OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
20 de Ago de 2004
No front do clima
Washington Novaes
Reacende-se a discussão no mundo sobre mudanças climáticas, com o agravamento dos chamados "desastres naturais": 16 mortos, 2 milhões de pessoas evacuadas, prejuízos superiores a US$ 15 bilhões com o furacão Charley, o pior na costa dos Estados Unidos desde 1992, com ventos de 233 quilômetros por hora; na China, 115 mortos, 1.800 feridos, 8,5 milhões de pessoas afetadas, 460 mil evacuadas, 40 mil casas destruídas, 260 mil hectares cultiváveis inundados, 30 mil cabeças de gado perdidas com o pior tufão desde 1997; em junho/julho, as inundações no Sul da Ásia deixaram 2.070 mortos e milhões de desabrigados; na Europa, o custo dos desastres este ano já supera R$ 22 bilhões. Em 2003, diz uma das maiores seguradoras do mundo, a Munich Re, 700 "desastres naturais" mataram 50 mil pessoas e provocaram perdas materiais de US$ 60 bilhões.
Apesar de toda essa magnitude, a questão do clima não ocupa o centro das preocupações mundiais - e sim o terrorismo -, como tem dito o secretário-geral da ONU, Kofi Annan. As perdas na área ambiental são muito mais graves, escreveu o professor Richard Sleiner, da Universidade do Alasca. Desde o 11 de setembro de 2001, diz ele, 25 milhões de crianças já morreram no mundo por doenças evitáveis; 250 milhões de hectares de florestas tropicais foram perdidas - e, com elas, milhares de espécies foram extintas; 50 mil quilômetros quadrados de terra se desertificaram; 8 bilhões de toneladas de dióxido de carbono foram lançadas à atmosfera e a poluição matou 4 milhões de pessoas.
Nesse mesmo período, mais de 200 milhões de pessoas já se somaram aos 6 bilhões que havia. E como temos hoje 1,7 bilhão de mulheres em idade reprodutiva, a população mundial chegará a 8,5 bilhões ou 9 bilhões em 2050.
Um imenso problema, pois já estamos consumindo hoje mais do que a biosfera terrestre pode repor. De 1950 para cá, consumimos mais que todas as gerações anteriores desde o início da humanidade. Nesses 50 anos, o consumo global de aço e madeira mais do que dobrou; a produção de energia fóssil e de veículos quadruplicou; a produção de carnes e pescado quintuplicou; a de papel, multiplicou-se por seis; o tráfego aéreo tornou-se mais de cem vezes mais intenso.
A sustentabilidade - dizem hoje muitos cientistas - foi ultrapassada na década de 70. E com tantos problemas e tanta gente, de 1970 para cá, as despesas mundiais com a segurança pública multiplicaram-se por 13. E a insustentabilidade continua a avançar. O norte-americano médio consome 20 vezes mais que um habitante dos países mais pobres. Estes têm uma dívida externa de US$ 2,4 trilhões e pagam mais de US$ 1 bilhão por dia de juros.
Nem por isso se consegue avançar em questões básicas, como a redução de emissões que intensificam o efeito estufa, nem nos países industrializados, nem na China, que dobrou suas emissões em 20 anos e até 2050, no ritmo atual, superará as dos Estados Unidos. E ainda se prevê que o consumo de energia no mundo, oriunda principalmente da queima de combustíveis fósseis, crescerá pelo menos 30% até 2020.
"O futuro dominando por combustíveis fósseis conduzirá ao desastre", diz o diretor de políticas da New Economics Foundation, da Grã-Bretanha, Andrew Simms. E lembra que é possível alterar esse quadro, mudando a destinação de recursos - para energias renováveis. Só os países industrializados subsidiam a indústria de combustíveis fósseis com cerca de US$ 120 bilhões anuais.
Enquanto isso, o potencial teórico das energias solar, eólica, das biomassas e das marés é 23 vezes maior que o consumo atual de energia.
Mas continua difícil mudar, embora Alemanha e Grã-Bretanha estejam apostando alto em energias alternativas, principalmente eólica. Mas apostam também os britânicos na tecnologia de sepultamento de carbono em campos de petróleo esgotados no fundo do mar - caminho visto com enorme reserva por geólogos.
Da mesma forma, avançam em outras direções, investem ainda em energia das marés e das ondas e começam a testar, na Escócia, sua primeira usina desse tipo. Com a esperança de que até 2020 esse formato possa gerar 10% da energia consumida pelos escoceses.
Na verdade, há uma corrida tecnológica em busca da matriz capaz de substituir o petróleo e o carvão mineral, hoje responsáveis por 80% do suprimento global de energia. Renasce a pressão pela energia nuclear (responsável hoje por 16% da energia elétrica), embora não se tenha encontrado destinação adequada para o lixo nuclear, altamente perigoso - nem eliminado o risco de acidentes. A própria International Commission on Radiological Protection está propondo que o limite de tolerância para a radioatividade em resíduos contaminados por plutônio baixe para 40 vezes menos que o limite em vigor na Grã-Bretanha, cem vezes menos que o limite norte-americano.
É uma guerra com muitas frentes. O governo britânico pede ao Banco Mundial que dê mais ajuda aos países pobres e a projetos de energia renovável, em lugar de privilegiar projetos de produção de petróleo e gás. Um relatório da Agência Européia de Meio Ambiente diz que os europeus precisam reduzir com urgência suas emissões de gases e aprender a conviver com mudanças climáticas, que já são fortes. Nos Estados Unidos, oito Estados e a cidade de Nova York acionam na Justiça as cinco maiores empresas de energia do país para que reduzam suas emissões de gases (646 milhões de toneladas anuais só de dióxido de carbono, 10% das emissões totais norte-americanas). Terá muitas conseqüências no mercado de capitais.
Por aqui, silêncio quase total, com queixas a respeito dos critérios no programa de estímulo a energias renováveis (Proinfa), no que se refere a biomassas, que na prática seriam inviabilizadas. E na Câmara dos Deputados começou a tramitar projeto de lei do deputado Ronaldo Vasconcellos, sobre uma Política Nacional de Mudanças Climáticas, que propõe a substituição gradativa dos combustíveis fósseis por energias renováveis e, também, sistemas de controle de desmatamentos e queimadas, além da obrigatoriedade de aproveitamento do metano dos aterros sanitários e de pagamento de taxas por cabeça de gado (que também emite muito metano). O tema é importante.
Governo e Congresso estão muito atrasados nessa discussão.
Washington Novaes é jornalista
OESP, 20/08/204, Espaço Aberto, p. A2
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