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Hidrelétricas do Pará inundarão uma S.Paulo

OESP, Economia, p. B9
07 de mai de 2010

Hidrelétricas do Pará inundarão uma S.Paulo
Áreas da floresta Amazônica que servirão de reservatório para novas usinas no Pará equivalem a mais de 30% do território da capital paulista

Marta Salomon

Uma área da floresta Amazônica superior ao território da cidade de São Paulo será inundada pelas hidrelétricas localizadas em unidades de conservação no Pará e que deverão entrar em operação até 2019, de acordo com o Plano Decenal de Energia.
Dados preliminares dos projetos de cinco das usinas do Complexo Tapajós, disponíveis no sistema de licenciamento ambiental do Ibama, mostram que as áreas de reservatório dessas hidrelétricas somarão 1.980 km2, área 30% maior que a cidade de São Paulo.
Juntas, essas usinas têm potência de 10,5 mil MW, quase uma Belo Monte, a maior hidrelétrica brasileira, com 11,2 mil MW, recentemente leiloada. Para uma comparação, Belo Monte irá inundar 516 km2 na criação do reservatório.
No plano que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) lançou à consulta pública na terça-feira, o Complexo Tapajós aparece como responsável por quase a terça parte do aumento da oferta de energia no País na próxima década.
"Acho muito pouco, o que estamos propondo é um mínimo de devastação", defende Luiz Fernando Rufato, superintendente da Eletronorte, referindo-se à área a ser alagada. A estatal bancou os estudos de viabilidade dos empreendimentos ao lado das empreiteiras Camargo Corrêa e CNEC Engenharia.
Rufato alega que o abate de árvores causado pelos lagos das hidrelétricas brasileiras é pequeno diante de outros motivos da devastação, como o avanço da fronteira agrícola e sobretudo a pecuária. Todas as hidrelétricas - das pequenas às grandes - já inundaram uma área equivalente a 40 mil km2 no País.
A área do reservatório representa a dimensão mínima do desmatamento a ser causado pelos futuros empreendimentos em reservas ambientais do Pará. As chamadas usinas plataforma causam desmatamento, por mais "cirúrgica" que se pretenda a intervenção.
O diretor de licenciamento do Ibama, Pedro Bignelli, adianta que o órgão ambiental dará tratamento diferente aos processos do Complexo Tapajós, segundo ele ainda em "estado latente".
Açodamento. A proposta de construir hidrelétricas em unidades de conservação chegou à cúpula do governo em meados de 2008. Ganhou fôlego com o decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assinado no mês passado, autorizando pesquisa de potencial hidrelétrico no interior das áreas protegidas.
A maior parte das unidades de conservação próximas aos rios Tapajós e Jamanxim, que abrigarão as novas hidrelétricas, foi criada para deter o desmatamento nas proximidades da BR-163 e também da Transamazônica.
O presidente do Instituto Chico Mendes, Rômulo Mello, diz que as unidades de conservação foram criadas "de forma açodada" e estão longe de representar áreas realmente à salvo do desmatamento. Ele diz que há inclusive áreas de agricultura consolidada dentro dessas unidades. O instituto é responsável pelas áreas de proteção e pretende compensar a área atingida pelas hidrelétricas com novas áreas de proteção nas proximidades.
A maior das usinas planejadas nessa região é São Luiz do Tapajós, com potência de 6.133 MW. No plano da EPE, a usina começará a operar em novembro de 2016. As demais usinas do Complexo Tapajós entrariam em operação em janeiro de 2019.
Duas outras usinas estudadas na mesma região - Chacorão e Jardim de Ouro - não contam com o entusiasmo imediato dos empreendedores porque a primeira avança em território indígena e a segunda não demonstra ser um investimento atraente, embora tenha sido listada pelo Plano Decenal de Energia.

Para lembrar

Plano Decenal é resposta às críticas antigas

A mais recente versão do Plano Decenal de Energia prevê o crescimento em 5,1% ao ano da demanda de energia elétrica no País na próxima década, para acompanhar o ritmo da economia brasileira. Elaborado pela EPE e lançado à consulta pública na terça-feira, o plano concentra a expansão da oferta de energia em projetos hidrelétricos. O Plano Decenal de Energia responde às críticas feitas à versão anterior do plano, que previa o aumento do número de usinas térmicas, consideradas fontes de energia mais poluentes, vilãs do aquecimento global.

Comparação

1.979,5 km2 é o total da área a ser inundada pelas hidrelétricas
1.523 km2 é a área da cidade de São Paulo

OESP, 07/05/2010, Economia, p. B9

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100507/not_imp548287,0.php

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