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De protesto em protesto

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Autor: Karina Miotto
05 de jul de 2010

No final de maio, dentro do badalado Shopping Boulevard, no centro de Belém, um indígena de aparentemente 25 anos de idade caminhava sossegadamente de calça jeans, sem camisa e com seu cocar na cabeça por corredores cheios de lojas. Como destoava dos demais transeuntes, chamava a atenção por onde passava. Do lado de fora do edifício, já na calçada, encontro outro indígena - devia ter uns 50 anos. Estava sentado, descansando. Me aproximo, digo olá e sento-me a seu lado. Neste momento, uma mulher mascando chiclete saca da bolsa preta de couro um celular vermelho e, sem pedir permissão, começa a fotografá-lo. "Essa não ficou boa", tira outra. Mostra para a amiga. Nem uma palavra ao homem que estava estampado no seu telefone. Ele olha para elas, indiferente. Tinha cocar na cabeça, rosto, tronco e braços pintados com urucum e jenipapo.

O fotografado era cacique Amioti, da etnia Kayapó, que naquele momento esperava o tempo passar para uma reunião na Funasa na qual reivindicaria mais atenção à saúde dos membros de sua aldeia, localizada no município de Redenção, no Pará. "Onde eu moro falta médico e medicamento", disse. Olhar sério, fala confiante. Dá para sentir que tem o peito calejado de tanto reivindicar o básico a órgãos públicos e, ainda assim, ter de conviver com um tipo de indiferença que deveria ser nada menos do que intolerável. Segundo ele, mais de seis mil pessoas vivem em sua aldeia e muitas sofrem com diarreia, tosse, gripe e malária.

"Eles estão em situação de abandono total por parte da FUNAI e da Funasa. Por isso, estão aqui correndo atrás, para ver se melhora. A necessidade por lá é muito grande", afirma Marcondes Cardoso, coordenador da ONG Ameka que, há seis anos, acompanha a situação dos Kayapó.

Amioti levantou da calçada e caminhou descalço o quarteirão que faltava para chegar ao prédio da Funasa. Após a reunião, seguiu de volta para sua terra. De lá partiu para Altamira, onde se reuniu a outros grupos indígenas em mais um protesto contra a usina hidrelétrica de Belo Monte, que afetará a vida de centenas de pessoas como ele.

Aqui e ali, no passo por vezes descalço, Amioti segue caminhando pela melhoria de seu mundo.

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