OESP, Economia, p. B2
Autor: SARDENBERG, Carlos Alberto
04 de Jun de 2007
É a infra-estrutura
Carlos Alberto Sardenberg
Fala-se muito nos problemas que a infra-estrutura precária causa à atividade econômica. Eis um exemplo concreto: a fábrica da Fiat em Betim, Minas Gerais, funciona no sistema "just in time". As peças chegam à fábrica no momento em que serão utilizadas na linha de montagem. Com isso, eliminam-se os estoques, corta-se o custo, ganha-se eficiência.
Mas isso exige que os fornecedores façam entregas todos os dias e, não raro, mais de uma por dia. E se as vias de acesso às fábricas congestionam?
O presidente da Fiat da América Latina, o brasileiro Cledorvino Belini, está preocupado com isso, porque tudo lá está funcionando no limite. A fábrica de Betim trabalha em três turnos - 24 horas em atividade - e não tem mais como ampliar significativamente a produção. Só com instalações ou fábricas novas. Mas, e a infra-estrutura? As rodovias ali darão conta?
O fato é que a Fiat América Latina resolveu reativar uma fábrica na Argentina, em Córdoba, com investimentos de US$ 60 milhões e criação de mil empregos diretos. Vai produzir lá o Siena.
Na Argentina, executivos da Fiat informaram que o Siena não seria mais fabricado no Brasil. Belini disse que a produção será dividida entre os dois países.
Por que a Fiat não optou por construir uma fábrica nova no Brasil, j á que o mercado interno está em forte expansão? Belini disse que a fábrica argentina está pronta e ociosa, pois havia sido desativada desde a última grande crise do país. Era mais fácil e mais barato reativá-la do que fazer uma nova no Brasil. Além disso, o Siena argentino será exportado ao dólar de lá, que é caro. Tem lógica, mas o mercado principal é aqui. Se a infra-estrutura fosse mais adequada no Brasil, poderia ser mais eficaz ampliar as instalações de Betim ou construir ali por perto.
Além de estradas, Belini manifestou preocupação com o fornecimento de energia a partir de 2010 - assim retomando o tema lançado pelo presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, na semana passada.
Agnelli disse que a Vale estava abandonando ou adiando projetos de maturação, prevista a partir de 2013, porque não havia garantia de fornecimento de energia. Foi a primeira vez que o executivo colocou a questão em termos tão diretos.
Depois, é verdade, executivos da própria Vale e de outras empresas andaram amenizando a tese. Disseram que estavam suspensos apenas os investimentos que consomem muita energia, como a prgdução de alumínio.
O alerta de Agnelli tinha objetivo certo: as usinas do Rio Madeira, cujo licenciamento ambiental está encrencado no Ibama. Justamente na semana passada terminava o prazo, digamos, informal dado pela ministra Dilma Rousseff para que o lhama resolvesse a licença. A ministra é a comandante do PAC e as usinas formam o principal conjunto de obras na área energética.
Quando falou do assunto, Agnelli deixou escapar: "Nem o presidente Lula consegue licenciar o Madeira." Há um evidente equívoco aí: o licenciamento não pode ser atribuição do presidente da República, deve caber a uma agência independente, no caso, o Ibama.
Mas acontece que o governo está dividido entre ambientalistas e desenvolvimentistas. Estes entendem que os critérios do Ibama estão equivocados. Por isso, fazem pressão, que levou inclusive a demissões e mudanças no órgão do Ministério do Meio Ambiente. Eis, portanto, o sentido do comentário de Roger Agnelli: nem fortes pressões internas conseguem destravar as licenças.
E o fato é que passou a semana e as licenças não saíram, mantendo de pé as dúvidas quanto ao fornecimento de energia.
Cledorvino Belini, falando com este articulista pela Rádio CBN, na sexta-feira, colocou o ponto de dúvida mais perto, 2010, mas também reduziu o peso da preocupação. Diante da pergunta "a Fiat brasileira, no seu planejamento de médio prazo, está incluindo a escassez de energia?% respondeu que ainda não. Ainda confia na garantia do governo federal.
Essa garantia, porém, se baseia em projetos que ainda estão no ar - como as usinas do Madeira. Além do problema da licença, o governo conta construir as usinas em prazo recorde, quando a tradição no setor é de demorar bem mais que o previsto. O governo diz que tem um plano B - usinas térmicas a gás ou carvão, usina nuclear e outras fontes.
Mas acontece que muitos fatores do plano B também estão no ar. Não há garantia de fornecimento de gás e o carvão vai suscitar questionamento ambiental, idem para a usina nuclear.
Além disso, todo o sistema de licenciamento ambiental está travado. Por exemplo: mesmo que o Ibama conceda a licença prévia das usinas do Madeira, é praticamente certo que o Ministério Público vai tentar embargar tudo na Justiça, com boa dose de chance.
Resumo da ópera: há razões substanciais para a dúvida em relação ao fornecimento de energia. Sobretudo porque a energia disponível hoje vem de projetos antigos e da sorte: as chuvas têm sido generosas e encheram os reservatórios das hidrelétricas.
Com isso, o País vai até 2010 sem problemas. Para depois disso, com a economia crescendo, vai precisar de oferta adicional, cuja garantia é precária.
Na verdade, o governo Lula, sob o comando da ministra Dilma, desmontou o modelo elétrico herdado de FHC e tratou de construir outro. Demorou, demorou e não está funcionando. Os preços futuros de energia já estão subindo - sinal de escassez - e os novos projetos não deslancharam.
Carlos Alberto Sardenberg é jornalista. Honre page: www.sardenberg.com.br
OESP, 04/06/2007, Economia, p. B2
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