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No tempo de Kuarup, o retorno da onça-d 'água

Amazônia Real- http://amazoniareal.com.br
Autor: Marcelo Carnevale
23 de ago de 2016

Neste mês de agosto, o estudante de direito Yakau Ewésh Yawalapiti Wanrã, 29 anos, conseguiu visitar a família da etnia Yawalapiti, na porção sul do Alto Xingu. Bolsista na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), ele reside em Barra do Garças, cidade mato-grossense localizada na divisa com Goiás, na região centro-oeste do Brasil.

O nome Ewésh significa na língua Yawalapiti, que pertence à família Aruak, onça-d 'água - mamífero presente na região do Pantanal e na bacia do rio Amazonas.

O retorno de Ewésh à aldeia Tuatuari inclui uma viagem de ônibus de cinco horas até Canarana, cidade que faz divisa com o Parque Nacional do Xingu. Depois mais sete horas de barco até o começo da parte mais alta e remota do Parque, na qual se encontra a comunidade Yawalapiti.

O motivo da viagem foi o Kuarup, a mais importante festa do Alto Xingu que aconteceu no último dia 13 de agosto. O encontro reuniu xinguanos na aldeia, entre amigos e convidados, e contou com a presença de comunidades de várias etnias do Alto Xingu: Mehináko, Matipuhy, Kuikuro, Kalapalo, Kamayurá, Waurá, Yawalapiti, Aweti e Nafukuá.

O ritual de homenagem aos mortos celebrado pelos Yawalapiti é centrado na figura de Mawutsinin, que para os xinguanos era o criador dos homens. Em sua origem, teria sido um rito que tem como objetivo trazer os mortos de novo à vida.

Na língua Kamayurá, Kuarup designa os troncos de madeira de cerca de dois metros que, representando os homenageados, são fixados e ornamentados em frente à Casa das Flautas, local sagrado e restrito aos homens, localizado no centro da aldeia.

O fechamento da cerimônia foi marcado pela tradicional luta Huka Huka, que reúne grupos distintos de lutadores experiente e novatos. Também, pela retirada dos troncos de madeira do centro da aldeia, seguida de sua transferência ao Rio Xingu.

Para esse Kuarup, Ewésh não cortou os cabelos durante um ano. A exigência fez parte dos preparativos de quem presta uma homenagem a algum familiar falecido, nos último 12 meses.

"O ano que passou foi o mais triste para os Yawalapiti com a perda de sete pessoas na comunidade que reúne 280 índios", disse Ewésh.

No caso de Ewésh, encerram-se dois lutos: o primeiro pela perda súbita da filha, Amilu Isabella Wapalalu Yawalapiti, de 1 ano e 4 meses, no dia 21 de abril de 2015, falecida por complicações pulmonares; o segundo, pela morte do irmão, Erick Tupanumaka Waura Yawalapiti, de 12 anos, no dia 05 de julho de 2015. Ambas as perdas ocorridas no município de Canarana. O caçula dos 15 irmãos foi encontrado pelo pai, Tapaie Waura, 52 anos, enforcado no banheiro externo da casa da família.

Em ambos os casos não se sabe exatamente o motivo das mortes. Entre a internação e o falecimento da filha, no Hospital Municipal de Canarana, foram apenas 24 horas. " O médico não soube dizer o que ela tinha exatamente, disse que era um problema pulmonar", contou Ewésh.

Para a comunidade Yawalapiti, o flagrante do pequeno Erick encontrado morto, dentro da casa de Canarana, foi um feitiço que pode atingir qualquer pessoa ou qualquer objeto. Algo sem explicação para os que estavam naquele momento na casa. A reação da família ao episódio, que não teve nenhum tipo de investigação, foi a demolição do cômodo depois do ocorrido. O sepultamento do menino aconteceu na aldeia.

A partida do segundo filho

Ewésh saiu do Alto Xingu, com 17 anos, incentivado pelos pais (ambos falam o português) para viver em Canarana, cidade que permaneceu por uma década antes de se mudar para Barra do Garças, há dois anos. É o segundo filho de uma família de 15 irmãos dos dois casamentos simultâneos do pai - situação comum no regime de poligamia da comunidade. Apenas outro irmão, Kichulu Yawalapiti, de 27 anos, também saiu da aldeia para cursar a faculdade de agropecuária, em Cassilândia (MS).

