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Expedição descobre tribos e faz mea-culpa da história

Folha de S. Paulo -SP
27 de mai de 2001

A matéria publicada sob o título supra-referido suscita um conjunto de considerações que nos sentimos compelidos a trazer à apreciação de Vossa Senhoria , na posição de antropólogos que têm estudado grupos locais Djapa – notadamente aqueles regionalmente designados pelo termo Kanamari.Longe de qualquer propósito de estabelecer polêmica em torno do tema, move-nos o intento de proceder a um exame ponderado dos fatos relatados, de modo a, com a necessária isenção, avaliar as posições dos agentes indígenas envolvidos.
Dita matéria começa assinalando que o objetivo da expedição promovida pela FUNAI e dirigida ao Vale do Javari, entre final de março e os inícios de maio do ano corrente, e da qual teriam participado 34 pessoas, não era [o] de atrair, integrar e catequisar [tribos indígenas isoladas] que continuam vivendo como no ano 1500, mas manter esses índios isolados do resto da sociedade [nacional], sem se preocupar com a descoberta de seu nome, de sua língua e de seus costumes. (...).
Com uma das tribos, as boas intenções da expedição não funcionaram. A FUNAI descobriu que nativos de uma das aldeias até então isoladas, a dos Tsohomdjapas, haviam sido transformados em servos de outros índios. No dia 7 de abril, os djapás foram visitados pela primeira vez por brancos.
Preliminarmente, cabe perguntar qual o sentido prático de uma expedição, que, a propósito de manter isolados da sociedade nacional povos indígenas supostamente sem contato, gasta milhões e alardeia sequer se preocupar com a descoberta de seus nomes, línguas e costumes! Realmente, não seria preciso tanto para descobrir o que aliás já foi descoberto, e, diga-se, há um bem considerável tempo: os Tsohom djapa (cuja área de ocupação recobre o Rio Jandiatuba, afluente do Itacoaí, e o Curuena) são conhecidos da literatura antropológica desde, pelo menos, 1981, como é possível constatar em rápida consulta ao Vol. 5, Javari, da obra Povos Indígenas no Brasil (São Paulo: CEDI, especialmente à p. 135), livro pelo qual foram responsáveis o Prof. Dr. Júlio César Melatti, da UNB (coordenador e redator do volume), e o Dr. Carlos Alberto Ricardo (coordenador geral da citada obra).
Por outro lado, o que significa, ademais, manter índios isolados da sociedade nacional, neste momento histórico? Só pode ser deixá-los à própria sorte, alvos fáceis da cobiça desenfreada de segmentos da sociedade regional, que, ao longo da história do Brasil, lhes têm transmitido doenças, invadido suas terras, abusado das mulheres, e suscitado, incentivando-a, a dependência dos produtos industrializados, mediante os quais, usados como presentes, os têm atraído. Ao contrário do que a reportagem afirma, os chamados índios isolados não continuam vivendo como viviam no ano 1500, já que, à sua volta, as condições ambientais e sociais se alteraram irreversivelmente, comprometendo sua reprodução, biológica e social. O contato, é importante lembrar, não ocorre apenas com a presença direta de populações humanas, já que os níveis bióticos e abióticos dos ecossistemas podem, por exemplo, ser afetados antes que tenha lugar, propriamente, o contato intercultural que envolva populações índias e não-índias.. É necessário muito mais do que retórica para proteger direitos originários constitucionalmente garantidos, como o são hoje os dos povos indígenas no Brasil; é necessário muito mais do que boas intenções – e a sabedoria popular diz que de boas intenções o inferno está cheio – para entender a complexidade sócio-econômica e política dos povos indígenas amazônicos.
A segunda afirmação constante da reportagem merece, igualmente, sérios reparos: os signatários deste arrazoado conhecem distintos grupos locais Djapa, estabelecidos no médio curso do rio Juruá e no alto curso do Jutaí desde 1984. Com eles, em várias e repetidas ocasiões, estes mesmos signatários buscaram compartilhar seus parcos recursos materiais, e, em troca, receberam a generosidade dos índios, quer através dos conhecimentos transmitidos sobre a sua cultura e organização social, quer sob a forma de porções de caça, de peixe e de produtos agrícolas. Nunca, e estamos sendo absolutamente genuínos, os surpreendemos em qualquer atitude anti-social; pelo contrário, entre eles, à semelhança do que ocorre entre os outros povos das terras baixas sul-americanas, a generosidade (ou a não-avareza) constitui um ideal a ser permanentemente atingido.
Foi, justamente, no grupo local Caranã, no alto curso do Jutaí, que encontramos vários Tukano (Tsohom Djapa, ou povo Tukano) em visita aos Kanamari (Wadjo Paranim Djapa, Hitsam Djapa, Kamodja Djapa, Kotsa Djapa, e outros ), estabelecidos, em 1984, num tapiri temporário, já que a FUNAI, também recém-chegada à área, induzira os Kanamari a deslocar-se para as proximidades da foz do rio. Isto sob não-cumpridas promessas de assegurar-lhes assistência. Observe-se que as relações amistosas entre esses dois grupos indígenas já haviam sido estabelecidas bem antes da nossa chegada. Afinal, todos os denominados Kanamari também são Djapa, pertencentes a uma mesma família lingüística -- que abarca vários dialetos falados pelos distintos grupos -- e um mesmo contexto cultural. Ë exatamente por essa razão que os Kanamari contataram os Tukano e com eles se entenderam.
