O Globo, Economia, p. 30
01 de Set de 2006
Bolívia mobiliza Forças Armadas para expulsar duas madeireiras brasileiras
Segundo vice-ministro, ação foi exclusivamente contra empresários
O governo boliviano mobilizou ontem forças de elite da polícia e das Forças Armadas na fronteira com o Acre, para expulsar duas madeireiras brasileiras supostamente estabelecidas ilegalmente na província de Pando, região amazônica ao norte da Bolívia. A ação foi confirmada pelo vice-ministro de Interior da Bolívia, Rafael Puente.
Estamos desalojando apenas empresários. Não tocamos nenhum outro brasileiro pobre assentado em terras fiscais bolivianas - assegurou Puente.
No entanto, o vice-ministro boliviano disse ainda que a desocupação desses brasileiros será feita posteriormente, "em colaboração com o governo brasileiro para não deixá-los na rua".
- A lei será cumprida, mas respeitando as necessidades das pessoas - acrescentou.
De acordo com o governo do presidente Evo Morales, existem hoje 500 brasileiros ocupando ilegalmente terras em Pando. Operações similares foram realizadas em outras quatro regiões.
Em Santa Cruz, no Leste da Bolívia, forças policiais e militares recuperaram terras que "estavam ocupadas ilegalmente por grileiros" na região de Guarayos. Estas terras, cerca de 1.800 hectares, serão entregues a camponeses do Movimento Sem Terra e grupos indígenas da etnia Yuquises, disse o vice-ministro boliviano.
A iniciativa deixou outros empresários pecuaristas dessa região em estado de alerta.
O presidente da Câmara Agropecuária do Oriente, Maurício Roca, criticou a medida, afirmando que o governo de Morales adota um duplo padrão porque supostamente tolera invasões de terras por parte de camponeses.
Governo pretende recuperar terras ocupadas Ilegalmente
Puente disse que, na ação de desalojamento das madeireiras, foram mobilizados cinco grupos especiais das forças de segurança na província de Pando. 0 vice-ministro lembrou que na semana passada o governo de Evo Morales decretou a nacionalização das reservas florestais na fronteira amazônica da Bolívia com o Peru. Segundo ele, a intenção do governo é recuperar para o Estado terras na fronteira ocupadas ilegalmente por estrangeiros e bolivianos.
Desde que assumiu, Morales realiza uma política de soberania nacional, com a criação de postos militares nos limites territoriais da Bolívia, país que compartilha 7.000 quilômetros de fronteira com os vizinhos Brasil, Argentina, Peru, Chile e Paraguai. Além disso, Morales nacionalizou as reservas extrativistas do país, inclusive seus mananciais de gás natural, petróleo e minérios.
Esta política acarretou numa série de conflitos e disputas tanto no âmbito empresarial, envolvendo por exemplo a Petrobras e outras petrolíferas estrangeiras, como na esfera governamental.
A política de Morales também estimulou ações de grupos sociais, especialmente etnias indígenas. No mais recente episódio, na semana passada, índios guaranis ocuparam uma estação de controle do gasoduto de Transierra - consórcio com participação da Petrobras, da hispano-argentina RepsolYPF e da francesa TotalFinaElf.
Eles ameaçaram fechar uma válvula de passagem de gás natural, para reivindicar a entrega de US$ 9 milhões prometidos pela Petrobras para executar obras sociais nos próximos 20 anos. Os índios estão em negociação com o governo boliviano.
O Globo, 01/09/2006, Economia, p. 30
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