O primeiro emprego de Ewésh foi na administração do Instituto de Pesquisa Etno Ambiental do Xingu, em Canarana. Costumava atuar nos processos de licitações, fato determinante para a escolha do curso de direito.

Atualmente, suas idas à aldeia limitam-se a duas viagens por ano. Além de participar do Kuarup, essa viagem também promoveu o reencontro do estudante de direito com a esposa, Sacassiro Yawalapti, 20 anos, grávida novamente e no sexto mês de gestação. Ela se prepara para retornar à cidade, apesar de não falar o português.

Juntos desde 2012, o casal alternou a maior parte do tempo entre a convivência em Canarana e as idas da esposa para a aldeia. Mais recentemente, passaram uma primeira temporada de cinco meses em Barra do Garças. O plano é ter o bebê na cidade.

O tempo e a distância provocaram mudanças mas não comprometeram o objetivo maior de levar o conhecimento para a comunidade, sem passar por cima dos princípios e principalmente do cacique, a liderança tradicional.

"A discussão dos técnicos é muito teórica. Para compreender a realidade tem que conhecer mesmo o que acontece lá no Alto Xingu. Senão fica tudo muito distante da gente", disse Ewésh.

Da rede de buriti à rede digital

O primeiro contato historicamente registrado dos Yawalapiti com não indígenas ocorreu em 1887, quando foram visitados pela expedição de Karl von den Steinen. Nesse período, estavam localizados no alto curso do rio Tuatuari, numa região entre lagoas e pântanos identificada pelos Yawalapiti como sítio e de muitas de suas aldeias.

Na metade da década de 1940, após terem ocupado o sítio de Palusáya-píti (anteriormente associado aos Mehinako), os Yawalapiti sofreram uma séria crise, que levou a uma dispersão temporária de sua população entre aldeias Kuikuro, Mehinako e Kamaiurá. Na época da chegada dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas à região, os Yawalapiti reconstruíram sua aldeia reorganizando-se como grupo.

Em 1948, imediatamente antes do reagrupamento dos Yawalapiti, contava 28 indivíduos, segundo dados coletados pelo antropólogo canadense Kalervo Oberg (1901-1973).

Desde então, houve um progressivo aumento populacional estimulado pelos serviços de saúde no Parque e a diminuição dos conflitos entre os povos alto-xinguanos e seus vizinhos, por obra de "pacificação" promovida pelos Villas Bôas. Além da incorporação de membros de outras aldeias, costume antigo na região, mais intensificado com a criação do Parque.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), a população de Yawalapiti era de 156 pessoas no ano de 2011.

Os Yawalapiti preservam muito a própria cultura. E desde 2012, quando se conectaram à Internet, passaram a acompanhar a agenda política e os acontecimentos da cidade. O outro lado da presença digital na aldeia foi a mudança de comportamento dos jovens em contato permanente com o mundo virtual, um motivo de preocupação.

"Quando eu era criança praticava arco e flecha no quintal da oca. Hoje, não vemos mais essa situação. Realmente muita coisa mudou", disse Ewésh.

A língua Yawalapiti é citada pelo indígena como um fator de proteção e resistência. Ele afirma que a maioria da comunidade fala somente o Karib. A situação muda somente quando os jovens se conectam à Internet, nesse caso prevalece o português.

Questão de representação

A liderança entre os Yawalapiti segue a tradição da comunidade: o cacique vem de uma linhagem, cabe a ele coordenar a aldeia, praticar a gestão e conversar diretamente com a Funai.

Hoje, quem tem o conhecimento do português se destaca. A representação junto ao poder público está assumindo outro perfil, com a exigência de maior habilidade para reivindicar os direitos básicos, principalmente nas questões ligadas às licitações para contratar serviços de atendimento aos indígenas, em áreas como saúde e educação. O desenho atual não diferencia a realidade de cada etnia, existem aldeias mais isoladas e outras mais próximas dos núcleos urbanos. São necessidades distintas.

Segundo o estudante de direito, o importante é levar o conhecimento sem passar por cima dos princípios e do saber da liderança tradicional.

"Temos conversado com os profissionais para respeitarem as determinações do cacique. É preciso saber que às vezes não dá para mudar a tradição. A Lei muitas vezes ignora o que o pajé acredita", afirmou Ewésh.

