OESP, Economia, p. B7
Autor: ALMEIDA, Luiz Augusto Pereira de
20 de Jul de 2017
Despoluição dos oceanos
Caso desafio não seja enfrentado com eficácia, movimento global de limpeza dos mares vai morrer na praia
Luiz Augusto Pereira de Almeida *, O Estado de S.Paulo
A Conferência da ONU sobre os oceanos, em Nova York, na Semana do Meio Ambiente, em junho, suscita reflexão sobre as causas da poluição e da grande concentração de plásticos e outros materiais nas águas, apontadas no evento. A questão crucial sob o ponto de vista urbanístico se refere às políticas públicas para o uso e a ocupação do solo nas orlas marítimas, em especial nos países em desenvolvimento. Caso o desafio não seja enfrentado com eficácia pelos governos, o movimento global pela limpeza dos mares morrerá na praia, literalmente.
É notório que a ocupação urbana das nações se dá principalmente em suas regiões litorâneas. No Brasil, 85% dos habitantes vivem ao longo dos 8,5 mil quilômetros de costas. Porém, esse adensamento populacional não é acompanhado dos necessários investimentos em drenagem, saneamento básico e gestão de resíduos. Tal descompasso é determinante no incremento da poluição.
O Instituto Trata Brasil alerta há tempos sobre as consequências da precariedade do saneamento. Os números falam por si só: somente 42,6% dos esgotos são tratados e mais de 100 milhões de pessoas não têm acesso ao serviço. As capitais brasileiras lançaram 1,2 bilhão de metros cúbicos de esgotos na natureza em 2013. O problema repete-se todo ano. Os investimentos são insuficientes.
O rápido e gigantesco crescimento urbano do País nos últimos 50 anos (cerca de 90% dos habitantes vivem nas cidades), sem as devidas contrapartidas, pode ser apontado como o grande responsável pela situação precária do saneamento. As cidades cresceram, na maioria das vezes, sem planejamento urbano, optando pelo espalhamento em vez do adensamento, com duplo efeito negativo: oneraram-se muito os custos per capita em saneamento, comprometendo a capacidade de investimentos dos governos nesse setor; e provocaram imensos danos ambientais. Resultado: estima-se que o custo da universalização do saneamento no País seja de R$ 313,2 bilhões, montante inviável ante a crise fiscal!
A inexistência de saneamento é também algoz da saúde e educação. Sem condições mínimas de habitabilidade e higiene, diminui-se a probabilidade de construirmos uma Nação habitada por pessoas conscientes de seu protagonismo na conservação ambiental. É no conforto e segurança do lar que se constrói a família e a dignidade dos indivíduos. Se os cidadãos não cuidam e se orgulham de seu entorno, sua casa e sua escola, de nada adianta pedir-lhes que preservem o Planeta.
Nunca foi tão importante priorizarmos o crescimento com planejamento urbano, principalmente no litoral. Nesse sentido, já existem boas iniciativas, como a inteligente lei do Zoneamento Ecológico-Econômico da Baixada Santista, que classificou os nove municípios dessa Região Metropolitana por tipos de ocupação. Foram anos de análise dos órgãos públicos competentes e sociedade civil, das particularidades urbano-ambientais de cada área, para se concluir quem, onde e o que se pode fazer.
Ao redor do mundo, multiplicam-se bons exemplos de ocupações planejadas, inúmeras no litoral, que certamente não se incluem entre os fatores de poluição. O Brasil tem milhares de quilômetros de costa, mas não consegue tirar proveito dessa riqueza natural, pois projetos de desenvolvimento urbano sustentáveis são dificultados e até impedidos, sob diversas alegações, principalmente de cunho ambiental. Porém o que polui de fato é a crescente ocupação irracional e desordenada do solo.
As nações desenvolvidas já têm cidades planejadas, com meio ambiente equilibrado, segurança, educação, saúde, transporte e riqueza. É hora de nos juntarmos a elas, incentivando e multiplicando iniciativas de projetos e empreendimentos sustentáveis, sob o risco de legarmos às novas gerações um país carente de infraestrutura, ecologicamente desequilibrado, pobre, inseguro e poluidor dos oceanos. Ainda é tempo de reconstruir o futuro.
* É DIRETOR DA FIABCI/BRASIL E DIRETOR DE MARKETING DA SOBLOCO CONSTRUTORA
OESP, 20/07/2017, Economia, p. B7
http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,despoluicao-dos-oceanos,7…
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