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Índios da fronteira

A Gazeta, p. 3A
Autor: JANUÁRIO, Elias Renato da Silva
26 de nov de 1999

Índios da fronteira

Elias Renato

Os registros oficiais da presença de sociedades indígenas nas regiões da fronteira do Brasil com a Bolívia remontam ao século XVI, através dos relatos das expedições exploradoras e dos missionários espanhóis que percorreram estas regiões mantendo contatos com diversos grupos indígenas, entre eles os Chiquitano, Mojo e Guató. Expedições ocorridas em meados do século XVIII registraram a presença de índios Bororo nesta região de fronteira do Brasil com a Bolívia, conhecidos como os Bororo da Campanha, vivendo em pequenas aldeias e trabalhando como peões nas fazendas da região.
O advento da colonização, que trouxe em seu bojo a cobiça pelas riquezas e a ambição em ocupar os espaços, contou inicialmente com a presença dos espanhóis e posteriormente dos portugueses nas regiões do Alto Paraguai. Essa ação levou algumas sociedades indígenas à extinção e outras à desorganização sóciocultural através do processo de dominação e assimilação, que utilizou amplamente a mão de obra indígena no extrativismo, na pecuária e na agricultura.
Nos séculos seguintes esses grupos passaram por diferentes processos históricos de mudanças, sendo forçados a integrarem-se à população local, deixando de existirem aos olhos da sociedade envolvente enquanto grupos indígenas. Emerge a partir dessa situação de dominação e integração sóciocultural a categoria étnica do "bugre", designação atribuída aos descendentes de Chiquitano, Guató e Bororo.
A denominação "bugre" vai silenciar as identidades étnicas dos grupos indígenas da fronteira, forjando uma identidade genérica e estereotipada a essas pessoas, negando a elas a possibilidade de se organizarem enquanto grupos com práticas sócioculturais peculiares e direito à terra.
Pesquisando há um ano e meio a diversidade étnica e cultural nas escolas da fronteira do município de Cáceres com a Bolívia, deparei-me com um quadro revelador. As comunidades localizadas nesta faixa de fronteira - Corixa e Roça Velha - são agrupamentos formados por várias famílias, algumas delas apresentando particularidades sócioculturais que as distinguem das outras, permitindo no contexto da interação social constituírem-se em categorias étnicas.
Sendo assim, pude constatar a presença de famílias remanescentes de índios Chiquitano e Bororo, que encontram-se presentes nesta região de fronteira sob a designação genérica de "bugre", vivendo em condições de miséria, dominação e exploração.
A maioria destas famílias não são proprietárias das terras que ocupam há décadas. Sobrevivem do cultivo de pequenas roças (milho, mandioca e banana) e do trabalho de diaristas nas fazendas da região fazendo cercas, aceiros e roçadas.
Da língua materna de seus pais e avós e dos traços culturais como a cerâmica e a cestaria, quase nada conservam. Grande parte dos seus conhecimentos e do patrimônio cultural foram perdidos no contato. Dos tempos idos permanece a elaboração da "chicha" (bebida feita de milho fermentado), presente nos momentos mais importantes dos grupos familiares, servindo como elemento identitário que marca a fronteira entre os grupos étnicos da região.
Os traços indígenas presente na fisionomia proporcionam uma rara beleza oriunda da mistura dos povos que marcou fortemente a formação da sociedade brasileira. Nas esferas do sobrenatural, encontramos um universo magnífico permeado de mitos e crenças que povoam o imaginário dessas pessoas conferindo significados à vida cotidiana.
A discriminação, o preconceito, o alcoolismo e as doenças fazem parte do cotidiano destas famílias que, sem expectativas de mudanças, vão conduzindo suas vidas tecidas na faina cotidiana do fazer.
Hoje, depois de 500 anos da chegada do europeu nas terras brasileiras, encontramos famílias descendentes dos povos indígenas que foram fustigados e fadados ao etnocídio pelos processos históricos advindos do contato interétnico, e que merecem o reconhecimento pela sociedade envolvente da sua condição de remanescente das populações autóctones das regiões de fronteira, com direitos à terra, assistência e respeito às diferenças étnicas e culturais.

* ELIAS RENATO DA SILVA JANUÁRIO é professor do Curso de História e Coordenador do Núcleo de Assuntos Indígenas da Universidade do Estado de Mato Grosso - (Unemat)

A Gazeta, 26/11/1999, p. 3A

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