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Barbárie e Resistência

Cimi- https://medium.com/@ciminacional
Autor: Patrícia Bonilha
22 de jun de 2016

Dezembro de 1973

No auge da ditadura militar, durante semanas, seis indígenas Avá-Canoeiro do Rio Araguaia foram colocados em um cercado de madeira no quintal de uma pequena farmácia da fazenda Canuanã, na Ilha do Bananal, região Centro-Oeste do Brasil. Após terem sido perseguidos e caçados como animais selvagens, ficaram em exposição como animais de um zoológico (foto acima). Curiosas e intrigadas, pessoas vinham dos arredores e até mesmo de povoados distantes para testemunhar a atração inusitada: temidos índios "pelados" que tinham sido "domados" pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

Os veículos da "grande" imprensa, tanto nacional como estrangeira, glorificaram o corajoso "feito" da Frente de Atração do órgão indigenista do Estado, que atuou sob o comando do jovem sertanista Apoena Meirelles. Ele havia conseguido cumprir, em apenas dois meses, a precipitada missão de fazer "contato" com os Avá-Canoeiro, o povo indígena mais resistente à aproximação de todo o Brasil Central.

A Funai divulgou que esse "contato" com os Avá-Canoeiro tinha sido pacífico, como uma confraternização, e que os indígenas teriam ficado felizes e agradecidos. "Houve sorrisos, risadas e muitos abraços", garante o seu Boletim Informativo, publicado na época.

No entanto, este fabuloso e heroico episódio nunca aconteceu na realidade. Propalada aos quatro cantos do mundo como uma vitória do Estado, da ordem e do progresso, segundo os depoimentos dos próprios Avá, essa, certamente, foi uma das operações mais desastrosas, violentas e criminosas realizadas por esse órgão no Brasil.

Após dois séculos de incontáveis perseguições e fugas, esse "contato" foi percebido pelos Avá como o marco dramático de sua derrota final que, como consequência, os levou a décadas de cativeiro, radical opressão e invisibilidade... como se tivessem deixado de ser gente.

Abril de 2012

Quase quarenta anos depois, em uma reunião de lideranças de diversos povos indígenas com representantes do Executivo, o jovem Diego Avá-Canoeiro, na época com 20 anos, indignado com a total falta de compreensão sobre a calamitosa realidade de alguns povos indígenas, aponta sua borduna, tradicional arma de guerra, para duas renomadas autoridades públicas: José Weber Holanda Alves, que era braço direito do ministro da Advocacia Geral da União (AGU) Luis Inácio Adams, e o então chefe da Procuradoria Federal Especializada da Funai, Flávio Chiarelli Vicente de Azevedo, que posteriormente ocuparia o cargo de presidente interino deste órgão, e desde junho de 2015 é assessor especial do Ministério da Justiça.

"Eu disse a eles: 'Como vocês reagiriam se alguém entrasse em suas casas, destruísse o que vocês têm e ameaçasse a sobrevivência de suas famílias? Se alguém não permitisse que vocês vivessem em suas próprias casas?'. Eles ficaram me olhando, assustados", rememora Diego, neto do líder Tutawa.

Diferente do humilhante episódio vivido pelos sobreviventes de seu povo em 1973, este desafiador ato protagonizado por Diego não teve grande repercussão. No entanto, ele é extremamente simbólico. Ali, Diego explicitava que os Avá-Canoeiro do Rio Araguaia estavam inseridos em um novo ciclo da sua história.

Diante das piores condições impostas por um sistema cujos protagonistas (mineradores, criadores de gado, fazendeiros, poderosos grupos econômicos), sem qualquer pudor, destruíram vidas e desprezaram sua riqueza cultural e política e sua sabedoria ancestral, os Avá-Canoeiro, surpreendentemente, sobreviveram.

Vivenciando a narrativa mítica

Segundo revelou Agàek, filho de Tutawa, ao Grupo de Trabalho da Funai em uma ocasião, seu povo tem um mito que profetisa que em um momento da história, em que os Avá estariam restritos a poucos membros, eles seriam capturados por inimigos e passariam a viver como cativos. Depois de muito tempo, a libertação finalmente aconteceria e o grupo voltaria a se reproduzir e recompor sua estrutura política, social e cultural e a morar em sua própria terra.

