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Imagens do impossível por lentes políticas e psicodélicas

O Globo, Segundo Caderno, p. 3
21 de jul de 2019

Imagens do impossível por lentes políticas e psicodélicas
Influenciada pela pintura, Claudia Andujar retrata o universo dos ianomâmi em mostra no IMS
Exposição mostra anos de convivência da artista e a luta em defesa dos direitos indígenas ameaçados pela chegada da mineração

Mauro Trindade, especial para O GLOBO

RIO - Claudia Andujar é um nome central na fotografia brasileira. Mesmo que ela seja uma suíça criada na Transilvânia e que seu trabalho, iniciado no fotojornalismo, vá muito além do que se classifica como documental.

- Sou uma brasileira ianomâmi - diz essa mulher de 88 anos com um sorriso e um grave sotaque da Europa Oriental que nunca a deixou.

Sua exposição "Claudia Andujar - A luta Yanomami" , aberta neste sábado no Instituto Moreira Salles (IMS), na Gávea, apresenta de forma aprofundada e inédita as imagens que são o centro de sua obra: seus anos de convivência com esta população e sua luta decididamente política em defesa dos direitos indígenas ameaçados pela chegada da mineração, da agricultura e das estradas.

- A Claudia teve uma luta muito forte nos anos 1970 e 80, e eu e não conseguia entender como isso aconteceu. - comenta Thyago Nogueira, curador da exposição e coordenador da área de fotografia contemporânea do IMS. - Suas fotografias eram uma coisa distante, porque eu não compreendia o que estava sendo fotografado. Queria entender que povo era esse e o que estava nestas imagens

40 mil cromos, 200 fotos
O pesquisador mergulhou em 40 mil cromos e negativos para selecionar cerca de 200 fotografias que compõem a exposição, que apresentaram ao mundo um povo quase inteiramente desconhecido.

- Ela não se encaixava no jornalismo nem na antropologia e acabou desenvolvendo uma nova forma visual para o seu trabalho - diz o curador. - E depois o abandona por sua militância, como uma maneira de defender os ianomâmi.

A exposição reflete esses dois momentos. A primeira parte é dedicada à fase inicial de sua carreira, entre 1971 e 1977, com fotos da região do rio Catrimani, em Roraima, onde Claudia fotografou o cotidiano desse povo, além de seus rituais xamânicos com a yãkoana, um pó alucinógeno que lhes permite entrar em contato uma suposta dimensão invisível. Segundo Nogueira, "os anos de dedicação profunda fizeram com que Andujar transformasse o interesse jornalístico e antropológico em uma interpretação radicalmente original da cultura".

A segunda parte trata de sua atividade política. Claudia Andujar conta que, depois de sair da Europa em 1949, foi morar em Nova York com seu então marido, Julio Andujar, de quem manteve o sobrenome depois de se separar, dois anos mais tarde.

- Nos últimos tempos de minha estada nos Estados Unidos, eu trabalhava como guia das Nações Unidas, levando turistas para conhecer e falar da importância daquela organização - conta ela. - E na época passei a pintar. De certa maneira isso me influenciou na fotografia dos ianomâmi.

Filmes infravermelhos
Para representar aquele universo fantástico no qual os seres humanos se comunicam com espíritos ou xapiri pë, Claudia passou a sujar as bordas das lentes com vaselina, utilizar filmes infravermelhos e de alta sensibilidade e realizar montagens fotográficas.

- Isso está ligado à pintura que eu fazia antes de fotografar - conta ela. -Eu procurava maneiras de expressar o que entendia da vida. Sempre fui autodidata. Mas tinha o desejo de transmitir minhas ideias e procurava meios mais complexos de fazer isso.

Eram recursos que ultrapassavam - e muito - as práticas costumeiras do fotojornalismo que praticava em revistas como as brasileiras "Quatro Rodas", "Setenta" e "Claudia" e as estrangeiras "Life" e "Look".

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- Isso veio com o tempo - avalia. - Quando comecei a fotografar, percebi que poderia me expressar com a câmera, já que não sabia português. Era uma maneira de conversar com as pessoas no Brasil.

Em 1976, durante a ditadura militar, Claudia foi obrigada a deixar a região dos ianomâmi, proibição estendida até 1978. Naquele ano, ela iniciou uma campanha pela demarcação das terras indígenas, tornando-se uma das fundadoras da Comissão para a Criação do Parque Yanomami (CCPY). A segunda parte da mostra abriga documentos originais desse período, entre desenhos ianomâmi, publicações, vídeos, fotografias e uma instalação com imagens e cantos indígenas.

O Globo, 21/07/2019, Segundo Caderno, p. 3

https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/influenciada-pela-pintur…

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