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Desmatamentos e queimadas crescem na Amazônia boliviana

O Eco - www.oeco.com.br
04 de dez de 2012

Desmatamentos e queimadas crescem na Amazônia boliviana

Giovanny Fabio Vera Stephanes

*Este artigo faz parte do especial de lançamento do atlas "Amazônia sob Pressão".

A Amazônia boliviana, uma floresta espessa, úmida e como muitos acreditam, eterna, é enorme. São quase 475 mil quilômetros quadrados, 43,3% do território do país, um território tão amplo que ali caberiam o Equador e o Uruguai juntos. Mas ela não está longe das ameaças que pairam sobre toda a Amazônia do continente. Apesar de ser vasta e com baixa densidade populacional - três habitantes por quilômetro quadrado - sua grandeza está também em seu valor econômico. Muitos apenas vêem este tipo de riqueza e não sua biodiversidade de importância mundial.

Um claro exemplo: 764 mil hectares (ha) foram desmatados entre 2000 e 2010, reduzindo 1,6% da floresta amazônica, segundo o artigo "A paisagem amazônica da Bolívia e seu desmatamento: Uma análise multitemporal 2000-2005-2010". Este estudo, feito pela Fundação Amigos da Natureza (FAN), mostra que até mesmo as unidades de conservação da paisagem amazônica sofreram redução, com 41 mil ha desmatados, ou 0,49% de sua superfície.

A principal causa do desmatamento na Amazônia boliviana é a conversão de terras para a agricultura e pecuária, o que acontece especialmente em áreas com acesso às estradas, afirma Juan Fernando Reyes, diretor da ONG Herencia, que publicou o estudo A Amazônia Boliviana e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Opinião semelhante tem Daniel Larrea, coordenador do Departamento de Ciências da FAN e um dos autores do atlas "Amazônia sob pressão, publicação que mapeou as principais ameaças à floresta em 9 países da região. Larrea diz que as principais pressões na Bolívia são o desmatamento e as queimadas e incêndios florestais. Em suas palavras, "o desmatamento está associado à habilitação de bosques para atividades agrícolas de subsistência ou à pecuária semi-intensiva", que na região são desenvolvidas por camponeses, colonos ou pecuaristas. As queimadas na zona são uma prática tradicional para transformar a floresta em pastagens, "que com maior frequência são feitas em pastagens naturais, mas que uma vez descontroladas afetam importantes partes do bosque circundante", diz.

De acordo ao estudo "Cartografia multitemporal de queimadas e incêndios florestais no país: detecção e validação pós-incêndio", entre os anos 2000 e 2010, 22 milhões de hectares foram queimados na Bolívia, e os piores anos foram 2005 e 2010, quando foram queimados 3,7 e 4,3 milhões de hectares, respectivamente. Além disso, o estudo indica que 45% dos incêndios ocorreram em terrenos abertos para a agricultura e a pecuária.

Outras ameaças

E não são poucas as ameaças à Amazônia na Bolívia. "O avanço da fronteira agrícola sem planejamento nem controle, grandes obras de infraestrutura como estradas, pontes, hidrelétricas e campos petrolíferos são outras ameaças", diz Sara Crespo, responsável de programas da ONG Probioma. Um exemplo é a estrada Trinidad - San Ignacio de Moxos, "onde cada vez existem mais extensões de pastagens para o gado e menos árvores, menos tartarugas, menos animais, que antes abundavam", complementa. Ela lembra que muitas ameaças são "em função das pressões vindas do Brasil".

Juan Fernando cita também outras ameaças, como a "colonização ligada às estradas, a mineração crescente nos rios da Amazônia e a contaminação que vem do Peru". Por outro lado está o interesse do governo na exploração petrolífera ao Norte dos departamentos de La Paz e Pando, o projeto da hidrelétrica em Cachuela Esperanza e a represa binacional de Ribeirão no Rio Madeira, obra promovida pelo Brasil.

"Estas obras, como a estrada do TIPNIS, são causas de desmatamento, eliminação de fauna e flora, deslocações de população, pressão sobre os recursos hídricos, o que ao final leva à degradação do bioma e favorece as mudanças climáticas", afirma Sara, da Probioma.

A Estrada Interoceânica Porto Velho-Rio Branco-Assis Brasil e sua continuação Iñapari-Puerto Maldonado no Peru evidenciam o impacto de obras que são parte da IIRSA, e que cortam as florestas amazônicas. Como pode ser ver no mapa abaixo, a área de influência da estrada (50 km a cada lado) mostra um desmatamento quase três vezes maior que na área que está fora da influência da estrada.

De acordo com Herencia, desde 1985 até 2000 nesta zona foram desmatados 83.607 ha e nos seguintes 10 anos quase 118 mil ha. Até o ano 2002, a taxa anual era de 2,7%, e entre 2001 e 2005 pulou para 4,6%. Levando em conta a construção do trecho Iñapari-Puerto Maldonado, que foi terminado em 2010, a taxa de desmatamento suba até 7,2% durante o quinquênio 2006-2011, afirma o diretor da ONG. A nova estrada promoveu o corte ilegal de madeira e seu contrabando ao Peru. Tanto que em 2008, Julio Garcia, prefeito do povoado peruano Alerta, foi assassinado quando tentou apreender um caminhão carregado de madeira ilegal que vinha da Bolívia.

O Eco, 04/12/2012

http://www.oeco.com.br/reportagens/26702-desmatamentos-e-queimadas-cres…

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