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A corrida para conter a perda de biodiversidade

CB, Opinião, p. 21
Autor: LEAPE, James P.
22 de mar de 2006

A corrida para conter a perda de biodiversidade

James P. Leape
Diretor-geral do WWF-Internacional

Com a perda de 13 milhões de hectares de florestas naturais por ano - num ritmo aproximado de 25 hectares por minuto -, está em curso uma verdadeira corrida para proteger o que resta das florestas do mundo. Se os governos quiserem reduzir significativamente a perda de biodiversidade até 2010 - conforme compromisso firmado na assinatura da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas -, será necessário conter a maré de desmatamento e aumentar os esforços de proteção e uso sustentável, por meio de práticas como o manejo florestal certificado.

Florestas regulam o clima, concentram a diversidade biológica e abrigam mais de dois terços das espécies terrestres conhecidas, além de numerosas plantas e ervas, algumas das quais podem guardar os segredos para a cura do câncer e de outras doenças. Estima-se que cerca de 1,6 bilhão de pessoas no mundo dependam de florestas, incluindo 60 milhões de povos indígenas, para quem elas são o lar. Mas apenas 12%, ou 480 milhões de hectares das florestas do planeta, são formalmente protegidos. A rede ambientalista mundial WWF participa dos esforços para o aumento da proteção, ajudando a manter vastas áreas de florestas e paisagens naturais na Amazônia, em Bornéu, na Bacia do Congo, na Rússia, no Canadá, na China e em outros países. A Rede WWF espera que mais 75 milhões de hectares de florestas estejam protegidos até 2010.

Com um tal cronograma e a apenas alguns poucos anos até 2010, o único meio de atingir essas ambiciosas - mas factíveis - metas é por meio de criativas parcerias. A mais ambiciosa parceria até o momento é a do programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), liderado pelo governo do Brasil em colaboração com o Banco Mundial, o Fundo Global para o Meio Ambiente, o Banco de Cooperação da Alemanha(KfW), o Funbio, o WWF -Brasil e comunidades locais. Por meio dessa iniciativa, cerca de 50 milhões de hectares dos diferentes habitats e espécies da Amazônia serão protegidos num sistema de reservas e parques bem administrados e financiados - uma área superior ao total de parques nacionais dos EUA.

Proteger a Amazônia de altos índices de desmatamento não é uma tarefa fácil, mas a iniciativa com múltiplos parceiros tem cumprido as expectativas e fornecido extraordinários resultados de conservação, em que pesem os elevados e persistentes índices de desmatamento e a indicação de que começaram a cair em 2005. Quase 16 milhões de hectares de áreas protegidas já foram criados. E, no mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto criando novas áreas protegidas no Pará. Com 6,4 milhões de hectares - duas vezes o tamanho da Bélgica -, elas incluem dois novos parques nacionais e a expansão de um terceiro, quatro florestas nacionais e uma zona de proteção ambiental na qual o desenvolvimento é estritamente controlado.

Esse mosaico de novas áreasprotegidas cria uma genuína expectativa de conter o desmatamento, conservar a biodiversidade e promover o desenvolvimento sustentável local e regional. Esforços como esse - que implica o trabalho em grande escala, com o envolvimento de múltiplos setores da sociedade e parceiros fortes e comprometidos - são fundamentais para acabar com o desmatamento sem planejamento.

Centenas de comunidades indígenas da Amazônia contribuem para a rica diversidade cultural da região. É importante que comunidades locais e indígenas façam parte do processo de conservação. Sem elas, a biodiversidade
certamente seria perdida.

A visão da conservação em larga escala no Brasil, alicerçada em sólida base científica, fortes alianças públicas e privadas, e no envolvimento comunitário, é uma receita de sucesso e deve ser seguida em outros lugares. A conservação e o manejo sustentável de florestas e espécies que nelas vivem são fundamentais para a sobrevivência de comunidades locais, rurais e indígenas no mundo em desenvolvimento. Muitas delas são pobres e foram marginalizadas por maltraçadas estratégias de desenvolvimento do passado. Compromissos claros e parcerias ambiciosas são o segredo para atingir com sucesso a conservação.

Diplomatas e ambientalistas reunidos esta semana em Curitiba, na Oitava Conferência das Partes (COP8) da Convenção sobre Diversidade Biológica, para discutir o ritmo e os índices de degradação e destruição dos recursos naturais do mundo deveriam encarar iniciativas de conservação de larga escala que envolvem parceiros mútliplos como um meio de atingir os alvos estabelecidos para 2010.

CB, 22/03/2006, Opinião, p. 21

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