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Embora esperada, simulação de guerra na Amazônia foi usada ideologicamente, avaliam especialistas

O Globo -https://oglobo.globo.com/mundo
15 de out de 2020

Embora esperada, simulação de guerra na Amazônia foi usada ideologicamente, avaliam especialistas
Resultado do acúmulo de capacidades que o Exército vinha construindo na região nas últimas décadas, operação coincidiu com nova estratégia de defesa, que prevê conflitos regionais

Marina Gonçalves e André Duchiade

RIO - Sem precedentes em gastos, coordenação e tamanho, como revelou o GLOBO na quarta-feira, a simulação de guerra realizada em setembro na Amazônia faz parte de um processo natural de investimentos nas Forças Armadas, resultado do acúmulo de capacidades que o Exército vinha construindo na região ao longo das últimas décadas, avaliam especialistas em questões de defesa e segurança. Apesar dos elogios aos exercícios, no entanto, eles alertam para sua utilização com o objetivo de reforçar a retórica ideológica do governo de Jair Bolsonaro.

Como parte dos exercícios, os militares criaram um campo de guerra na qual era preciso expulsar os invasores do "país vermelho". Embora a simulação tenha ocorrido num momento de animosidade em relação à vizinha Venezuela, os analistas não acreditam que a operação tenha sido uma provocação ao governo de Nicolás Maduro.

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Para Danielle Ayres, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (Abed), é possível que se trate da "manipulação de uma operação para fins que vão além do treinamento de forças".

- Desde o governo de Fernando Henrique Cardoso caminhamos no sentido de reforçar o papel das Forças Armadas para proteger nossas fronteiras. Agora, no entanto, vemos um governo que dedica muito tempo e força a uma retórica militarizante, de valorar as Forças Armadas com potencial de manipulação política - afirma Ayres. - É uma boa operação, mas que está sendo utilizada com fins políticos.

Rafael Duarte Villa, professor de Relações Internacionais da USP, lembra que a nova política de Defesa, divulgada em julho pelo governo, passou a considerar possibilidades de conflito no entorno sul-americano do Brasil. Ele ressalta, porém, que em 2019, quando se falava de uma possível intervenção militar dos EUA na Venezuela, "os militares puseram panos quentes na posição intervencionista do chanceler Ernesto Araújo".

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- Os exercícios mostram de alguma maneira que o Exército está se preparando para concretizar um cenário de guerra. Independentemente de quem seja o "país vermelho", o Brasil está começando a usar a nova doutrina para se preparar de maneira dissuasória para um cenário de conflito - afirma.

Erico Duarte, professor de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também aponta para uma maior preocupação do atual governo em demonstrar sua capacidade de defender a Amazônia, diante da nova política regional.

- O Brasil já tinha feito grandes operações na fronteira, mas com menor demanda logística. Agora, há uma nova musculatura militar, mas também uma preocupação de ordem mais política. Nos últimos documentos da Defesa, vemos essa preocupação com o ambiente regional, que não está mais tão seguro, com possibilidades de conflitos entre Colômbia e Venezuela, por exemplo, e até envolvendo outras potências, como os Estados Unidos.

Outro ponto importante apontado pelos especialistas diz respeito à visita do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, à região justamente durante a operação, no dia 18 de setembro. Após a publicação da reportagem, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou tratar-se de uma "coincidência".

Enquanto alguns dos analistas ponderam que uma operação de tal magnitude não poderia ter sido planejada para casar com a visita, outros acham que é ingenuidade achar que não houve essa preocupação e falam em "oportunismo".

- Se houve ou não coincidência, é lamentável que tenha coincidido. Houve falta de coordenação e organização do governo. Seria preciso investigar porque o Ministério de Relações Exteriores autorizou a visita de Pompeo naquela data e dentro daquela operação - afirma Adriana Marques, professora do curso de Defesa e Gestão Estratégica Internacional da UFRJ. - Somam-se a isso todos os problemas causados pelo ministro do Meio Ambiente na Amazônia, com o desmonte de órgãos governamentais. Ou seja, o atual governo reativou uma preocupação com a soberania da Amazônia como resposta a um problema que ele mesmo criou.

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