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Funasa proíbe contato de evangélicos com tribo

OESP, Vida, p. A22
08 de mar de 2006

Funasa proíbe contato de evangélicos com tribo
Etnia isolada da Amazônia estaria mudando hábitos por causa da intervenção de missionários

Liège Albuquerque

A Fundação Nacional de Saúde (Funasa), responsável no País pela cobertura de saúde aos indígenas, deve entrar com uma ação no Ministério Público Federal para pedir à Justiça que retire os missionários evangélicos da Jovens com uma Missão (Jocum) da aldeia dos suruahá, que fica na área rural do município de Tapauá, a 450 quilômetros de Manaus.
Os índios da etnia, composta por apenas 137 membros, moram isolados e, na visão do coordenador da Funasa, Francisco Aires, estão sendo aculturados pelos missionários evangélicos. "Eles estão até aprendendo cantos evangélicos na língua suruahá, comendo alimentos com óleo e sal, algo que não existe na cultura deles. Na minha opinião, eles não querem só evangelizar, levam estrangeiros para conhecer os indígenas, não sei qual a intenção", afirmou Aires.
De acordo com ele, a Funasa deverá estender essa proibição de contato também a outras organizações missionárias, como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Igreja Católica.
A presidente da Jocum, Bráulia Ribeiro, rebate as desconfianças do superintendente da Funasa. "Não estamos para catequizar, mas para ajudar no que eles precisam. Não estamos para impor nossa cultura a eles, mas para tentar preservar suas crenças", argumentou.
"Só fazemos o que eles nos pedem, como no ano passado, quando as crianças estavam doentes e as mães, ao contrário do que prega a própria cultura delas, não quiseram sacrificar seus filhos."
Em julho, a Funasa interveio no transporte de duas famílias de suruahás para São Paulo, levadas por missionários da Jocum para tratamento médico. A Funasa afirmou que não havia autorização para transportar os indígenas.
AUTORIZAÇÃO
A presidente nacional da Jocum contesta a informação de que a instituição não dispunha de autorização para levar os indígenas para o tratamento em São Paulo. "Temos os documentos que demonstram que a regional de Lábrea havia autorizado as viagens", disse. Na época, uma criança hermafrodita foi operada e outra com paralisia cerebral iniciou tratamento de fisioterapia, ambas no Hospital das Clínicas, onde ficaram por quatro meses.
"Em São Paulo, fomos impedidos de continuar com eles, mas a Funasa sabe que necessita de nosso trabalho como intérpretes", disse Bráulia. "Temos dois etnólogos com formação e mestrado na Universidade de Campinas (Unicamp), Márcia e Edson Suzuki, que trabalham com os suruahá há anos e a Funasa sabe que a língua dos suruahá é muito pouco conhecida."
Como não há tratamento adequado em Manaus, a mãe da garotinha suruahá com paralisia cerebral, que se chama Moadi, viaja hoje para Brasília com a filha, acompanhada por enfermeiros da Funasa, a fim de continuar o tratamento de fisioterapia no Hospital Sarah Kubitschek.

OESP, 08/03/2006, Vida, p. A22

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