O financiamento não é pago em dinheiro, mas em madeira, que é entregue na época da colheita.

Forte crescimento nos últimos dois anos
Em 2004, as exportações da cadeia produtiva da madeira foram de US$ 7,003 bilhões, crescimento de 23,9% em relação aos US$ 5,654 bilhões de 2003, que, por sua vez, representaram forte acréscimo em relação aos US$ 4,411 bilhões de 2002: 28,2%. Os crescimentos elevados dos dois últimos anos devem-se basicamente ao setor madeireiro (madeiras e obras de madeira), cujas exportações saltaram 17,9% em 2003 e 46,3% no ano de 2004.O total de US$ 7,003 bilhões de 2004 equivale à soma das exportações de US$ 3,044 bilhões em madeiras e obras de madeira, US$ 2,909 bilhões em celulose, papel e artefatos de papel e US$ 1,003 bilhão em móveis e artigos do mobiliário em geral, além dos US$ 47 mil em livros, jornais, revistas e outros impressos gráficos. A cadeia produtiva da madeira foi responsável por 7,3% do total exportado pelo País no ano, que foi de US$ 96,475 bilhões.
Em depoimento à Gazeta Mercantil em novembro de 2004, Ivan Tomaselli, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), previu que a indústria brasileira de base florestal poderia dobrar as exportações até 2020, atingindo US$ 12 bilhões, cerca de 6% do comércio mundial na área, de US$ 200 bilhões.

Expansão é insuficiente para atender à demanda

As áreas de florestas plantadas no Brasil têm crescido em ritmo insuficiente para atender à demanda atual de madeira do País. Dois estados já enfrentam o problema da escassez do produto: Minas Gerais e Paraná.
Em Minas Gerais, onde fica a maior parte dos plantios de eucalipto do País (1,535 milhão de hectares, o correspondente a 51,8% do total nacional), a escassez reflete-se na produção de carvão vegetal. Em depoimento à Gazeta Mercantil em julho de 2004, Antônio Claret de Oliveira, presidente da Associação Mineira de Silvicultura (AMS), prognosticava que a partir de 2007 faltaria madeira para esse insumo da indústria siderúrgica.
O consumo anual estimado de madeira para carvão vegetal no estado de Minas Gerais era de 50 milhões de metros cúbicos e havia disponíveis no campo apenas 100 milhões. A situação estaria sendo contornada pelas autoridades ambientais, ao permitir que se buscasse nas matas nativas a madeira suficiente para atender até 10% do consumo de carvão.
No Paraná, estado líder em plantio de pinus no País, com 605 mil hectares, 32,9% do total nacional, um estudo publicado em 2000 pela STCP Engenharia de Projetos mostrava que os estoques de florestas estavam sendo rapidamente consumidos, e a reação era o aumento nos preços da madeira. A tora no Brasil, especialmente para a indústria de madeira sólida (serrados e lâminas), "se tornará ainda mais cara nos próximos anos, eliminando parte da competitividade da indústria brasileira no mercado internacional", alertava o estudo da consultoria.
Para a empresa de consultoria paranaense, a indústria de celulose e painéis reconstituídos sofreria menos, pois o ciclo de produção florestal é relativamente curto. Já na indústria madeireira, que demanda ciclos de 15 ou mais anos, o déficit era inevitável. A saída aí seria a importação de madeira. A Província de Misiones, na Argentina, "possui extensas áreas florestais e os incentivos lá existentes estão dando suporte a um processo de continuada expansão dos reflorestamentos", concluía o estudo da STCP.
Apenas os produtores de celulose do País vêm plantando o suficiente para atender à demanda. Em 2003, foram plantados pelo setor um total de 169,055 mil hectares (148,759 mil de eucalipto e 20,296 mil de pinus). Esses produtores vêm seguindo um programa de investimentos que prevê produção de 14,5 milhões de toneladas de celulose em 2012, 81% mais que os 8,0 milhões de 2002, quando a área plantada do setor era de 1,457 milhão de hectares. Em 2003, os plantios chegaram a 1,552 milhão de hectares. O programa de investimentos prevê que eles cheguem a 2,6 milhões em 2012, a um custo de US$ 1,9 bilhão.

Um perfil detalhado do setor

Estudo detalha os negócios da agroindústria da madeira. O Panorama Setorial está lançando o Estudo Especial "As Florestas Plantadas e a Agroindústria da Madeira". O trabalho, cujo conteúdo originou esta página, analisa aspectos como a dimensão da agroindústria da madeira, o manejo florestal sustentável e os casos de plantios florestais de várias empresas. Revela o que é o apagão florestal, quanto se consome de madeira, quanto se planta de florestas e quanto é preciso plantar. Detalha os programas de fomento florestal das companhias e a participação dos produtores rurais. Veja abaixo os destaques do estudo:

Quadro geral
A Dimensão do setor Crise de identidade Participação no PIB Receita líquida Exportações / Preços
Evolução Histórica Manejo Florestal
Certificação florestal Benefícios da certificação
Plantios Florestais
Polêmica socioambiental Vantagens competitivas Ciência e tecnologia Melhoramento genético A área dos plantios
O Apagão Florestal
O consumo de madeira Quanto se planta de florestas Quanto é preciso plantar Propostas para o crescimento
Fomento Florestal
Programa Nacional de Florestas Parcerias com produtores rurais Créditos de carbono
A cadeia produtiva
Produtos Primários Produção não-madeireira Produção madeireira Uso Energético da Madeira Lenha / Carvão vegetal Ferro-gusa / Ferroligas
Produtos Industrializados
Serrados / Compensados Lâminas / Reconstituídos PMVAs / Pastas celulósicas
Plantios Florestais
Pastas Celulósicas Aracruz Cenibra International Paper Jari Klabin Lwarcel Orsa Rigesa Ripasa Suzano Bahia Sul Vale do Corisco VCP Veracel
Carvão Vegetal
Acesita CAF Santa Bárbara Plantar Rima V&M
Construção Civil, Mobiliário
Araupel Duratex Eucatex Floresteca Placas do Paraná Satipel Tanagro

GM, 30/04-02/05/2005, Panorama Setorial, p. A8

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