O Globo, Rio, p.16
11 de Nov de 2004
Feema é alvo de devassa
Antônio Werneck e Carla Rocha
OMinistério Público estadual está fazendo uma devassa na Feema. Dos 45 presos durante a operação Poeira no Asfalto, realizada pela Polícia Federal na segunda-feira contra a máfia do combustível, três seriam funcionários do órgão estadual ou estariam prestando serviço a ele. Por isso, na terça-feira, um grupo de três promotores começou a vasculhar documentos da empresa, em uma operação realizada na sede da instituição, em Copacabana. Foram recolhidos na sala da presidência 20 processos que envolvem 29 empresas, postos de gasolina e distribuidores de combustível, suspeitos de terem conseguido licença ambiental de forma fraudulenta.
Os promotores recolheram os processos que encontraram no local referentes a empresas citadas em algum momento nas mais de 200 horas de gravação da Polícia Federal. Os documentos recolhidos pela PF, na segunda-feira, e pelo Ministério Público terão que ser periciados.
Licenças poderão ser canceladas
Os laudos do Ministério Público serão entregues à Assessoria Criminal do órgão para identificar os crimes que podem estar associados à denúncia. Ontem à tarde, promotores se deslocaram para unidades da Feema no interior do estado para cumprir outros mandados de busca e apreensão. As investigações ficarão a cargo de promotores do Meio Ambiente e da Defesa de Cidadania. Os funcionários acusados deverão responder por improbidade administrativa.
Sobre a denúncia de participação de fiscais ambientais no esquema da Feema, que teria uma espécie de tabela de preços para liberar mais rápido processos de licenças ambientais irregulares a postos de gasolina, a Secretaria de Meio Ambiente divulgou uma nota afirmando que determinou a abertura de um inquérito administrativo. A secretária estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, Isaura Fraga, e a presidente da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), Elizabeth Lima, informam que já foi instaurado inquérito administrativo, solicitando afastamento temporário dos dois servidores da fundação, supostamente envolvidos com a quadrilha de adulteração e transporte irregular de combustível.
Ainda segundo informações oficiais da Feema e da secretaria, todas as licenças mencionadas no inquérito e aquelas em que os funcionários sob suspeita possam ter tido alguma participação serão auditadas. Caso seja constatada alguma irregularidade, essas serão canceladas ou reavaliadas.
De acordo com a investigação em curso na Polícia Federal, cerca de 40 a 50 empresas são mencionadas nas conversas telefônicas gravadas. Como os promotores ainda não localizaram todos os processos de empresas citadas, as buscas deverão continuar a ser feitas na Feema nos próximos dias.
A Feema virou um cartório, o Detran de tempos atrás diz uma fonte ligada à área ambiental, pedindo para não ser identificada, mas lembrando que nos últimos anos foram feitas várias denúncias isoladas contra a Feema de cobrança de licença ambiental.
Vários funcionários da Feema com cargos de chefia são citados nas conversas gravadas pela Polícia Federal, que apura a fraude. O empresário e assessor parlamentar do deputado estadual Domingos Brazão (PMDB) Renan de Macedo Leite, de 40 anos, o Bam-Bam, preso pelos federais, chega, num dos trechos, a se vangloriar de seu poder sobre o órgão ambiental. Dono de postos de gasolina e de uma distribuidora de combustíveis, ele afirma nas fitas que poderia conseguir qualquer coisa.
Eu mando na Feema teria dito em conversas com amigos que foram grampeadas.
Para instalar em Macaé um posto de gasolina com bomba de gás natural, Renan, segundo a PF, pagou cerca de R$ 10 mil pela licença aos fiscais da Feema. A propina foi considerada necessária por ele, nos diálogos gravados inclusive com políticos fluminenses, porque autoridades do município também seriam proprietárias de postos nos locais e resistiam à instalação por causa da concorrência.
Segundo a Polícia Federal, um dos esquemas de Renan envolvia o motorista de caminhão Sandro Almeida Domingues, de 30 anos. Funcionário da prefeitura de Duque de Caxias, mas cedido à Feema, ele se passava por fiscal do órgão, usando carteira falsa. Dessa maneira, ele comandaria uma rede de fiscais e de patrulheiros rodoviários que extorquiam empresários do setor de combustível. No entanto, na nota de ontem, a Feema assegura que Sandro não faz parte dos quadros da empresa e nunca foi cedido, como vem sendo divulgado.
Mas não é o que está sendo apurado pelos agentes federais. Uma das modalidades do grupo que seria chefiado por Sandro seria esperar a saída de caminhões com combustível da Refinaria de Manguinhos. Ele avisava aos patrulheiros quase sempre ligava para Claudio da Costa Narciso que retinham o caminhão.
Depois da chegada dos patrulheiros, Sandro aparecia e, juntamente com os patrulheiros, exigia propina para liberar os caminhões. Narciso também está preso.
A Feema e suas atribuições
A Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) foi instituída pelo decreto 39, de 24 de março de 1975. Subordinada à Secretaria estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (Semadur), é responsável, entre outras funções, pelo licenciamento de empresas e atividades potencialmente poluidoras. Entre elas portos, terminais, oleodutos, gasodutos, linhas de transmissão, aterros sanitários, barragens, unidades petroquímicas e grandes empreendimentos imobiliários e turísticos. O sistema de licenciamento de atividades poluidoras (Slap) prevê três tipos de licença: prévia (LP), de instalação (LI) e de Operação (LO).
Deputado vai pedir auditoria na Feema
O deputado estadual Carlos Minc (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alerj, pedirá aos ministérios públicos estadual e federal que façam uma auditoria nas concessões de licenças expedidas pela Feema nos últimos três anos. O parlamentar também pedirá que se faça uma auditoria no sistema da instituição, para verificar as possíveis falhas que permitam a prática de fraudes.
Além disso, Carlos Minc pedirá que todos os envolvidos nas fraudes cometidas na Feema respondam por crimes previstos na legislação ambiental.
Nós precisamos descontaminar esse órgão ambiental disse o presidente da comissão parlamentar.
O deputado petista acredita que existam ainda outros grupos dentro da Feema que podem estar envolvidos em outros esquemas.
É preciso fazer um pente fino na Feema disse o deputado Minc.
Opinião: Incêndio
A explosiva descoberta de uma quadrilha de sonegadores de impostos e adulteradores de combustíveis aumenta de octanagem com o aparecimento de uma conexão entre a gangue e a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.
Como A Alerj se tem notabilizado por freqüentar mais o noticiário de escândalos do que o político, era tudo o que os responsáveis pela Casa menos desejavam.
Pois, diante da imagem da Alerj, todas as suspeitas parecem possíveis.
O Globo, 11/11/2004, p. 16
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