O Globo, Sociedade, p. 28
27 de Mai de 2015
Devastação foi 24% menor na Mata Atlântica
Derrubada da floresta está concentrada em áreas de fronteira agrícola, diz estudo
Renato Grandelle
RIO - Eliseu Martins poderia passar despercebida no mapa do país. Encravada no Sudoeste do Piauí, a cidade de menos de 4 mil habitantes surgiu de um povoado há menos de 60 anos e passa o ano inteiro sob um clima quente e seco. Seu anonimato foi por terra nesta quarta-feira, durante a divulgação do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. O estudo traz boas notícias: o desmatamento do bioma recuou em 24% entre 2013 e 2014, em relação ao período anterior (2012 a 2013). Rio e São Paulo, onde estão as duas maiores capitais do país, apresentam resultados exemplares, com índices de destruição próximos a zero. Enquanto isso, o município piauiense, sozinho, responde por 23% de toda a devastação observada nos 17 estados com estes ecossistemas.
No último biênio, o bioma perdeu 18,2 mil hectares de remanescentes florestais. Em Eliseu Martins, foram 4,2 mil hectares. No levantamento anterior, dois de seus vizinhos, Manoel Emídio e Alvorada do Gurgueia, despontaram entre os campeões da destruição da mata.
Autora do Atlas, a Fundação SOS Mata Atlântica destaca que a produção de grãos é o principal vilão do bioma em grandes regiões de Piauí e da Bahia, os estados que mais preocupam os ambientalistas.
- A área desmatada corresponde à transição entre o bioma e o Cerrado, onde ocorre a expansão da soja - destaca Marcia Hirota, diretora da SOS Mata Alântica. - Na Bahia, vemos planos de desenvolvimento e expansão da soja que não estão aliados à conservação da natureza.
A fundação cogita encaminhar ao Ministério Público da Bahia e do Piauí pedidos de moratória para a concessão de licenças a empreendimentos que envolvam a exploração da vegetação nativa.
- Sabemos que a expansão agrícola é um importante ativo econômico para o país, mas não podemos continuar convivendo com um modelo de desenvolvimento às custas da floresta nativa - condena Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica.
A iniciativa já foi aplicada com sucesso em Minas Gerais, que, por cinco anos, liderou o ranking do desmatamento. Em 2013, a pedido da fundação, o governo estadual deixou de autorizar a supressão de vegetação nativa da Mata Atlântica. Apesar da posição de segundo estado que mais devastou o bioma no último biênio, Minas reduziu em 34% a derrubada de áreas verdes, comparado ao período anterior.
- Em Minas Gerais lidamos com uma forte pressão ligada à indústria de carvão e à produção do aço - destaca Flávio Jorge Ponzoni, coordenador técnico do Atlas e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. - O mapa trouxe boas notícias. Conseguimos conter o desmatamento em algumas áreas e, em outras, ele foi estabilizado. Mas ainda estamos longe de dizer que está tudo bem.
Marcia ressalta como a preservação do bioma avançou desde o início dos levantamentos, em 1985.
- Naquela época, eram desmatados mais de 100 mil hectares por ano. Agora, são pouco mais de 18 mil. É uma quantia significativamente menor - pondera. - Na Região Sul, por exemplo, havia uma grande derrubada de araucárias para exploração madeireira. Estes focos já estão sendo contidos.
São Paulo registrou, no último biênio, 61 hectares de mata devastada - uma queda de 34% em relação ao que foi medido entre 2012 e 2013. O Rio perdeu 12 hectares, um a mais do que na edição anterior do Atlas. Além deles, outros sete estados têm índice de desflorestamento abaixo de 100 hectares. Estão, segundo Marcia, a caminho do desmatamento zero.
REVITALIZAÇÃO DA MATA
O alcance destas metas abre outra discussão: a necessidade de se recuperar as áreas já desmatadas.
- Podemos trabalhar na recomposição de florestas e na recuperação da mata ciliar que protege as nascentes de rios. Este é um programa fundamental em Rio e São Paulo, que sofreram recentemente com a crise hídrica - lembra. - Também precisamos discutir a criação de corredores ecológicos, que protegerão a fauna.
O Atlas pondera que Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, ex-campeões do ranking do desmatamento, diminuíram a derrubada da mata, mas ainda merecem atenção.
A fundação promoveu este mês um encontro de secretários estaduais de meio ambiente para discutir como a floresta em pé pode promover diversas atividades econômicas e minimizar desastres naturais.
- Os 12,5% da Mata Atlântica remanescentes, com sua paisagem e a beleza cênica, são um patrimônio natural com potencial turístico invejável. Prestam ainda serviços ambientais, como a conservação das águas que abastecem as cidades e a estabilidade dos solos essenciais à agricultura.
No início do mês, a fundação apresentou um levantamento de precisão inédita sobre a situação da Mata Atlântica no Rio. As imagens geradas naquele estudo detectavam áreas preservadas superiores a um hectare - os mapas tradicionais, como o divulgado hoje pelo Atlas, só enxergam regiões com mais de três hectares.
- Aquele levantamento era referente à fiscalização da Mata Atlântica, não explorava dados sobre o desmatamento. Mas é uma abordagem do que pode ser feito com o bioma, quando ele está mais seguro - revela Ponzoni.
O Globo, 27/05/2015, Sociedade, p. 28
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