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Índios do Xingu salvam suas línguas em livros didáticos

Agência Amazônia de Notícias -
Autor: Josana Sales
28 de jul de 2008

Publicações são escritas e ilustradas por índios de 34 etnias, que documentam roças, terra e culinária. Vem aí um dicionário de 27 línguas.

CUIABÁ, MT - De uma só vez, nesta quarta-feira, às oito horas, no Museu Rondon da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o Programa de Educação Superior Indígena Intercultural (Proesi) lançará quatro livros da Série Experiências Didáticas, escritos por professores e alunos da etnia Ikpeng (área central do Parque Indígena do Xingu, conhecido como Médio Xingu). Os livros: Irwa, Ga, Orong e Ikpeng Ungwopnole são de autoria dos professores Iokore Kawakum Ikpeng, Korotowi Taffarel, Maiuá Meg Poanpo Txicão e organizados pelos coordenadores do Proesi, Elias Januário e Fernando Selleri Silva. Todas as ilustrações são produzidas pelos indígenas.

O Proesi funciona há dez anos. Suas publicações são organizadas nas séries: Experiências Didáticas, com livros escritos nas línguas-mãe e utilizados nas salas de aulas nas aldeias indígenas; Práticas Interculturais, que organiza e divulga textos e ilustrações de professores e alunos indígenas que relatam seus mitos, conflitos, costumes e saberes das mais diversas etnias mato-grossenses em português.

O dia-a-dia e a luta do índio

Boa parte dos livros dos quais fazem parte textos de 34 etnias narram o modo de fazer roças, a culinária indígena e restrições alimentares, os problemas da luta pelos territórios indígenas e os marcadores do tempo, formas de observar o clima e regime de chuvas sempre através dos animais , das estrelas e os rios.

O Proesi forma professores indígenas, abrindo espaço nos cursos de bacharelado e nos cursos regulares. Possui hoje 275 estudantes na graduação, 50 na especialização e, este ano, dois jovens da etnia Ikpeng, Korotowi Taffarel e Maiuá Meg Poanpo Txicão concorreram com 52 pessoas e passaram no curso de mestrado em Ciências Ambientais na Unemat de Cáceres.

Para Elias Januário, as publicações da produção acadêmica gerada por professores e alunos possibilitam às nações indígenas e à sociedade brasileira a criação de um canal de comunicação, o que facilita o entendimento e a longo prazo pode derrubar preconceitos.

"Estamos no mundo"

Morador da aldeia Moigi, no posto Pavuru onde ficam os Ikpeng no Médio Xingu, o aluno mestrando Maiuá comenta com entusiasmo de estudante o fato de ter concorrido com tantas pessoas e ter conseguido a vaga no mestrado. Além disso o jovem Ikpeng considera um ato positivo para a sobrevivencia do seu povo poder agora documentar a sua história. Eles ainda são considerados temidos guerreiros do Parque.

Com grande interesse ele diz que pretende saber tudo sobre as leis brasileiras e como são interpretadas. "Queremos saber do olhar do branco para as leis e principalmente em relação ao meio ambiente porque nossa sobrevivência depende disso, inclusive com relação a saúde", disse.

Segundo Maiuá, os índios sempre enfrentam preconceitos , principalmente nas salas de aulas dos cursos superiores. "Eles acham que tem mais conhecimento ou que a história deles é mais importante do que a nossa. Não é assim, somos capazes e fortes. E meu povo, os Ikpeng, quando saem para as cidades dos brancos, vamos em busca de conhecimento mas em seguida levamos tudo para o nosso povo, é para eles que estamos tentando entender o que acontece aqui fora", disse.

Brasil perdeu 1.100 línguas indígenas desde o descobrimento

CUIABÁ, MT - A extinção de línguas usadas pelos mais diversos povos vem sendo objeto de estudos que demonstram o desaparecimento de sociedades que sequer puderam registrar sua existência. Segundo o professor de lingüística da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcus Maia, existem atualmente no mundo seis mil línguas distribuídas em 250 nações. Só no Brasil, em 1500 existiam 1.300 línguas, das quais foram extintas 1.100. Apenas 700 mil pessoas têm acesso às 180 restantes.

"Em toda a história da educação indígena tenho acompanhado o desenvolvimento das atividades e o projeto sempre criou uma reflexão crítica sobre os conceitos fundamentais da lingüística contemporânea, aplicando-os na análise de suas línguas que são compreendidas não como fenômenos exóticos mas como sistemas plenamente relacionados a princípios universais da linguagem", ele assinala .

Dicionário de 27 línguas

Maia alerta ainda que as escolas indígenas devem diferenciar-se no sentido de superar uma prática muito comum - a de reproduzirem acriticamente os procedimentos pedagógicos e a visão de língua e de gramática predominantes nas escolas tradicionais não-indígena. "Muitos materiais sobre as línguas indígenas em uso nas escolas foram desenvolvidos por missionários, de acordo com a gramática normativa que acabava selecionando o que se achava "mais certo e mais bonito". O próximo passo do Proesi é lançar um docionário de 27 línguas indígenas produzido por professores e alunos indígenas.

Os povos que habitavam a costa leste, na maioria falantes de línguas do Tronco Tupi, foram dizimados, dominados ou refugiaram-se nas terras interioranas para evitar o contato. Hoje, somente os Fulniô (de Pernambuco), os Maxakali (de Minas Gerais) e os Xokleng (de Santa Catarina) conservam suas línguas. Curiosamente, suas línguas não são Tupi, mas pertencentes a três famílias diferentes ligadas ao Tronco Macro-Jê.

Os Guarani, que vivem em diversos estados do Sul e Sudeste brasileiro e que também conservam a sua língua, migraram do Oeste em direção ao litoral em anos relativamente recentes. As demais sociedades indígenas que vivem no Nordeste e Sudeste do País perderam suas línguas e só falam o português, mantendo apenas, em alguns casos, palavras esparsas, utilizadas em rituais e outras expressões culturais.

A maior parte das sociedades indígenas que conseguiram preservar suas línguas vive, atualmente, no Norte, Centro-Oeste e Sul do Brasil. Nas outras regiões, elas foram sendo expulsas na medida em que avançou a urbanização.

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