VOLTAR

Moradores de Nova Lima se preocupam com a contaminação da água por causa da lama de Brumadinho

G1 - https://g1.globo.com
Autor: Amelia Gonzalez
30 de jan de 2019

Moradores de Nova Lima se preocupam com a contaminação da água por causa da lama de Brumadinho
30/01/2019 12h55

O movimento socioambiental "Fechos eu Cuido", de Nova Lima, em Minas Gerais, acaba de lançar um manifesto alertando para o fato de que a atividade de mineração no Quadrilátero Ferrífero - onde fica Mariana - é a ponta de um iceberg e "produto de uma série de equívocos". Este grupo é formado por cidadãos comuns, moradores da área, e se criou em torno da necessidade de proteger a Estação Ecológica de Fechos, com mais de 500 hectares, criada em 1994. Basicamente, os moradores estão com medo de que algo de muito ruim aconteça com a qualidade da água que consomem, da bacia do ribeirão dos Fechos. A nota foi lançada por causa da tragédia que se abateu sobre Brumadinho, município que fica na região metropolitana de Belo Horizonte, onde uma barragem da Vale se rompeu.

"No Quadrilátero Ferrífero, a formação geológica que contém o minério de ferro é também o horizonte geológico que forma o aquífero (Formação Cauê) mais importante de toda região e que responde, sozinho, por 80% de todas as suas águas subterrâneas. Assim, a extração de minério destrói irreversivelmente esse poderoso e raro aquífero. A mineração no Quadrilátero Ferrífero é realizada em áreas com grande importância para a recarga dos aquíferos e para o abastecimento da população e geralmente onde há alta densidade populacional. No caso da Região Metropolitana de Belo Horizonte, esses aquíferos são responsáveis pelo abastecimento da terceira maior região metropolitana do Brasil, onde vivem 5,9 milhões de habitantes", diz a nota.

O comprometimento dos recursos hídricos superficiais de toda a região é qualificado como impacto de médio e longo prazo, que não está sendo considerado atualmente, até porque existe uma urgência maior, de salvar vidas e encontrar corpos.

"As margens dos cursos d'água atingidos ficarão contaminados pelos resíduos tóxicos até que a natureza os arraste para a calha do rio e de lá sejam dispersados rio abaixo. Isso ocorrerá com as chuvas que vierem a promover essa remobilização. Podem participar deste processo os resíduos do processamento do minério assim como elementos tóxicos contidos originalmente nas rochas e que se tornam móveis no processo de beneficiamento (metais pesados)".

E ainda não param aí os problemas. Há a poluição do ar, o barulho, a destruição dos aquíferos de circulação hídrica. Coisas que devem constar dos estudos de impactos ambientais que as empresas são obrigadas a fazer antes de qualquer empreendimento. Como disse Ciro Torres, nesta entrevista que publiquei na segunda-feira (28), no entanto, nem sempre os relatórios são levados em conta pelas empresas.

Como não podia deixar de ser, os representantes do movimento que assinam o manifesto se fazem uma pergunta que anda no pensamento de muitos daqueles que vivem em áreas próximas a tais empreendimentos: "Minerar para que e para quem?"

"Visando à exportação, a extração de minério é realizada em larga escala, com grandes volumes que vão além da demanda brasileira, e ainda em um modelo centrado em alta lucratividade, que influencia na adoção de tecnologias de menor custo, como por exemplo, as barragens de rejeito com sistema de beneficiamento a úmido, visando prioritariamente a manter a eficiência econômica dos empreendimentos minerários, negligenciando outros aspectos - ambientais, sociais, segurança da população do entorno e dos funcionários - que deveriam ter, ao menos, o mesmo grau de relevância".

O que os representantes do "Fechos eu Cuido" querem, nesse instante, é ampliar a reserva ecológica. Quanto maior a sensação de segurança, quanto maior a certeza de que as mineradoras não poderão atingi-los, mais tranquilos ficarão. No livro "Diferentes formas de Dizer Não", editado pela ONG Fase, especialistas lembram que estes mecanismos de proibição e restrição às atividades minerais representam "um dos meios pelos quais a sociedade acumula forças para contestar os rumos do desenvolvimento no país e disputar um projeto de sociedade contra-hegemônico, comprometido com a sustentabilidade e a democracia".

É o que tem acontecido, sobretudo depois da tragédia vivida por Mariana, por Barcarena, agora por Brumadinho. Outra organização comprometida com um tipo de desenvolvimento que não acarrete em mortes de cidadãos, a 350.org também lançou um manifesto que lembra o perigo de a lama atingir outros rios da região. Incomodada com a declaração recente do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que defende maior agilidade no licenciamento ambiental, a nota da ONG diz que o que se passou em Brumadinho pode ser uma espécie de prévia do que vai acontecer Brasil afora, caso as licenças ambientais passem por uma reforma para ampliar as possibilidades das empresas.

"Fatalidades como estas antecipam o que o País passará se for confirmada a proposta do governo de estabelecer uma forma de "autolicenciamento ambiental" - no qual o processo ficará a cargo dos proprietários dos espaços rurais e empresas".

O engenheiro e coordenador de campanhas da 350.org também alerta para o risco que correm os rios da região. E volta a afirmar:

"Se hoje o licenciamento é considerado um procedimento 'artesanal', com poucos padrões de qualidade, imagina como será quando se tornar um processo automático - fazendo com que a própria pessoa faça seu cadastro?"

https://g1.globo.com/natureza/blog/amelia-gonzalez/post/2019/01/30/mora…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.