Cinco fatores, especialmente, indicam que os Avá estão no caminho para a realização do mito ancestral: o crescimento populacional (atualmente, graças à Kaukamã, que teve seis filhos, eles são 23; o que significa um aumento de 460% desde 1976); a capacidade de preservação da língua nativa, de origem Tupi-Guarani-um feito incrível já que, restritos a apenas cinco sobreviventes, eram ridicularizados sempre que falavam na sua língua; a preservação de importantes conceitos, visões de mundo e práticas culturais e ancestrais; a ligação visceral com o território sagrado; e a vigorosa união que os familiares mantêm entre si, mesmo vivendo em lugares distantes.

Dentre estes fatores, merece destaque o fato de que o líder político e ipaje (xamã) Tutawa batizou as crianças nascidas após o contato com os nomes dos antepassados mortos durante as décadas de fuga, aprisionamento e submissão ao inimigo. Esta prática tem uma importante conotação identitária, já que perpetua o vínculo com os antepassados e fortalece as referências históricas e culturais Avá. Também cabe ressaltar que crianças das novas gerações têm apresentado alguns sinais de vocação xamânica, como a habilidade de cantar durante o sono.

Recentemente, sentindo-se reconhecidos como pessoas, com direitos, e com a autoestima mais elevada, os Avá-Canoeiro têm se integrado ao movimento indígena e participado de diversos debates e mobilizações. "Antes, eu não sabia que outros povos indígenas sofriam tanto. Agora, estamos mais envolvidos, não só pelas nossas crianças e pelo meu povo, mas por todos os indígenas. Somos discriminados, tirados das nossas terras. Não queremos mais este sofrimento", declarou Davi da Silva Avá Canoeiro, de 32 anos, morador da aldeia Canoanã.

Em busca da terra esbulhada

"Nossa força vem do meu avô, o Tutawa. Desde quando éramos crianças ele falava: 'A gente mora numa aldeia que não é nossa. Mesmo quando eu morrer, vocês têm que ir atrás do que querem'", ressalta Angélica da Silva Avá-Canoeiro, de 29 anos, cujo nome indígena é Typyire. Casada com um Karajá, ela mora em Santa Izabel do Morro, uma aldeia Karajá, a 160 km da Mata Azul, onde pretende morar o quanto antes.

"Em todo lugar tem discriminação, tanto na cidade como em uma aldeia de outro povo. Queremos recuperar a terra onde estão enterrados nossos ancestrais para que nossos filhos possam crescer e brincar livres, sem discriminação, e para podermos levar nossas origens para frente", conclui ela.

Convicta, Angélica não titubeia em afirmar que devolver a terra tradicional aos valentes Avá-Canoeiro é o mais relevante e urgente passo que o Estado brasileiro deve dar para iniciar o pagamento de sua incalculável dívida histórica, social e cultural junto a seu povo. Que assim seja!

Os distintos grupos Avá-Canoeiro

Separados há mais de 160 anos, os Avá-Canoeiro do Rio Araguaia possuem uma história diferenciada e se distinguem etnicamente dos Avá-Canoeiro do Rio Tocantins, que em 1983 também formavam um grupo restrito de apenas seis sobreviventes. Habitantes da Terra Indígena (TI) Avá-Canoeiro, localizada nos municípios de Minaçu e Colinas do Sul, em Goiás, os Avá do Tocantins tiveram parte de sua TI inundada pela construção da Usina Hidrelétrica Serra da Mesa na década de 1980. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), na região da bacia do Araguaia, os Avá moram na aldeia Boto Velho ou Inãwebohona, na TI de mesmo nome; na TI Javaé/Avá Canoeiro e na TI Parque do Araguaia, nos municípios de Formoso do Araguaia, Lagoa da Confusão, Sandolândia e Pium. Há informações de que há outros dois grupos de Avá-Canoeiro ainda não contatados pela Funai. Um deles provavelmente se desloca pela região serrana dos formadores do alto Rio Tocantins (GO) e o segundo deve habitar o norte da Ilha do Bananal (TO), no interior da TI Parque do Araguaia.

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