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Cientistas acham sinais mais antigos de agricultura no país

FSP, Ciência, p. B5
Autor: LOPES, Reinaldo José
27 de jul de 2018

Cientistas acham sinais mais antigos de agricultura no país

Reinaldo José Lopes

Mandioca, feijão, abóbora, goiaba, castanha-do-pará: poderia ser uma lista de compras nos supermercados do século 21, mas é o resumo da revolução agrícola que estava acontecendo na Amazônia a partir de 9.000 anos atrás. Num sítio arqueológico perto de Porto Velho, pesquisadores acharam uma série de pistas sobre as primeiras formas de cultivo de plantas em solo brasileiro.
Algumas das datações obtidas pela equipe estão entre as mais recuadas de toda a América do Sul, perdendo apenas para os Andes. Os indícios vão além do plantio propriamente dito: o grupo também encontrou exemplos muito antigos da chamada terra preta de índio, um solo antropogênico (ou seja, gerado pela ação humana), resultado da acumulação e do manejo de resíduos orgânicos numa escala considerável de tempo.
"Para mim, os habitantes dessa área eram pescadores sedentários vivendo às margens de um dos lugares mais piscosos da Amazônia, usando seus quintais para fazer experimentos com o cultivo e o manejo de plantas", resume Eduardo Góes Neves, do MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia da USP). Neves e a britânica Jennifer Watling, também do MAE-USP, estão entre os autores de um artigo descrevendo as descobertas na revista científica "PLoS ONE".
Os dados vêm das vizinhanças da chamada Cachoeira do Teotônio (foto acima), no rio Madeira, local que, antes da construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, em 2013, abrigava uma vila de pescadores. Outros trabalhos na região já tinham indicado que a formação da terra preta ali era um fenômeno muito antigo, apontando para a possibilidade de atividade agrícola há vários milhares de anos.
Ademais, não é de hoje que o sudoeste amazônico (onde fica Rondônia) é considerado um grande candidato a berço pré-histórico da agricultura, ocupando uma posição não muito diferente de regiões como o Crescente Fértil, no Oriente Médio, ou os vales dos grandes rios da China.
Quem estuda a diversidade genética de importantes espécies cultivadas hoje, como a própria mandioca, o amendoim e a pupunha, costuma apontar o sudoeste da Amazônia e seus arredores como centros de origem de tais cultivos. É possível inferir isso com base na distribuição de variedades e parentes selvagens das plantas domesticadas (em geral, as regiões que abrigam a maior diversidade genética natural dos vegetais costumam corresponder aos centros de origem).
Entretanto, apesar de essa inferência ser algo bastante lógico, evidências diretas de práticas agrícolas muito antigas na região são escassas. Parte do problema é a relativa falta de estudos arqueológicos de longo prazo e grande escala - algo que tem mudado bastante nas últimas décadas, graças ao grupo da USP e a outros cientistas. As condições climáticas e de solo, além do mais, não ajudam muito na preservação da matéria orgânica.
Watling, Neves e companhia resolveram a segunda parte do problema por meio de um "pente-fino" no material que escavaram, usando métodos para peneirar cuidadosamente amostras de solo e extrair resíduos microscópicos de vegetais que tinham ficado grudados em instrumentos de pedra (usados para cortar ou ralar plantas, presumivelmente).
Entre esses resquícios, destacam-se pequenos grãos de amido produzidos pelas plantas e ainda os chamados fitólitos, estruturas microscópicas feitas de sílica (essencialmente o mesmo material dos grãos de areia) presentes no organismo vegetal. Tanto fitólitos quanto grãos de amido possuem formatos específicos dependendo do tipo de planta que os produz, o que permite identificar a presença de uma espécie mesmo depois que suas folhas e frutos já se decompuseram - e também há diferenças detectáveis entre esses elementos quando se comparam a forma selvagem e a forma domesticada de uma planta.
Além desses elementos, os pesquisadores também conseguiram identificar alguns restos macroscópicos de plantas, como cascas, sementes e fragmentos de tubérculos e raízes. E o que eles viram foi o que parece ser a progressiva intensificação do uso de recursos vegetais e a incorporação de vários componentes de um pacote agrícola ao longo desse processo.
Nos níveis mais antigos do sítio arqueológico, com idade a partir de 9.000 anos, ainda não há a presença de terra preta. Por outro lado, os pesquisadores identificaram fitólitos que, ao que tudo indica, são de ariá (Calathea allouia), uma das mais antigas plantas domesticadas nas Américas, cujos tubérculos, comparados a batatas, têm gosto que lembra o de certas variedades de milho quando cozidos.
"Os dados confirmam a importância de tubérculos como alvos iniciais para domesticação nos trópicos. Eles são um excelente complemento a uma dieta baseada em proteína animal, no caso, a pesca, como pensamos que era o caso dos habitantes de Teotônio", explica Neves. "Têm sempre uma grande capacidade de armazenamento no próprio solo, o que é um fator crítico para contextos quentes e úmidos. Essas plantas também podem se reproduzir por crescimento vegetativo, o que confere a elas uma baita versatilidade."
De quebra, essa fase do sítio apresenta restos macroscópicos de castanha-do-pará, goiaba e pequiá, fruta típica da Amazônia. No começo, esses frutos eram coletados, mas o uso constante desses recursos pelas populações humanas desencadeou uma redistribuição dos indivíduos dessas espécies pela região, alterando a composição da floresta e "domesticando" o próprio ambiente. As goiabeiras, por exemplo, "preferem" ambientes perturbados pela ação humana, e não a mata intacta.
As práticas agrícolas parecem se firmar de vez em torno de 6.000 anos atrás, época na qual aparecem fitólitos de mandioca e abóbora e grãos de amido derivados de feijão no sítio. Segundo os pesquisadores, a mandioca pode ter sido domesticada na própria região (de fato, alguns tubérculos carbonizados sem identificação precisa da fase anterior podem corresponder à planta), enquanto a abóbora e o feijão podem ser originários de outras áreas, tendo chegado à atual Rondônia por antigas rotas de comércio.
A pesquisa teve apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

FSP, 27/07/2018, Ciência, p. B5

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