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Covid-19: com aumento de casos, município com maior população indígena do país terá novo cemitério

O Globo - https://oglobo.globo.com/sociedade
08 de mai de 2020

Covid-19: com aumento de casos, município com maior população indígena do país terá novo cemitério
Em São Gabriel da Cachoeira (AM), o número de casos confirmados da doença cresceu 583% entre 1o e 7 de maio

Leandro Prazeres

BRASÍLIA - A prefeitura de São Gabriel da Cachoeira (AM), município com maior população indígena do país, autorizou a abertura de um novo cemitério na cidade por conta do aumento no número de casos da Covid-19 na cidade. A informação foi confirmada pelo prefeito Clóvis Corubo (PT), que é indígena e contraiu a doença, precisou ser transferido para Manaus. Entre 1o e 7 de maio, o número de casos confirmados da doença cresceu 583%. Segundo o prefeito, a rede hospitalar do município não tem mais condições de atender aos pacientes com sintomas da doença e muitos estão morrendo dentro de casa.

- O nosso cemitério antigo era pequeno e a gente percebeu que não daria conta de absorver a demanda por conta dessa epidemia. Tem muita gente pegando essa doença na minha cidade - afirmou o prefeito, que está internado em um hospital da capital amazonense desde a semana passada.

Segundo a Secretaria de Saúde do Amazonas (Susam), entre os dias 1o e 7 de maio, o número de casos confirmados de Covid-19 cresceu 583%, saindo de 6 para 41.

Ainda de acordo com o órgão, o número de mortes pela doença chegou a 4, mas o secretário municipal de Saúde de São Gabriel da Cachoeira, Fábio Sampaio, acredita que este número esteja sub-notificado.

- As pessoas estão morrendo em casa. A gente faz os exames nos cadáveres e manda as amostras para Manaus, porque aqui a gente só faz o teste rápido. Tem muitos exames em Manaus aguardando a análise. Quando eles forem processados, esse número deve aumentar muito - afirmou o secretário.

Sampaio afirma que o sistema de média e alta complexidade em São Gabriel da Cachoeira entrou em colapso. Segundo ele, o único hospital da cidade não tem mais leitos para atender a população.

- Os leitos do único hospital da cidade, que é do estado, estão ocupados. Não tem mais leito e nem respiradores. Os pacientes chegam precisando de entubação, mas não conseguem porque não tem mais estrutura. Eles estão voltando pra casa e morrendo. A gente não consegue estabilizar os pacientes, mas precisa mandar para casa - afirmou o secretário.

O aumento no número de casos em São Gabriel preocupa não apenas pelo impacto na cidade, mas sobretudo pela possibilidade de a doença se espalhar pelas centenas de comunidades isoladas no meio da floresta amazônica. Algumas delas só são acessíveis de barco, avião ou helicóptero em viagens que podem demorar horas.

De acordo com o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Alto Rio Negro, Franklin Quirino, o anúncio do pagamento de auxílio emergencial feito pelo governo federal piorou ainda mais a situação pois atraiu indígenas de toda a região para a sede do município, onde está concentrada a maioria dos casos.

- Esse auxílio complicou ainda mais o nosso trabalho. Não podemos impedi-los de irem às cidades em busca desse dinheiro. Mas quando eles chegam na cidade, ficam expostos à doença - afirmou Quirino. O temor de que o auxílio poderia atrair índios para áreas atingidas pela doença foi reportado pela revista ÉPOCA em reportagem publicada no dia 11 de abril.

Franklin diz temer que índios que foram à cidade em busca do dinheiro voltem infectados para as suas aldeias localizadas em áreas de difícil acesso.

- Ontem, tive que fazer a remoção de um indígena doente que estava em uma comunidade na divisa com a Colômbia e com a Venezuela. Pra tirá-lo de lá, tive que mandar um helicóptero. É muito difícil - disse.

O coordenador afirmou que dois indígenas que viviam em aldeias em São Gabriel da Cachoeira já morreram vítimas da Covid-19.

O prefeito Clóvis Corubo, que ainda se recupera da Covid-19, disse que pensou que iria morrer e afirma temer pela vida dos indígenas do seu município.

- Eu pensei que fosse morrer. A respiração não vinha, as dores de cabeça eram horríveis. Eu já tinha começado a falar com Deus. Eu temo muito pela vida dos meus irmãos indígenas que estão em São Gabriel. Essa doença é muito difícil de enfrentar - disse.

São Gabriel da Cachoeira é um município localizado no extremo Oeste do Amazonas, na fronteira com a Colômbia e com a Venezuela. Lá, 90% da população é indígena. O município, que fica a 895 quilômetros de distância de Manaus, é o lar de 23 etnias.

Segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), já foram confirmados 176 casos de Covid-19 em índios aldeados em todo o Brasil. Desse total, 14 morreram.

A reportagem enviou questionamentos à Secretaria de Saúde do Amazonas, mas até o fechamento desta matéria, o órgão ainda não havia mandado respostas.

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