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Nas aldeias, índios plantam maconha, estão viciados até em oxi e trabalham para o tráfico

O Globo, O País, p. 3
20 de abr de 2011

Nas aldeias, índios plantam maconha, estão viciados até em oxi e trabalham para o tráfico
Nas reservas de Mato Grosso do Sul, número de homicídios e suicídios tem aumentado

Carolina Benevides *, Marcelo Remígio
*Enviada especial

RIO BRANCO, ACRE - Aldeias indígenas do Acre, do Amazonas e de Mato Grosso do Sul estão na rota de entrada das drogas no país. Sem policiamento, reservas próximas às fronteiras com Bolívia, Colômbia e Peru se tornaram pontos estratégicos para o narcotráfico e locais de recrutamento de mão de obra barata. Indígenas têm consumido cocaína, merla, crack e também oxi - uma nova droga, subproduto da cocaína e pior que o crack, que surgiu no Acre, já se espalhou pela Região Norte, por alguns estados do Nordeste e do Centro-Oeste e chegou a São Paulo, conforme O GLOBO mostrou no último domingo.
Índios das aldeias Marienê e Seruini, no Amazonas, perto do município de Pauini, na fronteira com o Acre, plantam maconha nas terras indígenas para traficar e consumir. Eles levem a droga para a cidade, vendem para as bocas-de-fumo ou trocam por óleo, açúcar e sabão. Cocaína, oxi e merla também podem ser encontrados nas aldeias do Acre, especialmente em Boca do Acre, segundo índios que vivem perto da região.
- A merla é chamada de mel. São os mais jovens que experimentam e se viciam nessa droga, em cocaína, maconha e até em oxi. Tem tido muito conflito. Os mais velhos não concordam, e há caso de filho batendo em pai e mãe - conta Sanipa, índia que vive em Pauini: - A BR 317 passa no meio de duas terras indígenas do povo Apurinã, que fica em Boca do Acre. O homem branco vai nas aldeias e pergunta por "piabas", e aí o índio já sabe que ele quer comprar droga.
A questão das drogas tem se tornado tão grave que o conselho tutelar de Rio Branco teve que intervir no caso de uma índia de 9 anos, que vive numa aldeia de Brasileia, na fronteira do Acre com a Bolívia. A indiazinha foi parar no hospital com overdose de oxi.
- Ela veio numa ambulância, chegou mal, estava desnutrida. Ficou internada por alguns dias e constamos que a maioria dos índios dessa aldeia usa oxi - conta Linagina Silva, conselheira tutelar da capital Acreana.
De acordo com Sanipa, o uso de drogas está também diretamente ligado ao álcool:
- A cachaça tem sido trocada por álcool etílico, chamado "de xarope de tampa azul". Os mais velhos têm dado drogas para as crianças. Dizem que elas ficam igual a um peixe que nada de um lado para o outro. Esses índios de 4, 5 anos viram uma atração.
Em Mato Grosso do Sul, estudo da Secretaria Especial de Saúde Indígena aponta um aumento do número de homicídios e suicídios nas aldeias, acompanhado do crescimento do consumo de drogas como o crack. Os índios na região de Dourados já representam cerca de 60% da população carcerária, a maioria presa por delitos relacionados ao tráfico.
- Os jovens são os alvos. Muitos são obrigados a servir ao tráfico. Estamos propondo uma união da Polícia Federal, Força Nacional, governos estaduais, Funai e população indígena para seja criada uma força tarefa de controle das fronteiras nas áreas de reserva - diz o representante do Amazonas na Comissão Nacional de Políticas Indígenas, Jecinaldo Barbosa Cabral, da etnia Saterá Mawé.
Levantamento da Secretaria Especial de Saúde Indígena de Mato Grosso do Sul mostra que, em 11 anos, foram assassinados 278 índios em aldeias e 508 cometeram suicídios.
- Sob o efeito das drogas, a violência é brutal. Muitos dependentes trabalham no corte da cana-de-açúcar e mutilam com foices seus companheiros - conta o deputado federal Geraldo Resende (PMDB-MS), que propôs a criação de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) nas aldeias.

Corpo a Corpo
Paulina do Carmo Duarte

'O oxi está surgindo'
Apesar de o oxi já fazer vítimas há anos, a secretária Nacional de Políticas sobre Drogas, Paulina Duarte, ainda aguarda a primeira pesquisa sobre consumo da droga. Ela promete centros de recuperação de usuários em todo o país.

Marcelo Remígio

O que a Senad tem feito para conter o crescimento do oxi?

PAULINA DUARTE: Não acho que o consumo de oxi esteja crescendo, mas sim surgindo. Até porque não existem estatísticas oficiais que comprovem o crescimento. Em 15 dias será concluída uma pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz, que vai mapear o consumo de drogas no país. Será o primeiro levantamento que indicará o uso do oxi e, assim, dar continuidade a políticas de combate à droga.

Como está a rede de proteção aos dependentes de oxi?

PAULINA: O tratamento oferecido é o mesmo para usuários de crack e demais drogas, por meio de rede pública e ONGs. Fechamos convênios com 46 universidades, a maioria no interior, que serão responsáveis pela capacitação de profissionais nas áreas de saúde e social para o atendimento aos usuários. Em 12 meses serão formados 14.700 profissionais. Escolhemos universidades públicas para que os cursos de capacitação sejam gratuitos. Vamos trabalhar para aumentar o efetivo que presta atendimento a dependentes.

Cada vez mais cedo se recorrem às drogas. Como recuperar esses menores?

PAULINA: Estão em fase de implantação dois centros de atendimento, um em colaboração com a Universidade de São Paulo (USP) e outro com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul - ação que integra o plano nacional de enfrentamento ao crack -, com 50 leitos, dois quais 12 para menores. Isso comprova a nossa preocupação com crianças, adolescentes e jovens. A proposta é ter, pelo menos, um centro em cada região do país. Será desenvolvida uma grande ação de prevenção e diagnóstico.

Como impedir atuação de traficantes em aldeias indígenas?

PAULINA: A população indígena tem se mostrado vulnerável à questão das drogas. Trabalhamos com a Funai e a Universidade Federal do Ceará num projeto de duas ocas da saúde na Bahia. Nesses locais vamos atuar na saúde e na educação, incluindo o problema das drogas. O modelo será usado em outros estados, como o Mato Grosso do Sul, onde a população indígena é grande. Mas sempre respeitando as diferenças das etnias. O governo tem se preocupado com a população indígenas. Além da Funai, hoje temos a Secretaria Especial de Saúde Indígena.

O Globo, 20/04/2011, O País, p. 3

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