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"Devemos pensar numa Igreja indígena", diz cardeal Hummes

DW https://www.dw.com/
Autor: Christoph Strack
20 de set de 2018

O cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo, apresentou nesta quarta-feira (19/09), em Berlim, um panorama dramático sobre os direitos humanos dos povos indígenas na região amazônica. Hummes, que preside a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), afirmou à DW que as comunidades indígenas estão em situação de pobreza e abandono.

"Eles são pobres materialmente, mas também lhes falta possibilidade de educação, saúde e defesa de direitos. Mas a questão mais decisiva de suas condições é de serem explorados e novamente colonizados", afirmou. "Atualmente, eles não são mais protagonistas e sujeitos de sua história. A civilização branca quer fazê-los projetos dos brancos."

Hummes defendeu também o debate sobre um clero indígena. "Devemos também pensar numa igreja indígena que nasce de dentro da própria vida, história e identidade dos indígenas. É uma igreja com rosto indígena, não somente um rosto amazônico, mas também tipicamente indígena."

DW: Como o senhor descreve a situação dos povos indígenas na região amazônica?

Cardeal Cláudio Hummes: Em visita ao Peru no início de 2018, o papa Francisco queria ter um encontro com os indígenas. Ele dizia que os povos originais da região amazônica estão hoje mais ameaçados do que nunca. Eu visitei quase toda a Floresta Amazônica no país, todas as 38 dioceses, e encontrei muitas comunidades indígenas e de outras pessoas fragilizadas socialmente, como ribeirinhos, e que estão em situação de pobreza, abandono e descarte. Por isso, é verdade o que o papa disse: se as coisas continuarem como estão, toda essa gente não terá, de pouco a pouco, nenhuma condição de sobrevivência, e a floresta também será totalmente destruída.

Como é a pobreza nessa região?

Eles são pobres materialmente, mas também os falta possibilidade de educação, saúde e defesa de direitos. Mas a questão mais decisiva de suas condições é de serem explorados e novamente colonizados. Há uma questão de querer, de alguma forma, que eles entrem e façam parte da nossa civilização, dos brancos, e percam toda sua história, identidade, sonhos, aspirações e direitos de serem, eles mesmos, sujeitos de sua própria história. E essa é a pobreza fundamental da qual padecem. Atualmente, eles não são mais protagonistas e sujeitos de sua história. A civilização branca quer fazê-los projetos dos brancos.

O quão culpada é a questão econômica?

A questão econômica entra exatamente nesse contexto de colonização. Há grandes projetos dos governos locais e de empresas que estão entrando cada vez mais naquele território [indígena]. Existem os interesses do sistema de fazer o máximo de lucro com os menores custos econômicos possíveis, não importando o quão grandes são os custos humanos e ambientais que isso produza. O que interessa é se ali há lucro fácil e rápido. Então, a mineração, os grandes projetos de agricultura e de energia estão, na verdade, dentro da mentalidade e lógica do sistema mundial dominante, no qual o lucro é o mais importante, e não as pessoas. O lucro é mais importante, não importa a que custo. E não interessa muito se esses grandes projetos degradam o meio ambiente: não tem muita importância se há contaminação das águas, do ar, da terra pelos agrotóxicos e mudanças climáticas, por exemplo por meio da deflorestação.

Isso é culpa do governo brasileiro, que não toma medidas contra essa situação?

De todas as empresas, sejam empreendimentos do governo, sejam empresas nacionais e multinacionais. Nós nos perguntamos: por que empresas internacionais, que não têm a liberdade de degradar e fazer lucro a qualquer custo em seus próprios países, fazem isso no Brasil? E nós nos perguntamos isso porque todos esses países, e o Brasil inclusive, assinaram o Acordo de Paris, no qual há toda uma exigência de tomar medidas imediatas urgentes para reverter essa crise. Mas, no entanto, pouco se faz realmente nesses países.

Está planejado para ser realizado no Vaticano um sínodo amazônico no outono europeu de 2019. Quando falamos sobre o tema na Alemanha, discute-se principalmente a falta de padres em áreas pouco povoadas. O que você espera do sínodo?

É claro que um sínodo não é uma reunião de uma ONG: ele tem, por fundamento, uma finalidade religiosa. Devemos nos perguntar: qual igreja queremos na região amazônica, uma região com esses problemas, clamores e grandes violações de direitos humanos? É uma igreja verdadeiramente encarnada, que está junta das pessoas e é positivamente a favor dos direitos dos povos indígenas e da preservação da natureza? É esse tipo de igreja que nós pensamos no sínodo. Pensa-se sempre a partir de uma igreja missionária, enculturada e misericordiosa que está junto das pessoas. E, dentro desse contexto, entra a questão dos ministérios, porque a igreja tem dificuldades de estar próxima [da população] porque faltam ministérios. Então, há a pergunta: existem outras possibilidades ou não de termos um clero, por exemplo, indígena? E isso inclui também, naturalmente, uma igreja que cuide da preservação da natureza, como a [encíclica do papa Francisco] Laudato si nos mostrou muito bem.

Deveria haver um outro tipo de presença eclesiástica?

Estará presente também a discussão sobre os ministérios ordenados e que novas formas seriam importantes para ir ao encontro daquilo que é a missão da igreja. Mas eu repito: esse não será o foco principal. Tudo indica que está muito difícil que a igreja cumpra sua missão com as estruturas que tem atualmente. Então, como encontrar novos caminhos também para essa questão da presença de ministros ordenados junto às pessoas e comunidades indígenas? Assim, ter uma igreja que não seja apenas uma igreja indigenista, quer dizer, que defende os direitos dos índios. Mas devemos também pensar numa igreja indígena que nasce de dentro da própria vida, história e identidade dos indígenas. É uma igreja com rosto indígena, não somente um rosto amazônico, mas também tipicamente indígena. Isso significa enculturação, encarnação profunda dentro da história, cultura e espiritualidade dos indígenas. Não seria também uma igreja separada, nova. Ela estaria em comunhão com a igreja universal. Então se deverá entender a própria Igreja Católica, neste caso, como uma igreja capaz de aceitar diversidades e diferenças.

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