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É uma luta que sempre foi pacífica, diz liderança indígena sobre acampamento que ocupará Brasília nesta semana

Jornal GGN https://jornalggn.com.br
21 de abr de 2019

Cerca de 10 mil índios de comunidades de todo o Brasil são aguardados na 15ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) deste ano, que será realizado pela primeira vez sob um cenário de tensão com o governo federal, desde sua primeira execução, em 2004.

A Articulação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), organizadora do evento, confirmou no início do mês as datas em que o acampamento acontecerá em Brasília: entre os dias 24 e 26 de abril. Os grupos começaram a desembarcar na capital na noite do dia 23.

Preocupado com o encontro, o governo federal autorizou, por assinatura do ministro Sérgio Moro, a Força Nacional a realizar a segurança da Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes por 33 dias, período em que coincide com o evento indígena e com o 1o de maia, quando várias organizações sindicais realizarão protestos contra o desmonte de leis trabalhistas e da previdência.

A marcha do Acampamento Terra Livre, que já virou tradição e acontece todos os anos no mês de abril, teve origem na reivindicação pela demarcação de terras indígenas e garantia de direitos à população. Agora, no governo Bolsonaro, o grupo inclui protestos contra a transferência da Funai para o recém criado Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado por Damares Alves, e a mudança da atribuição de demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura.

"[Desde a mudança] seguiu-se uma série de ataques e invasões articuladas contra as terras indígenas, perseguição e expressão de racismo e intolerância aos nossos povos e nossas vidas", pontua a Apib em nota.

Os indígenas se mobilizam também contra o desmonte da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI). No final de março, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, decidiu transferir para estados e municípios o atendimento à saúde da população indígena.

Ao se manifestar sobre o Acampamento Terra Livre, o presidente Jair Bolsonaro comentou durante uma live nas redes sociais que o evento anual será um "encontrão" pago com o dinheiro de contribuintes.

"Vai ter um encontrão de índios agora, semana que vem. Tá sendo previsto (sic) 10 mil índios aqui em Brasília. E quem vai pagar a conta dos 10 mil índios que vêm para cá? É você [contribuinte]", atacou Bolsonaro. "Queremos o melhor para o índio brasileiro, que é tão ser humano quanto qualquer um de nós que está na sua frente aqui. Mas essa farra vai deixar de existir no nosso governo", completou na tentativa de amenizar o discurso.

Em resposta à fala do presidente, a coordenadora-executiva da Apib, Sonia Guajajara, demonstrou a falta de conhecimento de Bolsonaro sobre a origem dos recursos captados para a realização da marcha anual.

"Nós nunca tivemos financiamento com dinheiro público ou apoio de governo federal. Em todos os anos, fazemos uma campanha de arrecadação para promover o encontro e instalar o acampamento", disse à Folha de S.Paulo.

Sobre o uso da Força Nacional na Esplanada, Guajajara destacou que é "a primeira vez que ocorre comportamento antecipado de tentar impedir a chegada das delegações. É uma forma clara de impedir uma manifestação", ponderou.

Em entrevista à Rádio Brasil Atual, o líder indígena Lindomar Terena, integrante da Apib, avaliou que a convocação da Força Nacional de Segurança demonstra incapacidade do governo de conviver com a democracia e respeito aos povos indígenas.

"É um contexto diferente, em que o Estado se posiciona declaradamente contra os direitos dos povos indígenas. É evidente que não vamos sair da nossa região para afrontar alguém, vamos lá defender o nosso direito, o futuro das nossas gerações. Agora, uma vez que o Estado decreta por 33 dias o uso da Força Nacional, dizem eles que é para cuidar do patrimônio público, quando na verdade demonstra a incapacidade de diálogo no sentido de cumprir o que diz a Constituição Federal brasileira", afirmou terena pontuando que os protestos sempre ocorreram de forma pacífica.

"Não vamos confrontar, mas não vamos recuar. Não é nesse governo que os povos indígenas vão abaixar a cabeça e dizer amém para eles", registrou o líder.

Lindomar pontuou ainda que o evento fará defesa do meio-ambiente e da natureza, além das reivindicações que a população indígena tradicionalmente cobra do governo, como a demarcação e segurança de seus territórios.

"Tudo isso dentro da lei. É uma luta que sempre foi pacífica, sempre foi buscando o que está escrito na Constituição Federal brasileira", completa o integrante do Conselho do Povo Terena.

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