Em 1984, os Tukano buscavam tratamento para gripe – as doenças do homem branco chegam muito antes da presença oficial desse último –, tendo aí permanecido os doentes, ao passo que o demais retornaram para sua aldeia de origem pouco antes da nossa chegada. Enquanto alí permaneceu, o grupo Tukano reciprocava com os Kanamari itens vegetais, produzidos por estes, fornecendo-lhes, por sua vez, provisão de carne de caça. Considerados exímios caçadores, eles aparentemente tinham reduzida atividade agrícola.
De fato, os dois grupos haviam trocado mulheres como esposas, e, embora a mulher kanamari houvesse retornado pouco tempo depois de celebrada a aliança, a mulher tukano, Wahmaram,, permanecia casada com o líder do grupo local Caranã, Aro. Indigenistas da então denominada Operação Padre Anchieta – Opan -- já moravam no alto Jutaí há alguns anos e conheciam o grupo Tukano, graças às suas visitas esporádicas aos grupos locais Djapa do alto Jutaí; isso desde que a fração Wadjo Paranim, e, especialmente o tuxaua Aro, se encarregou de contatá-los.
Assim, trocas de pessoas, e, ou, de bens mais ou menos eqüivalentes entre si, foram estabelecidas entre os dois grupos, não obstando que a fração Wadjo Paranim Djapa se apreendesse, desde então, como pacificadora e civilizadora dos Tsohom Djapa, aos quais, ciosamente, tentava inculcar, com relativo êxito, certas disposições do sistema de habitus ocidental. A não ser que a situação tenha mudado radicalmente -- o que não parece ser o caso – eles devem continuar mantendo um fluxo de bens, prestações e contraprestações, que não pode, necessária e automaticamente, ser entendido como exploração. Se o referido grupo local Tsohom Djapa permanece, socialmente organizado, em seu território, isso quer dizer que ele mantém sua autonomia de grupo diferenciado e não é explorado na acepção moderno-capitalista.
A exploração do homem pelo homem é característica do modo capitalista de produção, como o que prevalece na sociedade brasileira, e não é, pelo menos formulada dessa maneira, característica de uma sociedade indígena. Os próprios Kanamari foram explorados pelos seringalistas e fugiram para o rio Jutaí, a partir do médio curso do Juruá, no início do século XX, de modo a escapar às amarras da exploração do homem indígena pelo homem branco. Esta, exploração mesmo, exercida, sob diversas modalidades, sobre os corpos e as almas dos índios.
A troca de roupa velha, acusada pelo sertanista da Funai, constitui prática a que os Kanamari estiveram submetidos quando viviam sob o regime forçado dos seringais. Mas realizada entre índios, ela não implica, automaticamente, o estabelecimento de relações assimétricas, muito menos de relações caracterizadas pela exploração. Primeiro, porque a noção de dinheiro dos Kanamari não é a mesma que a dos funcionários da FUNAI, à qual eles parecem projetar sobre os índios, sem levar em conta a sua especificidade cultural. Segundo, porque roupa velha constitui um bem relevante para os Kanamari, como aliás, para outros índios, no Brasil, dentre os que não contam com qualquer assistência regular da FUNAI. Logo, doar roupa velha, nesse contexto, é sinal de autêntica reciprocidade.
Reconhecemos, contudo, que não dispomos de informações seguras sobre as condições atuais de troca entre os dois grupos, e de como, particularmente, esse fluxo é interpretado pelos próprios índios. Todavia, não temos dúvida em repelir a acusação de exploração, que, formulada a partir de visitas apressadas, em um contexto de observação absolutamente atípico – formado por visitantes curiosos, não-índios e insuficientemente informados --- não pode deixar de ser considerada leviana. Divulgada como o foi, em caderno especial de um jornal prestigioso e de circulação nacional, a reportagem atenta, poderosamente, contra a imagem dos vários grupos Djapa, e, mais ainda, contra a imagem dos povos indígenas amazônicos. Adicionalmente, ela poderá servir para reforçar a divisão, classificatória, notória e deletéria, entre índios desconhecidos e não-contaminados e índios contatados e em via de serem corrompidos pela civilização.
Disso tudo resulta, por fim, uma situação insólita: o único desconhecimento, de fato, a ser considerado, é o da realidade sócio-cultural dos povos indígenas amazônicos, distorcida por uma tomada de posição precipitada, que não esconde um certo gosto pelo sensacionalismo e o exótico. De todo modo, a responsabilidade final recai sobre a FUNAI. Não é possível silenciar, portanto, ante a desfaçatez de um órgão -- cujo orçamento é sabidamente pequeno -- que promove uma expedição dispendiosa, para, ao fim e ao cabo, divulgar, negativamente, a imagem daqueles que, por dever constitucional, lhe cabe assistir!

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