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Avanços importantes

O Globo, Opinião, p. 6
18 de Jul de 2011

Avanços importantes

Para que a economia brasileira consiga crescer a um ritmo de 4% a 5% ao ano, a capacidade instalada de geração de eletricidade do país precisa se expandir em seis mil megawatts anualmente, o que equivale à construção das duas grandes usinas do Rio Madeira (Santo Antônio e Jirau) ou de meia hidrelétrica de Belo Monte a cada doze meses. Trata-se de enorme desafio, que exige a mobilização de diversos investidores em condições de reunir, ao mesmo tempo, qualidades técnicas, gerenciais e financeiras.

O Brasil tem uma matriz de energia elétrica limpa. A parcela atribuída à geração de eletricidade a partir de combustíveis fósseis não passa de 10%, sendo que a participação do gás natural - um dos menos poluentes - nessa energia de origem térmica será crescente.

Para continuar com a matriz limpa, o Brasil deve impulsionar a geração hidrelétrica e a proveniente de fontes alternativas, como a biomassa (bagaço de cana, especialmente), a eólica (geradores movidos pelo vento) e a solar. A hidráulica é, e será por muito tempo, a de mais baixo custo, embora, por restrições ambientais, o país já não construa hidrelétricas com grandes reservatórios. As novas usinas geralmente aproveitam a vazão natural dos rios. Assim, as áreas inundadas em função de novas barragens quase sempre correspondem às que já eram atingidas no período de cheias.

Mas isso não impede que ribeirinhos (sejam eles moradores de propriedades rurais ou de localidades urbanas) possam ser afetados pelas barragens, já que precisam se situar nos melhores pontos de aproveitamento, junto a quedas de água, gargantas, desfiladeiros.

A legislação brasileira é cada vez mais rigorosa na redução dos impactos socioambientais desses empreendimentos. Dependendo do montante do investimento, o empreendedor deve pagar uma espécie de emolumentos para unidades de conservação da natureza (federais, estaduais ou municipais). Indenizações e reassentamentos não podem mais ser arbitrados sem tentativa de entendimento prévio com os atingidos.

Em muitos casos, os empreendimentos não se resumem à construção, pois são tantos os condicionantes socioambientais que o projeto passa a ser a alavanca de recuperação ou transformação de seu entorno. Durante a construção, além de investimentos em infraestrutura local, a formação de mão de obra sempre merece atenção, assim como a montagem de uma rede de fornecedores. As novas hidrelétricas do Madeira atraíram para Rondônia uma série de indústrias (cimento, montagem de equipamentos) e prestadores de serviços.

No passado, empreendimentos desse vulto estimulavam migrações internas e não raramente deixavam como herança uma população desempregada e demandante de serviços públicos municipais. É uma realidade que, felizmente, já não mais existe, pois, entre os condicionantes socioambientais, está o de contratação de mão de obra local (em uma proporção que chega a superar 60%), o que normalmente exige grande esforço de qualificação profissional. Em vez de desempregados sem perspectivas, o legado é de uma mão de obra treinada em novos ofícios. A construção civil acaba sendo a maior beneficiária desse processo. Mas, como não há almoço grátis em economia, é o consumidor de energia que, no final, paga toda a conta.

O Globo, 18/07/2011, Opinião, p. 6

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