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Conexão milionária

CB, Mundo, p. 24
19 de jul de 2008

Conexão milionária
Na Bolívia, Lula e Chávez, da Venezuela, oferecem US$ 600 milhões para a conclusão de estradas.
Presidente brasileiro pediu mais investimentos da Petrobras no país e seguiu para a Colômbia

Viviane Vaz
Enviada especial

Riberalta (Bolívia) - Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, da Venezuela, deram ontem uma demonstração irrefutável de apoio ao colega boliviano, Evo Morales. Eles anunciaram um financiamento de US$ 600 milhões para a conclusão de um projeto ambicioso: a integração da infra-estrutura logística e energética dos três países. O Brasil vai construir a estrada Rurrenabaque-Riberalta, e a Venezuela vai continuar o trecho Santa Bárbara-La Paz.
Os três chefes de Estado se reuniram em Riberalta faltando apenas três semanas para o referendo revogatório dos cargos de presidente, vice-presidente, e dos nove governadores da Bolívia. A intenção inicial de Lula era prometer US$ 230 milhões. Como Chávez ofereceu US$ 300 milhões, o brasileiro aumentou seu lance em US$ 70 milhões. O projeto de construção de estradas é a continuação de uma estratégia muito mais ampla de cooperação e se insere na Iniciativa pela Integração da Infra-estrutura Sulamericana (IIRSA), um amplo projeto que conecta obras nacionais ao contexto regional, lançado há oito anos em Brasília.
O financiamento brasileiro arrancou elogios de Chávez, que começou seu discurso em Riberalta chamando o país vizinho de "Brasil, essa potência integradora, Brasil generoso". E depois acrescentou que o "Brasil sempre ganha", referindo-se aos jogos de futebol entre as duas seleções. Em seu pronunciamento, Lula havia feito referência ao esporte: disse que desafiaria Morales para uma partida, mas deixou o venezuelano de lado. "Não vou desafiar Chávez para o futebol, porque a especialidade dele é o beisebol, apesar de que a Venezuela ganhou do Brasil por 2 a 0", brincou o brasileiro, lembrando o amistoso mais recente entre as equipes.
Lula, considerado pela população de Riberalta um líder regional - no departamento de Beni, onde fica a pequena cidade do nordeste boliviano, Chávez não é visto com bons olhos devido às ingerências no governo de Morales -, não poupou elogios ao presidente indígena. "Quando vi um povo boliviano que elegia um índio para ser presidente do país, senti que a tua eleição talvez tenha sido muito mais significativa que a eleição de um metalúrgico no Brasil", declarou Lula. Morales aproveitou para agradecer o apoio de Lula à candidatura do economista boliviano Pablo Solom ao cargo de secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas.
Mudança irreversível
Atento à proximidade do referendo de 10 de agosto na Bolívia, Chávez também caprichou no apoio ao líder boliviano. "Aqui estamos, Lula e este humilde servidor, para dizer que, enquanto pudermos, apoiaremos Evo e o processo da nova Bolívia, do renascimento desta pátria", disse. Contente com o duplo respaldo, Morales garantiu que "o processo de mudança", promovido por ele desde a eleição, há dois anos, "é irreversível". Em mais uma medida que agrada ao eleitorado, ele anunciou ontem a redução das tarifas de telefonia móvel pré-paga entre 17% e 22%. A Entel, empresa que presta esse tipo de serviço em território boliviano, foi nacionalizada em 1o de maio.
O presidente brasileiro ainda incluiu no discurso um apelo especial: pediu que a Petrobras volte a investir na Bolívia. Em março de 2007, autoridades da estatal anunciaram a suspensão dos investimentos no país vizinho, em meio à crise que levou o Brasil a pagar mais pela permanência da empresa em território boliviano. Em novembro passado, porém, o Planalto anunciou um pacote de US$ 750 milhões em projetos no setor de hidrocarbonetos que inclui a exploração de gás em novas áreas.
A colaboração brasileira na construção do trecho de estrada entre Rurrenabaque e Riberalta - que inclui a ponte em Guajará Mirim - facilitará o acesso de mercadorias nacionais aos portos do Chile e do Peru. Além disso, o governo acredita que a obra permitirá um maior controle na fronteira amazônica. A estrada, chamada por Morales de "corredor bioceânico de exportação", tem cerca de 600 km de extensão. A parte que será asfaltada com recursos brasileiros mede 412 km.

CB, 19/07/2008, Mundo, p. 24

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