Isolados, Invisíveis

Os doze anos longe da rotina da aldeia parecem não minimizar as dificuldades gerais que o índio sente na adaptação, visível num certo isolamento na vida que se estabelece na cidade.

Se no Parque Nacional do Xingu o desafio é vencer a distância e garantir apoio para um atendimento comunitário mais eficaz, a presença indígena nos municípios aponta para uma outra realidade: invisibilidade e segregação social.

Para o professor do curso de direito, da UFMT, João Paulo Miranda, existe uma preocupação da universidade com a acolhida aos alunos índios. O vestibular indígena é concentrado na capital Cuiabá. No processo, as comunidades indicam quais os candidatos que irão concorrer às vagas, com direito à bolsa de permanência especialmente para os índios.

"Pensou-se em construir a casa estudantil. Mas os estudantes preferiram receber a bolsa moradia para aluguel de casa. O processo de acolhimento inclui essas bolsas e uma coordenação específica em Cuiabá que faz uma parceria com a coordenação estudantil dos Campi", disse João Miranda.

O professor acredita que a integração social é um trabalho lento e que demanda um esforço contínuo da universidade para vencer as resistências locais. Ele alerta para a acomodação geral que é perceptível, tanto no poder público como na iniciativa privada, e aposta na ampliação da discussão.

Uma das iniciativas da UFMT foi a criação da bolsa de monitoria para colegas não indígenas. O objetivo é garantir ao índio um suporte de um colega de classe, tanto na parte acadêmica, como na vida da cidade. De preferência com a opção pela escolha de uma pessoa do mesmo nível social para garantir a ausência de hierarquia.

"Vai levar um tempo para uma ação local com trabalhos de extensão que influenciem a comunidade", afirmou João.

Ao refletir sobre as dificuldades gerais da presença indígena na universidade e por consequência na cidade, a expectativa do professor se limita a que seus alunos indígenas concluam o curso.

Segundo João, o aluno egresso do direito e, principalmente o índio, deve entender a disciplina, numa concepção jurídico política, como instrumento de liderança comunitária para que eles possam defender os direitos indígenas e suprir as lacuna institucionais.

Para o professor, a Procuradoria da Funai tem uma função muito mais administrativa. Trabalha com os processos de licitação e contratação e toda a burocracia envolvida, portanto não é suficiente para defender as causas indígenas.

"Os índios têm o Ministério Público Federal como parceiro dos direitos indígenas, mas que os melhores defensores sejam eles próprios, através de associações ou nas carreiras jurídicas de procuradoria e promotoria. Antes, quando os índios entravam para o ensino superior, se concentravam na área pedagógica, hoje, o grande desafio passa pela saúde e pelo direito", disse João.

Quando o monitor é o melhor amigo

Tiago Oliveira, 21 anos, conheceu Ewésh na semana do calouro, há dois anos. A amizade virou parceria através da monitoria que garante ao estudante uma bolsa de apoio ao indígena, renovada a cada semestre com apresentação de relatório de atividades e conclusão de metas.

Nascido em Taguatinga (TO), Tiago reforça a opinião da comunidade universitária sobre as maiores dificuldades dos índios: o domínio da língua portuguesa e a socialização com os não índios.

São três as etnias com maior presença, dentre as que frequentam o campus de Barra do Garças: Xavante, Bororó e Yawalapiti. Na convivência com Ewésh, ficou clara a defasagem que o índio enfrentou no ensino básico que foi interrompido alguns anos, período que a escola da aldeia ficou fechada.

A proposta da monitoria prevê três encontros semanais entre os estudantes, mas a amizade propiciou um convívio bem mais intenso e uma cumplicidade que é exemplo de entendimento, confiança e acolhimento.

Apesar de Tiago nunca ter visitado a comunidade no Alto Xingu e ter um vínculo com Ewésh estabelecido a partir da convivência no ambiente universitário, a parceria entre os estudantes confirma a estratégia do departamento de direito da UFMT.

Hoje, as diretrizes do curso de direito, em Barra do Garças, na visão do professor João Miranda, estão voltadas para uma abordagem menos tecnicista e mais humanista, num diálogo com a Constituição de 1988. O reflexo desse esforço de integração permitiu a aposta que resultou nesse exemplo do intercâmbio de conhecimento e vivências.

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