VOLTAR

EUA acordam para o clima

CB, Mundo, p. 19
16 de fev de 2007

EUA acordam para o clima
Especialista da ONU diz que o Brasil é exemplo e não acredita em desertificação da Amazônia

Entrevista: Rajendra Kumar Pachauri

Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio

Ambientalistas comemoram hoje os dois anos de entrada em vigor do Protocolo de Kyoto - tratado que prevê a redução até 2012, numa média de 5%, das emissões de gases causadores do aquecimento global. A meta imposta às nações industrializadas começou a valer em 2005, depois da adesão da Rússia, mesmo sem a ratificação por parte dos Estados Unidos. Agora, porém, a sociedade norte-americana começa a despertar para o tema. É o que pensa Rajendra Kumar Pachauri, o indiano de 66 anos que comandou 2,5 mil cientistas nas discussões e na elaboração do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) - um órgão vinculado às Nações Unidas (ONU).
O documento do IPCC divulgado neste mês confirma que as mudanças climáticas observadas nos últimos 50 anos são fruto da atividade humana. Para mitigar os efeitos dessas alterações, sugere Pachauri, é preciso "priorizar o uso de energias eficientes, aplicar a energia renovável no setor de transportes, nas indústrias ou mesmo nas residências". Nesse sentido, o indiano autor de 21 livros e Ph.D. em Economia e Engenharia Industrial lança elogios ao Brasil. Destaca o pioneirismo brasileiro na produção de etanol, mas exorta o país a preservar a Amazônia, e dá uma boa notícia: ele não acredita nas previsões de desertificação da floresta. Famoso ao apoiar um boicote à empresa petrolífera ExxonMobil, numa estratégia de pôr pressão financeira sobre os EUA, Pachauri conversou por telefone com o Correio.

O mundo se encontra numa encruzilhada ambiental? Nosso futuro está definitivamente em risco?

Certamente, nossa avaliação sobre mudanças climáticas nos fornece dados mais sérios do que a ciência supunha. Sob esse ponto de vista, acredito que a humanidade tem de fazer algumas escolhas. Temos de estabilizar a concentração de gases de efeito estufa na nossa atmosfera. Se não o fizermos, os impactos do aquecimento global serão bem sérios.

O governo dos Estados Unidos insiste em não ratificar o Protocolo de Kyoto. Qual é a responsabilidade do presidente George W.Bush no processo de aquecimento global?

Acredito que não apenas um indivíduo (Bush), mas toda a sociedade, tem de tomar certas ações. Nos Estados Unidos, felizmente há várias pessoas conscientes que começam a dar alguns passos para reduzir ou limitar a emissão de gases poluentes. Isso está ocorrendo em alguns estados - como a Califórnia -, em algumas companhias e em algumas cidades. Universidades norte-americanas tomaram a iniciativa de cortar a emissão de dióxido de carbono na atmosfera, por exemplo. Então, creio que algo está acontecendo nos Estados Unidos, apesar de o país insistir em não ratificar o Protocolo de Kyoto. Mas os americanos agem na direção correta. Espero que a Casa Branca esteja engajada em encontrar uma solução para as mudanças climáticas.

O Congresso norte-americano criará projetos de lei inspirados no relatório do IPCC.Essa pode ser uma saída para forçar uma mudança na mentalidade de Bush?

Eu duvido que os Estados Unidos ratifiquem o Protocolo de Kyoto neste momento. Para o Protocolo de Kyoto ser ratificado (pelos norte-americanos), seria necessário uma cúpula. E os Estados Unidos não participariam dessa conferência. Eu ficaria feliz se o fizessem.

O Brasil vem investindo muito em biocombustíveis, como o etanol. Também possui projetos para conter o desmatamento na Floresta Amazônica. Como o senhor analisa o papel internacional do país em relação ao aquecimento global?

Com certeza, o Brasil pode e está produzindo combustíveis eficientes à base de carbono baixo. Vocês têm várias usinas hidrelétricas e vêm fabricando etanol. Mas acho que também é importante o Brasil se certificar de que é preciso preservar a Floresta Amazônica. Eu sei que isso não é algo fácil. Pelo fato de vocês terem a riqueza da floresta tropical, creio que ser capaz de defender a Amazônia deveria se tornar um orgulho máximo para os brasileiros. Isso porque o mundo teria uma série de benefícios. Entre os países em desenvolvimento, o Brasil tem sido um líder ambiental. Tenho acompanhado de perto o programa de produção de etanol, montado há algumas décadas.
Estou feliz pelo fato de o uso do petróleo ter diminuído. Quero cumprimentar o governo e o povo brasileiro por serem bastante conscientes dos problemas ambientais. E espero que outros países em desenvolvimento sigam esse exemplo.

Existe o risco de uma savanização ou desertificação da Floresta Amazônica?

Não acredito que algo tão drástico e radical possa ocorrer, mas certamente a qualidade da Floresta Amazônica será afetada. A própria incapacidade do homem de proteger a floresta já pode provocar danos a esse ecossistema.

O aquecimento global pode produzir uma catástrofe e iniciar uma onda de refugiados ambientais e uma recessão econômica?

São possibilidades. É muito difícil assegurar o que realmente ocorrerá. É possível que o mundo assista a um grande aumento do nível do mar e, em algumas regiões, a escassez de água deflagre uma crise. O derretimento da neve pode produzir um colapso ambiental. Como conseqüência, a Terra pode sofrer com focos de epidemia. É impossível prever quando isso ocorreria.

Ambientalistas céticos acusam o IPCC de adotar uma posição bastante alarmista. O que o senhor lhes diria?

A maior parte dos indivíduos racionais e pensadores estão convencidos de que a ação do homem afeta a Terra. Mas sempre haverá questionadores e céticos. Que eles façam o que acreditam.

As nações subdesenvolvidas, especialmente na África,estão pagando o preço pela omissão dos países ricos?

A verdade? Sim! Os países mais pobres vão sofrer mais. Tudo porque a maior parte da emissão de gases causadores do efeito estufa vem de nações industrializadas. Com certeza, os ricos detêm a responsabilidade. Mas eu diria que ela também precisa ser compartilhada por todos.

CB, 16/02/2007, Mundo, p. 19

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.