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Hábitos milenares convivem com a tecnologia

Valor Econômico - http://www.valoronline.com.br/
Autor: Timóteo Camargo
28 de jun de 2010

Para entender a possibilidade de indígenas competindo no mercado, é preciso, em primeiro lugar, deixar de lado alguns preconceitos. Para a população de São Gabriel da Cachoeira, inclusão digital não significa deixar arco e flecha ou hábitos milenares para se aventurar com mouse e teclado. Hoje, a maioria dos jovens gabrielenses conclui o ensino médio, busca o ingresso em faculdades e cursos técnicos e trabalha em órgãos públicos da cidade ou no comércio local. Um exemplo é a instrutora do Centro de Inclusão Digital (CID), Maria de Loreta Alencar, indígena tukano, que faz a faculdade de Análise e Desenvolvimento de Sistemas na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) à distância. "Entrei tarde na faculdade, com 23 anos", diz Maria.

O diretor do Departamento de Educação Indígena, Donato Miguel Vargas, da etnia Karapanã, ressalta que indígenas e não indígenas têm a mesma capacidade de aprender. "A educação indígena não pode ser vista como algo diferenciado. Muitas vezes temos de ir contra os sistemas de ensino para valorizar a educação de cada povo: criar literatura própria e valorizar a transmissão oral. Mas, o que o mundo tem de bom nós queremos. Queremos ensino superior, acesso à internet; queremos que nossos filhos saibam viver nas comunidades e nas cidades também", argumenta.

O prefeito de São Gabriel da Cachoeira, Pedro Garcia, da etnia tariano, é mais enfático: "Nós sabemos mais do que vocês. Falamos a sua língua e conhecemos sua história...". A afirmação não é agressiva, considerando-se o contexto: o primeiro prefeito indígena do Brasil conta que até a naturalidade com que os indígenas se identificam hoje pela etnia é resultado de mudanças que começaram no fim dos anos 80. "Naquele tempo, as pessoas preferiam dizer que eram "cabocos" (caboclos) do que dizer que eram dessa ou daquela etnia", diz. "Não entendiam que a diferença era que os não indígenas apenas se especializavam mais. Por muito tempo, o ensino escolar indígena era limitado", lamenta.

Pedro Garcia lembra que nos primeiros anos de militância do movimento indígena, houve muita resistência interna. Algumas pessoas acreditavam que essa valorização da identidade levaria a região a um retrocesso, com fechamento do comércio e das escolas para a retomada do modo de vida antigo. "Quanto mais conhecimento tivermos, o mundo fica menor e cabe na nossa mão", afirma.

"O diálogo aumenta o compartilhar de conhecimento", afirma, explicando o motivo do convite oficial à Fundação Bradesco para a instalação do CID no município. "Tínhamos outras opções de projetos para oferecer acesso à internet para a comunidade, mas consideramos a ação da Fundação Bradesco mais completa por oferecer capacitações."

Para a secretária de Juventude Desporto e Lazer, Lorena Marinho Araújo, da etnia tariano, "o maior desafio é criar oportunidades para os jovens." Lorena reconhece que a abertura do campus da Universidade do Estado do Amazonas e de uma unidade de cursos técnicos do Instituto Federal do Amazonas oferece uma alternativa de profissionalização para os jovens que optam por ficar na cidade.

Para Lorena, que graduou-se em História em Manaus, a saída dos estudantes após o ensino médio não chega a ser um problema. "Assim como eu, a maioria acaba voltando para ajudar na comunidade, especialmente na área de saúde e educação, porque é difícil encontrar pessoas de fora dispostas e vir trabalhar em São Gabriel", relata. A distância de Manaus e a dependência financeira que algumas famílias têm de seus jovens, no entanto, torna a escolha de ficar ou sair das comunidades um dilema de proporções amazônicas.

Os jovens que ficam, enfrentam a dificuldade de conseguir um espaço no mercado de trabalho. "Aqui não há grandes empresas e praticamente apenas o comércio local absorve essa mão de obra", diz Lorena. O risco social aumenta por conta da extensa faixa de fronteira com a Colômbia e Venezuela. "Por mais a gente tenha terras demarcadas no Brasil e invista em ações educativas e de controle, basta atravessar a fronteira para os jovens terem acesso a drogas e bebidas, por exemplo", afirma. (T.C.)

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